Antonio Carlos & Jocafi lançam JID026 e reafirmam sua escrita enraizada na cultura popular
Disco articula oralidade e herança afro-brasileira em canções registradas em gravação analógica
Por Nicole Adler
Com mais de cinco décadas de trajetória, Antonio Carlos & Jocafi voltam com JID026, um álbum que reafirma a força inventiva de uma das grandes parcerias da música brasileira. Surgidos na Salvador do fim dos anos 1960, os dois construíram uma obra marcada pela mistura de samba, ritmos afro-brasileiros, humor e uma forte dimensão narrativa — traços que reaparecem aqui em forma de histórias cantadas, atravessadas por temas como amor, identidade e cotidiano.
No novo disco, essa linguagem ganha novos contornos sem perder o vínculo com a tradição oral e cultural que sempre orientou a dupla. Gravado em Los Angeles, JID026 foi produzido por Adrian Younge e Ali Shaheed Muhammad, nomes ligados à estética analógica e a uma escuta atenta às texturas do som. O álbum nasceu de encontros diretos em estúdio, com composições construídas a partir de improvisos e trocas entre os músicos.

Um disco nascido do encontro
Ao longo da entrevista, a dupla narrou uma série de encontros, prováveis e improváveis, que tornaram o disco possível. A aproximação com os produtores Adrian Younge e Ali Shaheed Muhammad, intermediada por Beto Barreto, surgiu de forma quase intuitiva, mas rapidamente se transformou em afinidade criativa.
Durante a estadia, Antonio Carlos destacou o clima de convivência que atravessou todo o processo. “O Adrien é fantástico, ele é um doce de pessoa, muito gente boa. O Ali é maravilhoso”, afirmou, ao descrever a relação com os produtores. Mais do que uma gravação formal, o encontro se deu em ambiente doméstico: “A gente não ficou em hotel, ficou numa casa. Então ficamos muito perto um do outro”, afirma Antonio. Para ele, essa proximidade fez diferença no resultado. “Ainda mais com o baiano, né? Já chega junto, em dez minutos já tá conversando, já convida pra casa…”, completou.

Já Jocafi amplia essa ideia e situa o encontro em uma dimensão mais profunda, ligada à herança cultural. Para ele, há uma força comum que atravessa essas conexões. Trata-se de uma matriz africana que, segundo o músico, além de aproximar os envolvidos no processo, estrutura também a própria forma de fazer e pensar a música.
“É africanidade, sabe o que é? É essa cor maravilhosa que veio da África e que nos trouxe tanta coisa boa.”
Jocafi
Ao refletir sobre a base da música que produzem, Jocafi reafirma: “A cultura musical é muito mais importante, porque, se não fosse a África, o mundo ia estar cantando e tocando valsas…”. Na sequência, a dupla situa essa herança em territórios concretos, como o Recôncavo Baiano, apontado como um dos núcleos formadores dessa tradição, além de mencionar Tia Ciata, ligada às casas, terreiros e rodas que seguem orientando a forma como entendem e fazem música hoje.
Herança afro-brasileira e as narrativas da cultura popular
Essa perspectiva ajuda a entender como, em JID026, Antonio Carlos & Jocafi retomam a herança afro-brasileira como base das narrativas do disco. Como citado anteriormente, as faixas partem de situações do cotidiano, expressões populares e histórias que circulam na oralidade — elemento central na construção das composições da dupla.
A presença da oralidade, inclusive, aproxima o disco de discussões sobre linguagem em contextos afro-indígenas, como as propostas do pensador quilombola Antônio Bispo dos Santos, que aponta que, nesses territórios, o conhecimento se transmite sobretudo pela fala, pela escuta e pela coletividade, e não necessariamente pela escrita no sentido formal. Esse traço acompanha os dois desde o início da carreira, quando já incorporavam referências à oralidade, à música afro-brasileira e ao candomblé à sua sonoridade e às temáticas das canções.
Ao longo dos anos, isso apareceu de forma mais direta em faixas como “Simbarerê” (1972), “Kabaluerê” (1971) e “Ogun Ni Lê” (2022), que evocam orixás, ritmos afro-baianos e uma dimensão espiritual ligada à cultura negra, assim como, mais recentemente, no projeto Afro Funk Brasil (2022). Mesmo em canções mais conhecidas, como “Você Abusou” (1971), essa relação se mantém na musicalidade e no modo popular de contar histórias.
Antonio Carlos destaca que a construção das letras parte de uma escolha consciente, guiada por uma linguagem mais próxima da fala cotidiana. “Na verdade, a gente usou uma linguagem que todo mundo já usa naturalmente, reduzindo algumas palavras”, explica.
“O uso do ‘pa’, em vez de ‘para’/‘pra’. Entende como é que é? A gente já fez uma letra como o povo fala, entende?”
Antonio Carlos
O músico exemplifica esse procedimento ao comentar o uso de abreviações comuns no dia a dia. A opção, segundo ele, não é estilização, mas a tentativa de se aproximar e incorporar ao texto musical aquilo que já circula na oralidade. Assim, a dupla reforça mais uma vez sua característica marcante: uma escrita construída a partir do jeito de falar e de se comunicar das pessoas.
“O passado geralmente é o alicerce de tudo”: entre legado e permanência
A continuidade dessa escrita também aparece na forma como a dupla encara a própria trajetória. Na entrevista, Antonio Carlos & Jocafi tratam o passado como base do que seguem fazendo hoje, sem separar claramente o que é antigo do que é novo. A ideia de legado surge menos como algo a ser preservado e mais como uma prática em constante andamento — um modo de compor, tocar e pensar a música que não tenta revisitar a própria história, mas segue a partir dela.
Jocafi define a relação da dupla com o tempo de forma direta: “Olha, esse futuro é o passado. O passado geralmente é o alicerce de tudo, então não existe o futuro sem o passado; ele é como se fosse um gatilho de tudo que você pode fazer no futuro”. Na entrevista, ele trata a trajetória da dupla como um processo contínuo, em que as referências acumuladas ao longo dos anos seguem orientando o que ainda está por vir.
Ao mesmo tempo, ressalta que isso não significa repetição. “É muito gostoso você fazer alguma coisa que ninguém fez. Na música, você tem poucos caminhos para fazer alguma coisa que ninguém fez, entende? Mas a gente busca isso. A gente busca o infinito.” A fala aponta para uma tentativa constante de avançar dentro desses limites, mantendo a base construída, mas procurando sempre novas possibilidades — um desejo vivo que permanece aos 80 anos de idade.
Ao falar sobre a recepção do trabalho, Antonio Carlos & Jocafi destacam a surpresa e a satisfação em alcançar novas gerações. “Principalmente você que é a juventude, né? Mesmo que a gente queira esquecer, nós temos 80 anos, então se comunicar com essa geração, tão atrás ou tão na frente, é difícil — e nós estamos conseguindo, sabe?”.
Segundo a dupla, o público mais jovem tem se aproximado do trabalho deles em um processo gradual, o que representa, para os músicos, uma grande alegria e um estímulo para seguir produzindo. Ao situar essa conexão no presente, mas ancorada em uma forma de fazer música que vem “de muito antes de ‘Você Abusou’ (1971)”, a dupla aponta para algo que atravessa gerações sem perder o vínculo com sua origem: “isso é o jeito da gente na Bahia ainda”.



