Poucos dias antes de se iniciar a COP26, o PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio-Ambiente) lançou o “Emissions Gap Report“, relatório que analisa as NDCs (contribuições nacionalmente determinadas). O documento avaliou as atualizações das metas de redução nas emissões e – spoiler! – mostrou que o somatório dessas metas está longe de ser suficiente para manter o aquecimento global sob controle em níveis minimamente seguros. Existe uma enorme lacuna (“gap”) entre o anunciado e o necessário.

Derrubemos as emissões agora!

Primeiro, vamos falar do óbvio. As emissões de gases de efeito estufa aumentaram ao longo dos anos, incluindo não apenas o CO₂ de fontes fósseis e LULUCF (uso da terra, floresta e mudanças, ou seja, principalmente desmatamento), mas também a maior parte dos demais gases de efeito estufa “de vida longa” ou “bem misturados” (metano, óxido nitroso, gases halogenados). A pandemia mal fez cócegas, como discutimos em nosso artigo sobre o boletim que a OMM publicou sobre o tema.

A Emergência Climática impõe ações imediatas. É importante parar de fazer promessas para um futuro distante (“zero líquido em 2050”) sem cortar as emissões desde já, com redução preferencialmente acelerada de agora a 2030. Uma trajetória de emissões reduzidas no cenário “acelerado” é melhor do que a trajetória do cenário “linear” e, principalmente, do cenário “adiado”.

Isso tem a ver com o comportamento físico dos gases de efeito estufa como o CO₂. Como eles permanecem por longo tempo na atmosfera, manter as emissões elevadas hoje ou nos próximos anos (digamos, até 2030), irá produzir um efeito cumulativo com impactos bem maiores no futuro. As metas intermediárias são tão importantes quanto declarar a intenção de chegar à neutralidade em 2050 e a redução das emissões precisa se dar com força desde já! Dá para estragar irremediavelmente este planeta nos 29 anos que nos separam dessa data.

A “Lacuna” é um descumprimento coletivo do Acordo de Paris

Mesmo sendo o pior caminho para se chegar ao zero (lembrando que “zero líquido” em si já é algo temerário e insuficiente), a rota “atrasada” é o caminho escolhido por muitos países, inclusive Brasil e China. O que é importante destacar, porém, é que ninguém está de fato fazendo o dever de casa, pois os países mais ricos (EUA, União Europeia, Reino Unido, Japão…), que se industrializaram primeiro, teriam a obrigação de cortar mais rapidamente as emissões. Os países ricos estão basicamente na rota “linear”, insuficiente, especialmente tendo em vista a sua maior responsabilidade na geração de todo o problema..

Qual o tamanho da diferença entre o que os países estão apresentando e o que é necessário? Ainda é enorme! Mesmo com todas as metas (condicionais e incondicionais) cumpridas à risca, ficamos longe até de controlar o aquecimento global em 2,0°C, o que significa descumprir o Acordo de Paris na cara dura, lembrando que o Acordo diz que as partes se comprometem a “manter o aquecimento global bem abaixo de 2,0°C” e “envidar esforços” para ficar abaixo de 1,5°C”.

Com os compromissos apresentados (supondo tudo cumprido à risca), chegaríamos em 2030 emitindo o dobro do necessário para termos 66% chances de controlar o aquecimento em 1,5°C, 52% a mais do que seria compatível com 66% de chance de 1,8°C e 28% a mais do compatível com 66% de chance de 2,0°C. Os esforços contidos nas NDCs incondicionais e compromissos anunciados nos levariam provavelmente a um aquecimento catastrófico de 2,7°C, com 10% de probabilidade de que ele possa até exceder 3,3°C no final do século.

Mesmo a entrada em cena das NDCs condicionais e compromissos de “net-zero” melhoram o quadro, se totalmente implementados, mas ainda assim de maneira insuficiente para evitar o caos climático. Com esses acréscimos, ainda ficamos com ~50% de chance de excedermos 2,0°C, 10% de chance de excedermos 2,7°C e 5% de chance de ultrapassarmos 3°C ao final do século. Quem apostaria um cara ou coroa entre a calamidade e o cataclismo?

Por uma saída justa para a crise climática já!

Considerando as políticas atuais, é preciso cortar 30 bilhões de toneladas (30 GtCO₂) nas emissões previstas para 2030, a fim de alinhá-las com um aquecimento limitado a 1,5°C. Essa lacuna gigantesca precisa ser enfrentada para que tenhamos futuro.

Nos próximos anos é preciso fazer tudo que está a nosso alcance: retirar os negacionistas/ecocidas do poder nos Estados nacionais (a começar do Brasil), avançar ao máximo na escala subnacional, tratar a crise climática como prioridade! É preciso mobilização, conscientização, engajamento, buscar uma ampla aliança, que respeite o protagonismo combinado dos povos originários do planeta e da juventude mobilizada na defesa do clima.

Não podemos simplesmente confiar essa tarefa a corporações, não apenas aquelas que lucraram criminosamente por décadas queimando combustíveis fósseis e desmatando, mas também aquelas que olham para a maior ameaça à existência da civilização humana como uma “oportunidade de negócios”. Até porque a saída precisa ser justa. É inaceitável impor sacrifícios ainda maiores aos setores da sociedade que já estão arcando com os piores impactos da crise e que, em geral, coincidem com aqueles que menos contribuíram para o caos. Emissões de carbono têm uma correlação intrínseca com privilégios, com séculos de uma história de colonialismo, expansionismo capitalista, escravidão, genocídio, racismo, patriarcado. É preciso frear essa máquina de moer gente, que é também máquina de moer floresta e moer clima.

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