A Câmara dos Deputados da Argentina aprovou, na madrugada desta quinta-feira, um polêmico projeto que flexibiliza a proteção das geleiras, impulsionado pelo governo de Javier Milei sob o argumento de atrair investimentos milionários do setor minerador. Para organizações ambientais, no entanto, a medida representa um grave retrocesso e uma ameaça direta a reservas estratégicas de água doce.

A votação terminou com 137 votos a favor e 111 contra. Após a aprovação, organizações ambientalistas anunciaram que irão à Justiça, denunciando o caráter regressivo e inconstitucional da nova lei, e convocaram a população a se somar à “maior ação coletiva em defesa da água”.

A mudança no marco regulatório pode destravar investimentos superiores a 30 bilhões de dólares na próxima década, segundo estimativas do setor minerador — sendo 70% destinados a novos projetos de cobre, ouro e prata. Para movimentos sociais, trata-se de mais um avanço de um modelo extrativista que coloca o lucro acima da vida.

Durante a sessão, manifestantes e organizações de esquerda enfrentaram a polícia nas imediações do Congresso. Mais cedo, ativistas do Greenpeace penduraram uma faixa em frente ao Parlamento com o alerta: “Deputados: não traiam o povo argentino. A Lei de Glaciares não se toca!”.

Foto: Natalia Miranda para Emergentes

Desde 2010, a Argentina proíbe a exploração mineradora em geleiras e ambientes periglaciais, áreas fundamentais para a regulação hídrica. A reforma, porém, restringe essa proteção apenas às formações com “funções hídricas específicas”, cuja definição ficará a cargo das províncias, muitas delas alinhadas aos interesses mineradores.

O país possui 16.968 geleiras, que ocupam mais de 8.400 km² e são essenciais para o abastecimento de água. Especialistas alertam que, em um contexto de crise climática e recuo acelerado dessas massas de gelo, reduzir sua proteção pode comprometer nascentes, agravar secas e colocar em risco o acesso à água para milhões de pessoas.