Em 2 de março de 2016, um crime hediondo tirou a vida de Berta Cáceres, líder indígena lenca e ambientalista de projeção internacional. Seu assassinato, ocorrido na escuridão de sua casa em La Esperanza, não apenas chocou Honduras, como também reverberou no coração da América Latina e em fóruns internacionais, tornando-se um símbolo doloroso da brutalidade enfrentada por quem defende a terra e os direitos humanos.

Defensora inquebrantável do Rio Gualcarque

Berta Cáceres dedicou sua vida à proteção do povo lenca e dos recursos naturais que sustentam sua cultura e existência. Sua voz se levantou com firmeza contra interesses econômicos poderosos que ameaçavam devastar suas terras. Sua luta mais visível, e perigosa, foi a oposição ao projeto hidrelétrico “Agua Zarca”, promovido pela empresa DESA (Desarrollos Energéticos S.A.) no rio Gualcarque. Para a comunidade lenca, o Gualcarque é muito mais que um rio: é um espaço sagrado, um ser vivo essencial para sua espiritualidade e sustento. Berta não defendia apenas um curso d’água, mas a alma de seu povo.

Seu compromisso lhe rendeu o prestigioso Prêmio Goldman em 2015, o maior reconhecimento mundial para ativistas ambientais. No entanto, nem mesmo esse reconhecimento internacional foi capaz de deter seus algozes. As ameaças contra Berta eram constantes, e sua vida estava sob risco diário devido ao seu ativismo incansável.

A Trama criminosa: Estado, corporações e sicários

Com o avanço das investigações, o véu sobre os responsáveis pelo assassinato de Berta vem sendo levantado, revelando uma rede complexa e assustadora de cumplicidades. Um relatório de 524 páginas, elaborado pelo Grupo Interdisciplinar de Especialistas Independentes (GIEI), patrocinado em 2017 pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), a pedido do Estado de Honduras, foi fundamental para compreender a dimensão da conspiração.

O documento revelou que Berta Cáceres foi vítima de uma rede criminosa que envolvia agentes estatais, membros da poderosa família Atala, proprietária da DESA, , sicários e intermediários. Mais do que isso: o GIEI identificou que recursos do Banco Centro-Americano de Integração Econômica (BCIE) e do Banco de Desenvolvimento dos Países Baixos (FMO), originalmente destinados ao projeto Agua Zarca, “foram desviados de sua finalidade e utilizados para financiar uma série de atividades ilícitas ligadas à gestão violenta do conflito territorial, incluindo operações de vigilância e inteligência ilegal, incursões armadas, logística e pagamentos associados a essas ações, culminando no assassinato de Berta Cáceres.”

Essa revelação escancara a alarmante conexão entre ganância corporativa, cumplicidade estatal e violência sistemática, colocando em risco a vida das comunidades locais e de quem as defende.

Um eco de resistência na América Latina

O assassinato de Berta Cáceres não é um caso isolado. Ele se insere em um padrão de violência contra lideranças em toda a América Latina, que ousam enfrentar corporações extrativistas e governos coniventes. A brasileira Marielle Franco, também assassinada por seu ativismo, é outro exemplo trágico dessa tentativa de silenciar vozes que lutam por justiça social e ambiental. Essas mulheres tornam-se símbolos de resistência, representando a luta coletiva de povos que não se rendem diante do abuso do poder econômico.

Quase uma década após sua morte, o legado de Berta Cáceres segue vivo e ainda mais forte. Sua vida e seu sacrifício são um chamado urgente à ação em um mundo onde, muitas vezes, o lucro se sobrepõe à vida humana e ao respeito à natureza. Berta nos lembra da necessidade imperiosa de defender os direitos humanos, a justiça social e um futuro sustentável.

Sua voz continua ecoando em cada ato de resistência, em cada comunidade que se levanta para proteger sua terra e suas águas. A luta por justiça para Berta Cáceres é um lembrete permanente de que a solidariedade, a coragem e o amor pela Terra são as forças que impulsionam a verdadeira transformação. Em cada canto da América Latina, defensoras e defensores continuam seu legado, enfrentando sistemas opressivos com a esperança de um amanhã em que todos possam viver em paz e em harmonia com a natureza.