Por Hyader Epaminondas

James Cameron reafirma seu domínio sobre o impossível ao capturar o raio pela terceira vez em Pandora, mas agora ele não ilumina, incendeia. “Avatar: Fogo e Cinzas” abandona a contemplação líquida das correntes marítimas para encarar o atrito direto, com o fogo como força que consome, transforma e deixa marcas irreversíveis, ditando o ritmo da trama. O ar, carregado de cinzas, atravessa o filme como uma presença sufocante, ecoando os conflitos internos de personagens aprisionados pelo luto. Se a água ensinava a escutar, aqui o fogo exige posicionamento e amadurecimento.

A paisagem explode constantemente com vulcões, terras devastadas e nuvens de cinzas que organizam a lógica visual do filme e instauram uma sensação constante de risco. As partículas suspensas no ar funcionam quase como um filtro permanente do enquadramento, lembrando que nada ali pode ser visto de forma limpa ou inocente. Cameron trata o fogo como linguagem em um espetáculo pirotécnico, ele marca o limite da harmonia, o ponto em que o equilíbrio ecológico, espiritual e social começa a ruir sob o peso acumulado da violência, da disputa e da colonização sistemática.

A força simbólica dessa sequência, que se inicia logo após os acontecimentos do filme anterior, está em compreender o fogo como herança, ele tanto destrói quanto ilumina, tanto devora quanto anuncia possibilidade de renascimento, fazendo uma alusão à própria divindade desse universo, a Grande Mãe Eywa. Diferente da água, que se adapta, contorna e acolhe, o fogo avança, marca território e cobra um preço. É nesse cenário que a família Sully enfrenta novos desafios, não se trata mais de sobreviver em um novo ambiente, mas de sustentar vínculos afetivos em meio à radicalização do conflito. O pertencimento deixa de ser um processo de descoberta e passa a ser um gesto ativo de resistência.

Jake Sully é compelido a assumir uma postura cada vez mais militarizada, um líder tensionado pelo peso de um legado que já não pode ser preservado apenas pelo deslocamento ou pela fuga. Neytiri, por sua vez, encontra o espaço mais orgânico para a erupção de seus afetos, um luto que não se contém nem se ameniza, mas transborda em fúria e dor. Essa explosão emocional se articula em paralelo direto à introdução de Varang, a líder do clã Mangkwan.

Cameron permite que Neytiri exista plenamente na contradição entre luto, ódio e devoção à ancestralidade e à maternidade, conduzindo a narrativa mais pela palavra do que pelo olhar e pela recusa em silenciar a própria dor.

Onde antes predominava a curiosidade e a comunhão com a natureza, instala-se agora a percepção precoce da perda. É nesse movimento de ruptura e renascimento que o elenco jovem começa a se desvincular da tutela dos pais.

Lo’ak tenta traçar seu próprio caminho após a morte do irmão, Kiri busca compreender a natureza de sua ligação com o planeta e Spider assume um protagonismo inesperado, conectando todos os arcos em um conflito de escala colossal. O amadurecimento deles surge como uma forma de ressignificar a tradição e encontrar novos sentidos em meio ao luto e à herança recebida.

De olhos abertos, começa uma vida nova.

É nesse ambiente que o arco do Coronel Miles Quaritch assume seu protagonismo. Ressuscitado em um corpo Na’vi no filme anterior, Quaritch retorna como um sujeito dividido, como mercadoria reembalada. Sua consciência desliza de um corpo humano descartável para um corpo nativo funcional, como um valor de troca que abandona um suporte esgotado para se inscrever em outro mais eficiente. O que se preserva não é a vida, mas a utilidade e, nessa busca por dever, acaba encontrando uma identidade própria. O sujeito sobrevive apenas enquanto função operacional da máquina colonial.

Quaritch encarna a lógica máxima do consumo: consumir é ser consumido. Seu corpo Na’vi não representa pertencimento, mas embalagem. Ele não se torna parte de Pandora, ele transforma Pandora em extensão de si mesmo enquanto imagem de poder. Sua identidade não se constrói pelo vínculo, mas pela posse, posse de força, de comando, de capacidade de destruição. Nesse movimento, o corpo deixa de ser território espiritual e passa a ser signo. A mercadoria já não é apenas o recurso extraído do planeta, mas o próprio sujeito que circula como instrumento.

A relação entre Quaritch e Varang explicita essa lógica de forma ainda mais violenta. Varang deixa o papel de antagonista para ser a manifestação interna de um mundo que começa a organizar sua identidade a partir do conflito permanente. Se Quaritch representa o colonizador que aprende a operar no plano da imagem e do valor, Varang encarna o território que internaliza a guerra como linguagem. Ambos habitam o mesmo regime simbólico, onde o fogo deixa de ser ritual, defesa ou memória ancestral e passa a funcionar como espetáculo, como signo de dominação e promessa ilusória de completude.

Diferente dos capítulos anteriores, o conflito humano se infiltra de maneira estrutural através dos dilemas internos de Quaritch. A colonização já não é só exploração: é ocupação, apagamento cultural e reescrita violenta do território. Ainda que alguns antagonistas permaneçam presos a arquétipos rígidos, o impacto de suas ações é sentido de forma mais profunda porque Pandora já não consegue absorver o golpe sem sangrar. O planeta reage, mas reage ferido.

O fogo também revela um lado mais ambíguo dos próprios Na’vi com a introdução de novas culturas associadas a territórios hostis e expande a noção de que o planeta nunca foi um paraíso homogêneo. Cameron entende que ecossistemas complexos também produzem intolerância e essa recusa à idealização dá peso à narrativa e impede que a saga se acomode em uma visão romantizada da natureza pura. Isso fica explícito nos micro movimentos dos personagens novos do clã Mangkwan e nos dilemas enfrentados pelos Tulkuns, que se recusam a recorrer à violência, mas se veem encurralados em meio ao massacre de seu próprio povo.

A identidade passa a ser definida pela posse, pela imagem e pela capacidade de destruição e Quaritch novamente se torna o avatar dessa lógica. As chamas não se apagam, elas cessam momentaneamente em seu desfecho, deixando o terreno coberto de restos, fumaça e silêncio em combustão controlada, preparando o terreno para o futuro da saga.

“Avatar: Fogo e Cinzas” confirma que a força da saga está em sua capacidade de reorganizar seus próprios símbolos. Se a água ensinou a fluir, o fogo ensina a permanecer. Entre brasas e fuligem, Cameron entrega o capítulo mais sombrio, mais político e mais maduro da franquia, com um final surpreendentemente otimista, capaz de dar sentido a todo o caos e à destruição que marcam esta primeira trilogia.