Quem acompanha a carreira da cantora e compositora Liniker, sabe que a artista tem usado com frequência a palavra “excelência”. Ao pesquisar mais sobre a entrevistada de hoje, essa palavra começou a piscar mais forte na minha mente, como um letreiro que quer indicar o caminho. Renata Di Carmo é isso: uma profissional excelente. Celebrando 25 anos de carreira em 2024, a profissional tem nada mais nada menos no seu portfólio de trabalho a assinatura de roteiro do spin-off de “Cidade de Deus”, que será lançada pelo HBO Max este ano, e a adaptação de roteiro para o premiado romance de Itamar Vieira Junior, “Torto Arado”, que também será distribuído pela mesma plataforma em formato de streaming. Além disso, já chefiou equipes de roteiro na Globoplay, como na série “Humor Negro”, e na Amazon, no projeto “Toda Família Tem”; integrou também projetos na Netflix, como a série “Candelária”, em que contribuiu com a equipe de roteiro.

Renata, além de roteirista, é atriz, autora e diretora. Na entrevista de hoje, ela fala sobre a pauta racial, a importância de termos mulheres pretas no controle da narrativa, e como podemos hackear o status quo de uma sociedade intrinsecamente racista.

Com vocês, Renata Di Carmo:

 

André Menezes – Renata, direto e reto: qual a importância de termos mulheres negras no controle da narrativa?

Renata Di Carmo – Vivemos em um país democrático, que pressupõe igualdade de direitos para todos. Então esse lugar deveria ser naturalizado, para que os princípios de igualdade se cumpram de fato. Qualquer pessoa com talento e qualificação deveria poder acessar e exercer qualquer profissão. Além disso, não deveria ter de fazer um esforço supra-humano para tal. O ponto é esse. O que a sociedade ganha com isso? A produção de narrativas diversas, portanto, ricas. Narrativas que expressam o que esse país é, com a cara que de fato tem. Isso amplia a possibilidade de visões de mundo que norteiam essas narrativas, oferecendo outras camadas e vieses. 

Por que as pessoas ainda se incomodam tanto com mulheres negras que conseguiram ascensão social? A cantora Ludmilla, por exemplo, sofre muitos ataques, mesmo sendo uma das maiores artistas do país.

É uma questão de manutenção de poder e privilégio. A visão de mundo do brasileiro é colonial, a estruturação da sociedade é colonial, toda a formulação do pensamento foi formulado considerando esses pilares. E não houve uma ampla discussão sobre isso, sobre descolonização de estruturas, sobre igualdade em seu sentido verdadeiro. Depois, o racismo serve para fins de controle. No final das contas, é tudo sobre dinheiro e poder na mão de quem ele está. 

 

Você acha que a pauta racial avançou no Brasil?  

Sim, mas ainda há o que avançar, discutir e refletir. Inclusive sobre as estratégias utilizadas para gerar uma falsa ideia de pertencimento ou para retardar os passos e invisibilizar nossa história. Como, por exemplo, a ideia de que estamos sempre começando ou o aprisionamento a certos assuntos, ou temáticas que temos sempre de explicar para fins “pedagógicos”. Muito já se falou sobre diversas pautas, há uma variedade absurda de bibliografia e conteúdos audiovisuais. Nós já estamos lá na frente, há ferramentas para acompanhar, elas estão dadas.

 

Vamos falar dos seus trabalhos agora: quais projetos você tem mais orgulho de ter feito?

Meus livros, como escritora. Minhas peças, como atriz. Como autora-roteirista acho que todos os projetos me trouxeram aprendizados. Tenho carinho, por exemplo, por Candelária, que me possibilitou uma viagem estética numa série, o que não é tão comum. Além de poder me aproximar de pessoas que sobreviveram à chacina, isso traz uma abertura de olhar. E os projetos que estão por vir, os filmes… Sou uma artista, eu conto histórias e tenho orgulho quando elas afetam as pessoas.

 

Qual legado você quer deixar?

Um futuro possível para nós. Mas antes disso preciso que ele seja o presente.

 

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