A cena preta do centro da cidade de São Paulo é um dos vetores culturais mais importantes da grande metrópole. No cerne do que move a cultura paulistana, está a Discopédia, um rolê preto que desde 2012 vem valorizando os sons dos vinis como sua matéria-prima. No comando da casa, está Fernando Carmo da Silva, o DJ Nyack.

Na entrevista de hoje, ele fala da sua relação com os vinis, a idealização da Discopédia, a parceria com grandes nomes da música preta brasileira, as dificuldades que empreendedores pretos têm em manter seus negócios no Brasil e sua percepção sobre o avanço da pauta racial no país.

Leia com muita atenção. Senhoras e senhores, com vocês, DJ Nyack:

 

André Menezes – Como surgiu essa sua paixão pelo Hip Hop e essa ideia de ser DJ?

DJ Nyack – Cara, a minha paixão pela cultura hip-hop nasceu a partir do momento em que comecei a fazer aula de DJ num projeto chamado Do Risco ao Rabisco, de uma ONG chamada União de Negros pela Igualdade, que tinha o intuito de formar adolescentes agentes multiplicadores, que nada mais era do que o que aprendêssemos no projeto, com as aulas dos workshops que a gente tivesse, que a gente passasse para a nossa comunidade da melhor maneira possível. E, para mim, para poder fazer aula de DJ, eu tinha que fazer outras oficinas também, então, eu tinha que participar de outras oficinas, por exemplo, oficina de reciclagem, oficina de fotografia, oficina de teatro, oficina de dança, então, para além daquilo que eu queria aprender, eles davam a oportunidade da gente também aprender outras coisas, adquirir mais conhecimento, independente do curso que você gostaria de fazer.

E lá no projeto, quem me deu aula foi o DJ Marco, que hoje é meu sócio na Discopédia, e eu lembro que na primeira oficina a gente nem teve contato com os equipamentos, foi ele contando a história de como o Hip Hop nasceu, de como surgiram os quatro elementos, e eu me identifiquei de bate e pronto. Foi ali que a minha paixão pela cultura DJ, pela cultura do Hip Hop surgiu. 

Desde então eu não parei, a gente está falando de 2003, 2004, então faz 20 anos que entrei de cabeça, e sempre é um aprendizado, a gente nunca, eu pelo menos, eu não me acomodo, sempre tem alguma coisa a mais para a gente aprender, sempre tem alguma coisa a mais que a gente não sabe, então a gente está sempre em constante aprendizado.

 

André Menezes – E nesse período todo, quando foi o momento que você se ligou que realmente isso viraria um trampo mesmo?

DJ Nyack – Eu acho que foi quando eu comecei a ser convidado a fazer mais festas em São Paulo em 2007, 2008.

Em 2007 eu também comecei a trabalhar com o Emicida, então além das festas, tinha uns shows que eu fazia e foi então que pensei: eu acho que dá para viver só da minha arte. Então, foi entre  2007, 2008  quando eu vi que dava para seguir só fazendo o que eu faço.

 

André Menezes – Eu imagino que nesse caminho todo você teve muitas referências musicais e não musicais também, tem alguma ou algumas referências que você pode comentar com a gente que influenciou muito na sua caminhada?

Claro, além do Marco que foi meu professor, família Simões toda, DJ KL Jay, DJ Will, DJ Dandan que também faz parte do Discopédia comigo, DJ MF, DJ Menor, muita gente, o Kamal me ajudou muito, muita gente me influenciou muito e me ajudou no começo até hoje. E são referências que me influenciam e me inspiram a continuar fazendo o que eu faço.

André Menezes – Ainda nessa linha de referência, você trabalha com muita gente grande, como você comentou, Emicida, os próprios Racionais, que eu imagino que foram uma referência tua também, Luedji Luna. Como é poder somar o seu trabalho com o trabalho dessas grandes referências da música preta brasileira?

DJ Nyack- Para mim é gratificante demais, porque eu vejo que é uma forma de retribuição para música que me salvou várias vezes, para uma cultura que me salvou várias vezes, é um obrigado que eu tenho, é uma forma de agradecer tudo que essa cultura me proporcionou e proporciona até hoje. Então, trabalhar ao lado de artistas como, Luedji, Emicida e poder contribuir de alguma forma para a carreira deles é muito gratificante. E, de certa forma, é o meu nome sendo escrito ali na história da música e daqui a 10, 20, 30, 40 anos, quando forem pesquisar o trabalho desses artistas, vão ver meu nome lá.  

 

André Menezes –  Falando um pouco daqui onde a gente está, esse espaço sagrado que a gente tem da nossa comunidade, como é e como surgiu a Discopédia?

DJ Nyack – A Discopédia nasceu em setembro de 2012, no centro de São Paulo.  A ideia surgiu em Londres. Eu e o Dandan estávamos em turnê, eu com o Emicida, e ele em turnê com o Criolo. A gente saiu para comprar discos, uma parada que a gente sempre faz, aqui ou fora do Brasil, e coincidentemente, a gente estava na mesma cidade. A gente saiu para comprar discos e estávamos comentando como a agenda deles na época, do Emicida e do Criolo, estava muito cheia aos finais de semana e isso impedia um pouco da gente tocar nos bailes, que é uma parada que a gente sempre fez. E então eu perguntei para ele, e se a gente fizesse uma festa num dia de semana? Para que a gente consiga tocar os discos que a gente tem comprado e que não dá tempo de tocar.

O Dandan respondeu: bora fazer! E então eu dei a ideia de chamar o Marco também, porque nessa época ele também estava em turnê com a CéU. Na época, ele tocava na banda da CéU e chamamos ele para fazer parte da festa, ele topou na hora. Ele falou que já tinha uma casa em mente também que provavelmente daria certo a gente fazer por lá. O local era o Executivo Bar, na Sete de Abril. Quando a turnê acabou, nos encontramos no Brasil, fizemos uma reunião para revisar os detalhes e faltava pensar no nome, a ideia inicial era que fosse Sarau do Vinil, só que não bateu legal. 

Eu achei o nome muito grande, e também tinha um risco da galera chegar com os discos e querer tocar na festa. Quando fomos fazer fotos da arte, eu comentei com o Dandan que não estava muito feliz com o nome e ele também me disse que não estava feliz. E ele então comentou, bom, os nossos discos são os nossos livros, nossa enciclopédia e foi então que pensei “Discopédia”, ele curtiu muito! O Marco também topou e virou Discopédia. 

André Menezes – A ideia inicial sempre foi fazer a festa semanal? E começou onde?

DJ Nyack – Sim, a ideia sempre foi fazer semanal. Começou no Executivo Bar, no Bairro da República, Rua Sete de Abril, 157. Fizemos três meses, setembro até dezembro, em 2013 a gente foi para o Sarajevo, e ficamos um ano.

Em 2014 a festa foi para a Trackers, que foi onde a festa se consolidou mesmo, foi naquele local que a galera começou a colar na Discopédia mesmo, toda semana.

 

André Menezes – E me conta sobre os convidados, vocês trazem convidados para tocar também, certo?

DJ Nyack – Trazemos alguns convidados sim, a última festa que a gente fez virando a noite, véspera de feriado inclusive, a gente chamou o KL Jay, foi bem legal. Chamamos o KL Jay, a Mia B e a Vivian Marques; já convidamos o Mark, o Skratch Bastid, um DJ canadense muito f***, já tocou também com a gente. O DJ Mace já colou na festa, uma galera já passou pela Discopédia.

 

André Menezes – Você é um cara que empreende aqui em São Paulo, como é ser um empreendedor preto em São Paulo?

DJ Nyack – Falando de Discopédia, a gente se preocupa muito com os valores de entrada, considerando que a maioria do nosso povo infelizmente não tem poder aquisitivo.

E ainda mais por ser uma festa semanal, a gente tenta pensar em tudo, quanto a pessoa vai gastar para chegar aqui, quanto vai gastar para beber, estamos sempre conversando com os lugares que a gente toca, para ver o preço da bebida.

E também, um dos motivos da festa ir até 11h, 11h30min é pra que dê tempo da galera pegar transporte público, não depender de Uber e esses outros aplicativos de transporte, para poder ir embora. A gente tem que sempre inovar e pensar que seja bom para nós e também para quem consome a nossa arte, acho que é muito importante essa troca.

 

André Menezes – Como você enxerga a nossa pauta? Você entende que tivemos avanços?

DJ Nyack – Eu acho que o avanço está aí, ao mesmo tempo, eu acho que é um trabalho de formiga, um passo de cada vez, passos largos, passos curtos, independente, mas acho que a gente tem que se movimentar. E eu vejo que a gente está evoluindo, sim, apesar dos pesares. Na pandemia, a gente teve um breque f**** para além do governo que a gente estava antes, que atrasou bastante a evolução de muita gente, de muita cultura.

Mas eu vejo que a gente não se deu por vencido, graças a Deus, a gente se apoiou mutuamente e eu acho que é isso que é o mais importante, apesar das adversidades, a gente sempre encontrou um jeito de se manter de pé e seguir, senão a gente não consegue viver. Sem a arte, a gente não consegue viver.

 

André Menezes – Falando sobre os seus projetos futuros, além dos seus shows, além da Discopédia, o que mais a gente pode esperar vindo de você nos próximos meses, nos próximos anos, você pode adiantar alguma coisa?

DJ Nyack – Acho que vai sair o disco da Rádio Gatilho, Rádio Gatilho FM, que é o projeto que eu tenho de R &B, esse ano, vai sair.

Eu tenho trabalhado com artistas dos Estados Unidos, MCs dos Estados Unidos, que também está no processo de finalização, então vem mais esse trampo autoral meu com artistas de fora, que eu posso adiantar que está bem encaminhado, é isso, esse ano.

 

André Menezes – Qual dica ou conselho você daria para um jovem que está querendo ser DJ também? 

DJ Nyack – Cara, é difícil dar dica, mas eu vou dizer o que me ajudou. Por mais que seja difícil, a gente tem que persistir e ter paciência também, às vezes as oportunidades estão aí, mas a gente não está pronto para elas. Então, a gente tem que ter calma, entender o nosso tempo, entender o tempo das coisas e que nunca estamos sozinhos. A gente está trampando e tem sempre alguém vendo, então se você está querendo começar, não desista, se é isso que você quer, se é isso que você tem convicção de que você quer, vai em frente e se acaso você mudar de ideia e se encontrar em outro caminho, não tem problema também. Estamos sempre em constante evolução, as nossas opiniões mudam e está tudo certo, show. Desde que você seja verdadeiro consigo, acho que não tem problema.

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

Colunista NINJA

Memória, verdade e justiça

FODA

Qual a relação entre a expressão de gênero e a violência no Carnaval?

Márcio Santilli

Guerras e polarização política bloqueiam avanços na conferência do clima

Colunista NINJA

Vitória de Milei: é preciso compor uma nova canção

Márcio Santilli

Ponto de não retorno

Andréia de Jesus

PEC das drogas aprofunda racismo e violência contra juventude negra

Márcio Santilli

Através do Equador

XEPA

Cozinhar ou não cozinhar: eis a questão?!

Mônica Francisco

O Caso Marielle Franco caminha para revelar à sociedade a face do Estado Miliciano

Colunista NINJA

A ‘água boa’ da qual Mato Grosso e Brasil dependem

Márcio Santilli

Mineradora estrangeira força a barra com o povo indígena Mura

Jade Beatriz

Combater o Cyberbullyng: esforços coletivos

Casa NINJA Amazônia

O Fogo e a Raiz: Mulheres indígenas na linha de frente do resgate das culturas ancestrais

Rede Justiça Criminal

O impacto da nova Lei das saidinhas na vida das mulheres, famílias e comunidades

Movimento Sem Terra

Jornada de Lutas em Defesa da Reforma Agrária do MST levanta coro: “Ocupar, para o Brasil Alimentar!”