Foto: Werther Santana

O episódio em que uma turba de militantes pede a censura a uma de obra de arte do MAM deve nos fazer refletir.

Pelo visto, tende a marcar uma nova cena política a que teremos que nos acostumar: a acusação de que existiria uma arte degenerada, epidêmica, grande parte dela “apoiada pela esquerda” e com “recursos públicos”.

O vereador de São Paulo ligado ao movimento supostamente liberal solicitou ao Ministério Público investigação sobre o próprio Museu de Arte Moderna, transformado o Museu em suspeito (!) de promover uma situação em que “crianças interagem com um homem nu”.

Ali há nudez de um homem ao lado de uma criança, acusam. Pouco importa se a cena ocorre num museu, numa tribo indígena, numa imagem barroca ou num filme pornográfico. Homem nu e crianças são e serão sempre pornografia, reza a campanha. Pouco importa o teor e propósitos envolvidos, nem a classificação indicativa que o Museu cumpriu. A campanha funciona, algumas centenas de brasileiros, sem o contexto em mente, corroboram a tese de que emerge uma certa arte degenerada. O autor da obra aproveitou-se do museu para praticar suas taras em público.

Aqui vale lembrar. O Museu de Arte moderna não foi criado pela esquerda.

Os museus de arte moderna, o Masp, a tentativa industrial de cinema Vera Cruz, e outras inúmeras iniciativas culturais do século XX, foram criados por empresários, uma burguesia visionária que apostava na arte e cultura como um projeto de modernização do país.

Era uma época em que não era preciso existir a Lei Rouanet para haver investimento em cultura. Atacar o MAM é atingir uma política cultural criada e conduzida pelos liberais dos anos 1950, empresários talvez entre os mais dedicados à cultura que o Brasil já teve.

A polêmica me faz pensar muito em certas discussões sobre cultura nos anos do governo Lula. Lembro que o fantasma do dirigismo cultural era sempre sustentado contra o governo, ganhava enorme repercussão, sempre incitado pela oposição sem que houvesse uma ação de censura ou arbítrio a apontar. Pode-se dizer hoje que foram anos de enorme e vibrante democracia. Ninguém foi molestado em sua plena liberdade de expressão. Episódios assim eram inimagináveis, ainda mais provocado por grupos próximos ao poder oficial.

O que está em jogo no caso do MAM é algo novo e perigoso: a permanência ou não de uma tradição de liberdades que começa com a arte moderna e numa parcela cultivada da elite brasileira que foi capaz de, em muitos momentos, sustentar as condições democráticas e meios das artes visuais para que ela fosse o que precisava ser. Um pacto democrático que fez o Brasil andar pra frente em termos de inteligência, atualidade e liberdade.

E foi nesse diálogo entre artistas (muitos de esquerda) e empresários (muito liberais) que algo essencial da democracia brasileira se forjou.

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