Forbes Under 30, indicado ao Prêmio Caboré em 2022 – a premiação mais importante da indústria brasileira de comunicação –, nomeado um dos 10 LinkedIn Top Voices Next Gen por ser considerado uma das vozes mais relevantes da plataforma, além de ter sido escolhido como uma das 100 pessoas afrodescendentes mais influentes do mundo pelo Most Influential People of African Descent (MIPAD) – a lista é extensa –, Ricardo Silvestre vem sendo notado dentro e fora do Brasil pela sua excelência. Publicitário de formação, fundou em 2019 a Black Influence, que neste mês de agosto está completando quatro anos, e tem como missão ajudar as marcas a conversarem de forma mais genuína com pessoas negras em suas campanhas.

Foto: Marcus Steinmeyer

Na coluna de hoje, ele fala sobre os desafios que enfrenta dentro desse mercado que ainda têm muitas dificuldades para se comunicar com as pautas de diversidade, a marginalização de empreendedores periféricos e o que o mantém forte para seguir abrindo caminhos para a nova geração de profissionais pretos.

Leia com toda calma do mundo. Senhoras e senhores, Ricardo Silvestre:

Como é estar à frente da principal agência de influenciadores pretos da América Latina?

Ricardo Silvestre – Cara, é sempre um desafio, principalmente porque somos referência para uma galera, e é uma responsabilidade muito grande. Tem muita gente nos olhando como esse lugar de referência mesmo. E não podemos errar. Pessoas pretas já saem de casa muito com esse desafio de não poder errar porque não tem oportunidades, porque as coisas são mais difíceis; então por aqui, as coisas não mudam muito nesse aspecto, estamos em um mercado com muita dificuldade em trabalhar essa pauta de diversidade, de questões raciais. Então, seguimos não podendo errar.

Estar à frente de uma empresa com esse foco é de uma responsabilidade muito grande, tanto porque estão nos olhando o tempo todo, nos olhando a partir desse lugar de uma possível crítica mesmo, tentando ali encontrar erros, cobrando, mas também por estarmos neste lugar onde as pessoas pretas – principalmente pessoas jovens – nos olham e querem chegar até aqui também. Podem. Eles conseguem ver que tem esse espaço, essa possibilidade, enfim. Então, acho que responsabilidade é o grande resumo.

Foto: Marcus Steinmeyer

Para quem não conhece a Black Influence, como você definiria o que é a agência?

Ricardo Silvestre – A Black é hoje a principal agência da América Latina especializada em influência e comunicação antirracista. Nosso objetivo é trazer diversidade, representatividade, sobretudo, preta para o mercado publicitário e também buscar a valorização de influenciadores e criadores de conteúdo de diversos recortes de diversidade, mas principalmente pessoas pretas. Nosso objetivo é trazer justamente esse olhar racializado e com essa responsabilidade para um mercado que não trabalha tão bem essa pauta. O mercado de diversidade é muito recente. Então, a nossa missão, o nosso papel é fazer parte da transformação desse mercado, com uma função muito importante quando a gente pensa no fim do dia, né? Que é de contribuir com a construção do imaginário social, do imaginário criativo das pessoas.

Quando você faz uma publicidade ali na rede social, na televisão, em qualquer meio, você tem um poder muito grande de influenciar as pessoas. Por que não fazer isso do jeito certo? Influenciar positivamente. Nosso objetivo é fazer parte dessa transformação histórica do mercado, e contar essa história de um jeito legal e principalmente buscar a valorização de profissionais pretos.

Foto: Marcus Steinmeyer

Qual o maior desafio da Black Influence hoje, diante do atual mercado publicitário?

Ricardo Silvestre – Acho que um dos principais desafios é mostrar a potência do nosso trabalho, porque é isso: precisamos provar o tempo todo que existe qualidade nesse processo, que dá para falar dessa questão racial de um jeito legal e que, acima de tudo, existe excelência por trás do trabalho. O grande objetivo, o grande desafio é provar que a gente tá nesse lugar, sabe? Dentro desse mercado, que, enfim, às vezes é até repetitivo, que não… que nunca nos deu oportunidade.

Além disso, o desafio hoje é mostrar que existe potência principalmente para além de novembro, porque ainda tem esse outro desafio. A galera nos procura muito ali no fim do ano, que é novembro, é Consciência Negra, todo mundo lembra da nossa existência, mas não é só isso. Estamos no Brasil, que é o país com a maior população negra fora da África. Então, assim, é muito potente, existe consumo, é sobre dinheiro, é sobre investimento, é sobre grana; tentamos sempre trazer esse olhar porque no fim das contas é sobre negócio que estamos falando. Não é sobre uma pauta, sobre uma questão social apenas, militância, é sobre negócios, é sobre dinheiro e quando você começa a trazer esse olhar, as marcas ficam mais interessadas.

Foto: Marcus Steinmeyer

Como esse mercado pode dialogar com a agenda de diversidade para além dos períodos sazonais?

Ricardo Silvestre – Cara, o principal ponto é, sem dúvidas, a intencionalidade. Ter intenção é simples, não é? Você se comunica, encontra pessoas pretas todos os dias, em qualquer lugar, e por que não trazer isso para comunicação também? Então, oportunidade tem. O que eu vejo que falta é, de fato, interesse. Mas aí as marcas preferem ficar nesse lugar mesmo com uma comunicação super nichada e reduzida em novembro. O que também nem é mais tão bem-visto pelos consumidores, porque as pessoas cobram. – Ai, beleza. Adorei a campanha agora em novembro, mas em dezembro qual que vai ser? Como é que vocês vão falar com a gente? E aí acaba sendo até um problema de negócio, porque as pessoas tendem a consumir de marcas que de fato conversem com elas o tempo todo. O ano todo e não apenas em novembro. Então, entramos em outro problema de negócio, que é justamente essa comunicação só numa data específica.

Foto: Marcus Steinmeyer

Por que as periferias, berço de criatividade e inovação, não estão no radar dos principais eventos sobre esses temas no país?

Ricardo Silvestre – Acredito que seja por uma total ignorância. Nós sabemos das potências que vêm das favelas, das periferias que, inclusive, carregam o Brasil nas costas. As pessoas que saem das periferias todos os dias e que vão trabalhar nas casas das pessoas que estão nas ditas zonas nobres; são essas pessoas que fazem o rolê acontecer. Os empresários não querem subir o morro, porque isso não se conecta na visão deles, que é completamente deturpada do que é a realidade. Então é isso: é um misto de ignorância com essa falta de intenção mesmo. Não há interesse e há muito preconceito. Se valorizassem a potência que as periferias têm, o Brasil seria um país de primeiro mundo.

Foto: Marcus Steinmeyer

Qual legado você quer deixar?

Ricardo Silvestre – Eu quero deixar o legado de uma pessoa que contribuiu de alguma forma com a transformação da sociedade. Quero que as pessoas que sempre foram colocadas no lugar de marginalizadas, que elas possam se sentir representadas e pertencentes a algo e nunca mais se sintam mais deslocadas.

 

Foto: Marcus Steinmeyer

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