Cara Haia,

Sou Piaba de Cunhaú, ancestral indígena da nação Tupinambá dessas terras hoje chamadas Brasil. Casei-me com o português Custódio de Brito e dentre os vários tataranetos que deixamos pelo Brasil, Álamo é um deles. Sou eu quem escreve a vocês porque se um de meus parentes vivos fizer isso hoje, pode acabar na prisão, apanhando ou até morto.

Ouvi que o chefe maior dos não-indígenas desta nação está denunciado em seu Tribunal por crimes contra a humanidade e a incitação ao genocídio dos indígenas. Há pouco tempo ele esteve em uma aldeia Yanomami para comemorar a inauguração de uma ponte que facilitará a entrada de garimpeiros em terras indígenas.  Em sua visita, disse que respeitará os indígenas que não quiserem minerar mas disse que “há outros irmãos índios, dentro e fora da Amazônia, querendo minerar a terra”. Ele busca cooptar indígenas e se refere a um projeto de lei que ele assinou e se aprovado, permitirá até a construção de hidrelétricas em terras indígenas. Um outro projeto de lei propõe o fim das demarcações, a revisão de terras indígenas e regularização do garimpo. Uma das ações dessa lei é o Marco Temporal, que defende que os povos indígenas só podem reivindicar suas terras se as estivessem ocupando no dia 5 de Outubro de 1988, dia que a constituição foi promulgada aqui. Caso o contrário, os povos indígenas perdem o direito de demarcação de seus territórios.

O garimpo ilegal de ouro na Terra Indígena Yanomami avançou 30% em 2020. Todas as pesquisas para a demarcação de novas terras foram paralisadas. O denunciado em seu tribunal é o único presidente eleito deste país que nunca aprovou uma Terra indígena em seu mandato.

Sua estratégia de exploração dessas terras acontece em três eixos: mudança do aparato legal, mudanças no eixo administrativo e a expansão colonial a partir dessa mensagem do governo federal de que ninguém vai ser punido.

A partir da denúncia em Haia, incluiria mais um eixo que se refere à cooptação de indígenas e fiscalizações que demonstrem preocupação, para passar a impressão de que ele não é o principal responsável pelo genocídio indígena que vem ocorrendo aqui.

A Fundação Nacional do Índio, órgão do governo que deveria nos proteger, recebeu os indígenas essa semana com bombas de gás lacrimogêneo. É a maior seca dos últimos tempos. Sabe o que é ver um filho de um ano de idade morrer de fome? Foi assim que um bebê yanomami morreu esses dias. Todos os órgãos que poderiam enumerar a fome, a seca e a miséria, estão desmontados. Esta carta é também um pedido de ajuda! Não há tribunal aqui dentro que possa pará-lo! Enquanto nossos anciões morrem pro vírus, ele chama de idiota quem se mantém isolado, nossas Cataratas viraram cachoeiras, há uma crise hídrica na terra da água, há uma crise humanitária na terra onde o conhecimento vinha pela fala e não há o relato de morte por fome ou doença antes da chegada dos não-indígenas aqui. Sinto-me incumbida a falar porque sou Piaba de Cunhaú, parte do meu povo também foi cooptado, foi usado contra essas terras, fomos muitas vezes “os irmãos índios” que eles espalharam por aí “que queriam minerar”. Acontece que não foi bem assim que a coisa se deu. Havia um interesse maior por trás que não nos foi revelado!

Hoje, esse interesse maior ameaça a nossa espécie. O predador faz cálculos com as pedras daqui. “Tem 3 trilhões debaixo de Roraima e os indígenas lá tão pobres”, disse o denunciado de vocês! Pobres do que? Da água que vai acabar com a mineração? Eles querem morrer de sede com uma pepita de ouro na mão.  Não se importam com seus netos, negam a ciência e o conhecimento ancestral.

Olhe bem pro seu corpo. Podem nos cortar os cabelos e pedaços da nossa unha, dos pelos, sem nos machucar. Eles crescerão de volta. Assim é a Terra. Nos oferta o tempo inteiro, farta em sua camada de regeneração. Como um coração leva meses pra se formar no seu corpo, assim são as pedras, demoraram tempo para se formar e não são para serem retiradas de lá.

Piaba de Cunhaú

20 de Junho de 2021

 

 

 

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