
As mulheres que não se silenciaram: o papel das famílias na luta por memória e justiça na ditadura
Vítimas da violência estatal na ditadura se identificam com ‘Ainda Estou Aqui’, filme indicado a 3 categorias do Oscar.
Por Leonardo Siqueira
Familiares que perderam um parente na ditadura civil-militar de 64 se identificam com ‘Ainda Estou Aqui’. Para eles, as famílias ainda são as principais protagonistas contra o regime. Produções como a dirigida por Walter Salles são fundamentais para reacender o debate sobre as investigações de mortos e desaparecidos, além de evitar que momentos como o 8 de janeiro de 2023 se repitam.
Era meia noite do dia 23 de março de 1979 quando Lygia Jobim, grávida e com 29 anos, recebeu uma ligação de uma amiga da sua mãe: seu pai ainda não tinha voltado para casa. Ela e o marido foram para a residência dos pais, enquanto isso, os tios de Lygia passaram as horas seguintes rondando delegacias e IMLs sem respostas.
“Uma coisa que me impactou muito no filme foi quando a Eunice chegou na janela e olhou para baixo, para ver se ele (Rubens Paiva) tinha chegado no carro. Eu vi a minha mãe fazer isso duas vezes naquela noite e exatamente da mesma forma”, relembra Lygia.
No dia 24, o corpo do diplomata José Jobim foi encontrado com uma corda no pescoço, amarrado em uma árvore, os joelhos em uma pedra e os pés no chão. Um médico da família quis assistir a autópsia, mas oficiais disseram que era sigilosa.
“Eu tenho certeza que ele foi morto por revelar toda a roubalheira que houve em Itaipu. Na verdade, meu pai nunca pertenceu a nenhum grupo de luta armada ou organização clandestina. Ele tinha uma arma muito poderosa, a máquina de escrever”, afirma a advogada.
José tinha voltado da posse de João Figueiredo, onde ele havia comentado sobre iniciar um livro com os bastidores da construção da usina de Itaipu. O diplomata era um especialista no assunto, tendo sido indicado por João Goulart em fevereiro de 1964, como representante do Brasil na Comissão Especial de Negociação com o Paraguai. No entanto, havia denúncias de que a obra tinha sido superfaturada: o orçamento que deveria ser de US$ 1,3 bilhão foi para US$ 13 bilhões.
Legenda: Momento em que Lygia Jobim, junto de outros descendentes de José Jobim, recebe o certificado de óbito de seu pai.
Hoje com 74 anos, Lygia lembra da sensação de estar feliz com uma certidão de óbito, assim como demonstrado no filme de Walter Salles. Em 2018, ela recebeu do Estado o documento comprovando o assassinato de seu pai por um agente genérico: a ditadura militar. “Eu gostaria muito de saber o que foi que o matou, quem matou, quem mandou matar e de onde partiu o telex na delegacia dizendo que a morte dele não deveria ser investigada”.
Ela acredita que os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023, na Praça dos Três Poderes, e a vitória de Jair Bolsonaro em 2018 são consequências diretas da impunidade dos militares. “Você foi torturador, mas não foi julgado, nem condenado, mesmo assim anistiado. Como é que é isso? Você não pode ser anistiado, primeiro tem que ser julgado e condenado”, argumenta Lydia.
A advogada viu sua mãe viver uma vida inteira atrás de respostas. Ligia Collor Jobim disse dias depois da morte do marido: “Eu vou até o fim nessa história e não é só por nós, mas pelo país que não merece essa mentira”.
Os Herzog
Clarice Herzog, 83 anos, foi outra das vozes contra a impunidade da ditadura. Em 1978, ela conseguiu uma sentença histórica: o juiz Márcio José de Moraes condenou a União, declarando que Vladimir Herzog foi detido e morto devido a graves torturas.
“Ela acreditava que se pedisse também uma reparação financeira, o Estado fazia um cheque e o caso estava finalizado. Não era uma questão financeira, era uma questão de justiça”, lembra Ivo Herzog, filho do jornalista assassinado.
Para ele, o filme que concorre a três categorias no Oscar tem uma intensidade que não precisa de cenas chocantes. É uma somatória delicada de cenas de absurdo. Ivo relembra ainda conversa com Marcelo Rubens Paiva durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip): “O seu pai e o meu pai não são herois, são vítimas da ditadura. As verdadeiras heroínas são as companheiras deles”.

Ivo, junto da mãe, conseguiu em 2009 que o caso Herzog fosse levado à Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanas (CIDH/OEA). Nove anos depois, em 2018, pela primeira vez um tribunal internacional concluiu que o Brasil cometeu crime contra a humanidade durante o período da ditadura militar. Mesmo assim, o país ainda não investigou os agentes públicos que praticaram o assassinato.
“Faltam duas (sentenças) muito importantes: o pedido de perdão e o novo olhar sobre a lei de anistia para que todos os crimes cometidos durante esse período possam ser investigados”, esclarece Ivo, hoje com 58 anos.
Clarice conseguiu o direito a pensão vitalícia 50 anos depois da morte do marido, a luta custou principalmente a sua saúde, hoje ela enfrenta um grau avançado de Alzheimer. Mas a indenização não é a única luta da família que criou um instituto que leva o nome de Vladimir. Eles querem o que é certo do ponto de vista jurídico: investigação e condenação.
“Eu tenho uma leitura de que, enquanto o Brasil não pede esse perdão, ele não reconhece que é um país com uma cultura de violência”, afirma Ivo.
Edna Lott, a voz que não ecoou nos jornais
“Elas (mãe e tias) pressionaram a mulher do Geisel na saída da igreja de Copacabana: ‘O meu filho está sendo torturado’, e a mulher respondeu: ‘Olha, se não der uns tapas, eles não falam nada’”, relembra Nelson Lott, filho de Edna Lott preso durante a ditadura.
Quando o filho foi detido em 1970, Edna tomou conhecimento das torturas que aconteciam no Departamento de Ordem Política e Social do Rio de Janeiro (Dops-RJ) e decidiu agir. Foi deputada estadual pelo estado da Guanabara até 1969, quando teve o mandato cassado pela ditadura civil-militar.
Edna era vista como principal líder nacionalista antes de 1964. Filha do Marechal Lott, um militar contra o golpe que teve todos os seus direitos cassados. Por ter uma família envolvida com o exército, ela decidiu denunciar o que estava acontecendo para os parentes dos agentes envolvidos e não para a imprensa.
Dentre eles, Lucy Geisel, que tinha sido colega de trabalho da deputada quando elas eram professoras do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. “Ela foi na esposa do torturador: ‘sabia que o seu marido é torturador?´”, afirmou Nelson, ex-membro da Aliança Libertadora Nacional (ALN).

A deputada foi assassinada em 1971 pelo motorista Eduardo Fernandes. O Estado definiu como crime passional. “Eu não posso te dizer se minha mãe era namorada dele ou não (do assassino). Eu acredito que não. Porque eu nunca vi os dois de mão dada, eu nunca vi os dois trocando de dedos. Quando viajavam, dormiam em quartos separados”, diz Nelson.
O historiador Felipe Lott escolheu pesquisar sobre a vida política da avó Edna. Ela quase não é comentada em casa. “Meu pai não falava sobre a mãe, embora a casa estivesse cheia de referências a ela. Isso que eu acho interessante. Era algo que chamava atenção porque é uma pessoa que não é falada, não é um tio distante, uma tia, uma prima, não. É a avó, é a mãe do pai”.
Para Felipe, o filme tem a medida certa para estar no holofote e trazer novas histórias. Ele rompe barreiras e atinge todos os públicos do país: “O filme é tão poderoso em poder alcançar e sensibilizar as pessoas (…) e fazer com que o sofrimento, a violência sofrida por outras famílias possam avançar. Famílias que não têm condição de, de repente, ver a sua história virar uma grande produção”, afirma.
Os familiares tiveram um papel fundamental durante a ditadura. Nelson relembra que, em uma cela de 30 metros quadrados, cerca de 42 pessoas se amontoavam, e tudo que era recebido pelos parentes era compartilhado. “Fazíamos uma lista para as famílias: ‘você leva biscoito maria, você cream cracker, você leite em pó, leite condensado’. De acordo com a capacidade de cada um”.
O filme ‘Ainda Estou Aqui’ conta a história de como a família Paiva resistiu contra a ditadura civil-militar depois do desaparecimento do deputado Rubens Paiva, em janeiro de 1971. Eunice, personagem interpretada por Fernanda Torres, foi ativista pelos direitos indígenas no país e buscou a verdade sobre os desaparecidos políticos do regime. Ela morreu em dezembro de 2018, depois de conviver com o Alzheimer por 14 anos.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.