Na letra da música ‘Mil Motivos’, composição de MC Hariel e Djonga, o rapper mineiro diz: “Quantos Paquetá eu vi dirigindo Uber? Todo dia um novo Aranha pensa em desistir”. Driblando todas as estatísticas, o brilhante jogador Vinicius Jr alcançou sucesso dentro do futebol, um sonho de centenas de milhares de jovens periféricos. No entanto, mesmo após alcançar o topo e conquistar seu lugar “seguro” no mundo do futebol, o racismo continua sendo uma ameaça constante em sua vida, como jogador do Real Madrid, um dos maiores clubes do mundo. A questão é muito mais profunda do que aparenta, e simplesmente atribuir a culpa ao racismo estrutural não é suficiente.

É aquela história: vem comigo que no caminho eu explico. Em 2014, durante a Copa do Brasil, o goleiro Aranha, mencionado na letra de Djonga, foi alvo de um dos episódios racistas mais repulsivos da história do futebol brasileiro – e, lamentavelmente, não foi um caso isolado. Enquanto defendia o Santos, Aranha foi agredido verbalmente com injúrias raciais por torcedores do Grêmio, chamado de “macaco”. Esse incidente deixou marcas profundas na vida do atleta. Como consequência, o clube de Porto Alegre foi excluído da competição naquele ano. É chocante perceber que, mesmo diante das câmeras e da transmissão ao vivo, os torcedores racistas do Grêmio não foram coibidos em sua atitude de insultar um dos melhores goleiros em atividade no país.

Ainda falando exatamente desse episódio, é importante lembrar que a arte serve como vetor de reflexão e transformação, e foi a partir dele que o ator, professor de artes dramáticas e diretor Clayton Nascimento montou o seu disruptivo monólogo “Macacos”, no qual já concedeu entrevista aqui para coluna falando como o racismo é perverso e difícil de ser superado numa sociedade intrinsecamente racista.

Além das discussões acadêmicas sobre o comportamento do racismo no cotidiano, no esporte e em outros aspectos da sociedade, surge uma preocupação adicional: a geográfica. Por que os países considerados de primeiro mundo ainda não adotaram medidas mais enérgicas contra esses atos? Na Espanha, onde o jogador brilha como ponta-esquerda do Real Madrid, é raro ver punições efetivas sendo aplicadas contra os frequentes ataques racistas direcionados ao brasileiro. Vinicius Jr. continua aguardando um cartão vermelho para o racismo, uma evidência clara da persistência desse problema.

Mesmo enfrentando todos os transtornos e traumas decorrentes, o jogador continua firme em sua batalha dentro e fora de campo, sempre se posicionando e denunciando as constantes violências que enfrenta. Essa atitude não apenas reflete sua resiliência, mas também é uma forma de pavimentar um caminho mais saudável e justo para as futuras gerações de jogadores pretos.

Em um mundo onde o futebol é celebrado como um esporte que une nações e culturas, é inaceitável que o racismo continue a manchar sua essência. A coragem de Vinicius Jr em enfrentar esse desafio não apenas inspira, mas também nos lembra da urgência de erradicar o racismo, não apenas dos campos de futebol, mas de toda a sociedade. Sua determinação em criar um futuro mais inclusivo e igualitário é um chamado à ação para todos nós. Que sua voz seja ouvida não apenas como a de um talentoso jogador, mas como a de um líder na luta pela justiça e pela igualdade.

 

*André Menezes possui título de Master of Liberal Arts (ALM) in Extension Studies, field of Management (Mestre em Artes Liberais com foco em Administração) em Harvard uma das Universidades mais prestigiadas do mundo, desde pequeno sabia que seu esforço abriria portas para seu futuro. Criado no bairro dos Pimentas, zona periférica da cidade de Guarulhos, na grande São Paulo, seus passos ajudaram a tornar o profissional de sucesso que é hoje.

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