Por Anna Paula Costa

Adriana de Faria é roteirista e diretora de Belém do Pará. Formada em Comunicação Social pelo Centro Universitário do Estado do Pará (2017). Cursou também Iniciação Documental na Escuela Internacional de Cine y TV em Cuba no curso de (2019), onde atuou como diretora no curta “Ari y yo”.

Antes mesmo disso, porém, ela vinha assinando roteiros e direções desde 2015 como “Boiuna” (2021), Sabores da Floresta (GNT/Futura) e “Inovadores”, este último fruto da parceria de longa data com a produtora Marahu Filmes.

Seu trabalho mais recente, o curta-metragem de ficção Cabana ganhou grande projeção, tendo sido indicado e premiado em diversos eventos, tais como o Festival do Rio 2023, no qual foi premiado como Melhor Curta. Atualmente dirige a série “Rios de Encantarias” da cantora Lia Sophia com roteiros de Lúcia Tupiassú, em produção pela LPG.

Como você sente que o seu local de nascimento e formação influenciou no processo de criação de suas obras e na recepção delas pelo público?

Eu acho que aqui, onde eu cresci, as pessoas têm uma visão muito negativa da minha cidade e eu tinha um certo preconceito por morar aqui. Na adolescência eu pensava em mudar daqui, ir morar em São Paulo. E aí com o tempo, principalmente com minha entrada no cinema, eu fui percebendo a riqueza que tem de histórias de pessoas.

Eu insisto em ficar também, não é nem “eu resisto”, é “eu insisto”. Porque de fato a gente está vivendo tantas oportunidades como é no Sudeste, mas a gente tem isso, sabe? A gente tem pessoas, a gente tem histórias que precisam ser contadas. Eu sinto que nos últimos anos isso se fez refletir em todo o meu trabalho nesse sentido porque eu comecei a perceber que as histórias que eu pensava se passavam aqui nesse território. Quando por exemplo, eu tenho uma formação em Cuba, mas foi numa questão de eu precisar ter uma formação no cinema que eu não tinha e eu decidi fazer esse curso, mas até o modo foi bem amazônico, porque era só eu, eu não tive uma editora do lado.

Então, eu sinto que influencia muito na carreira e pretendo enquanto eu puder ficar aqui, mesmo que eu tenha que sair do Brasil para estudar, né? Justamente porque aqui a gente não tem tantas oportunidades de estudo, mas influencia nesse sentido, de que eu venho contando as história daqui e principalmente as histórias das pessoas porque eu acho que a Amazônia já foi muito um cenário e eu queria só mostrar que aqui a gente é tão humano quanto qualquer outro lugar do mundo. 

Aproveitando a menção a esse modo de produzir amazônico mesmo estando em Cuba, de que forma essa formação internacional te moldou enquanto diretora?

Foi em 2019 e como eu te falei, a minha formação é publicidade então tudo que eu aprendi de cinema foi lendo livros. Eu tenho formação em inglês, então eu lia muitos livros de roteiro que a maioria são em língua inglesa. E eu fiz um estágio que depois me levou a ser roteirista, em uma produtora daqui chamada Marahu Filmes. Só que eu vinha assim há uns 5 anos escrevendo histórias de outras pessoas, que são daqui também, mas eu queria me descobrir enquanto autora, sabe, eu queria ver se eu sabia fazer. E aí eu pesquisei vários cursos para ver fora do Brasil mesmo. Eu queria ter uma experiência de viagem uma imersão.

E aí eu vi que a escola de Cuba era uma das mais prestigiadas, uma das mais importantes e aí eu fiz esse curso de férias. Não foi o curso regular porque tem um curso regular, que tem três anos e tem a maestria que é tipo mestrado que tem seis meses, mas eu fiz o curso de um mês e que no final do curso você tinha que fazer um curta metragem. E aí eu falei assim, é uma ótima maneira de ir lá e me virar, né? E eu fui sem saber falar espanhol direito, então o filme também é um pouco sobre isso, que é sobre uma garotinha que me ensina a falar espanhol entre outras coisas, e então eu fui com esse objetivo assim de entender que tipo de narrativas, eu gostaria de fazer e ter uma instrução maior sobre o cinema. 

Nesse caso era um curso de documentário. Então a gente assistiu muitos filmes lá que me impactaram bastante. E esse modo amazônico de produzir que eu digo, ele é um modo que eu acho que ele é o modo da insistência, porque aqui a gente não tem políticas públicas efetivas para arte no geral, mas no audiovisual menos ainda. Principalmente quando a gente compara com os estados como Ceará, Pernambuco, São Paulo então, tipo nem se fala. E aí ainda assim a gente quer fazer filme e a gente faz com um pouco, a gente faz equipe de uma pessoa só, a gente desenvolve sem ter dinheiro. Apesar de que eu estava dentro de um contexto de um curso em que eu tinha que fazer o filme sozinha. Então era eu, uma câmera, um gravador, uma lente e a própria personagem. Ela inclusive segurou o gravador e ela pensou direto assim porque eu era só uma.

E eu sentia isso que eu precisava insistir lá porque se eu não insistisse e quisesse fazer a ideia como eu queria não ia acontecer, e eu sinto que fazer cinema na Amazônia é um pouco isso, você tem que acreditar até o final, até estar passando o filme lá, chegando o público. Eu acho que o cinema tem isso de um modo geral. Mas eu sinto que aqui como a gente fez durante muitos anos na Guerrilha, isso de alguma maneira está intrínseco assim no nosso modo de fazer, entendeu? A gente continua fazendo independente do que aconteça, mas é óbvio que se tivermos políticas públicas, se a gente tiver espaço de formação, se a gente tiver participação nos eventos, se a gente tiver ajuda mesmo para participar das coisas, com certeza isso vai cada vez mais tornar o nosso cinema mais robusto. Então é isso assim. Eu acho que esse modo de fazer amazônico é na insistência.

Como você sente que o seu local de nascimento/formação influenciou no processo de criação de suas obras e na visibilidade/recepção delas pelo público?

Eu acho que ainda persiste uma visão da Amazônia como um cenário para para quem vem filmar aqui, né? Porque quando as pessoas vêm filmar aqui elas ainda vem em um modo colonizador, elas trazem seus profissionais para serem cabeças de equipe e empregam aqui somente a base da sua equipe e pagam mal. E essas pessoas vão embora depois e a gente continua sem incentivo aqui, sem conseguir desenvolver nossos produtores. Eu sinto que no modo de produção, em relação às pessoas que não são da Amazônia quando vem produzir aqui, a maioria delas ainda enxerga a gente como apenas um cenário, apenas um lugar para extrair as histórias que eles querem contar do jeito deles.

Agora falando do interno que vai para fora, das nossas profissões aqui que podem ser distribuídas, eu sinto que a gente teve uma melhora a partir da política pública dos núcleos criativos da Ancine, os editais da Ancine, principalmente com a existência do CONNE que é uma uma organização do Norte, nordeste e centro-oeste porque isso garantiu 30% de cota para os projetos acontecessem aqui. Isso por exemplo foi o que iniciou minha carreira, eu comecei desenvolvendo um projeto dentro de um núcleo criativo e essas políticas aqui fazem a gente conseguir chegar a ganhar um edital junto com profissionais do sudeste.

Então eu sinto que mais ou menos 2014 por ali, isso começou a acontecer e eu vejo que ao mesmo tempo que a gente está muito distante geograficamente a gente dá um jeito de se infiltrar nas coisas, nas decisões políticas, nos eventos e isso foi nos fortalecendo de alguma maneira porque eu sinto que agora vai ter um “boom” de produções daqui, principalmente pela (lei) Paulo Gustavo também. Eu acho que também rompeu com essa ideia de agradar, o Sudeste sabe? A gente está só querendo fazer as nossas coisas. E aí se não gostarem, problema de vocês assim, eu dou essa generalizada do sudeste. Mas é porque ali que se concentram, tanto o dinheiro quanto as produções

E quanto às temáticas amazônicas, eu acho eu acho bem complexo a gente falar “a Amazônia” porque são tantas dentro de uma única Amazonia. E é por isso que eu te falo que tem uma riqueza de narrativas. Porque, por exemplo, eu tô aqui em Belém, se eu for para o oeste do Pará já é outra coisa sabe, já é uma outra cultura completamente diferente, se tu vai na região do salgado paraense, esse é outra coisa, então um único estado tem uma pluralidade narrativas de tradições e manifestações culturais que podem ser palco de histórias cinematográficas.

E aí eu acho que o interesse que tá existindo na Amazônia agora é porque eu acredito que ela vai ser o centro do mundo e aí todo mundo quer pegar a sua parte agora, quer se garantir agora, mas eu sinto que ainda é um interesse que fica na superfície, não sei se as pessoas estão realmente interessadas em se aprofundar sobre isso. Eu sinto que as pessoas daqui sim estão estudando, estão estudando, combatendo mudanças climáticas, estão contando nossas histórias, estão fazendo arte de diversas maneiras. Mas é isso assim, eu fico me perguntando ainda, qual é o interesse, sabe? Por que é que a gente está tão na moda? E eu não sei como é que isso vai se refletir lá na frente porque como eu tô te falando, aqui sempre foi esse terreno de exploração, as pessoas vem aqui exploram, vão embora e depois não deixam nada. E aí eu não sei se isso é só mais um ciclo que tem se repetindo, principalmente agora com a COP, que podem vir para cá, ou se de fato vai haver essa melhora para a gente com políticas públicas, eu não gosto da palavra desenvolvimento porque acho que ela não alcança todas as pessoas sabe? Muito menos progresso mas não sei se a gente vai conseguir se transformar num ambiente mais democrático, talvez não. 

Nos conte um pouco sobre este momento de grande visibilidade na carreira, com muitas premiações, etc. Como “A Cabana” simboliza esse marco para você?

Difícil porque eu acho que eu demorei para entender, talvez a importância do filme porque quando eu estava fazendo eu sabia que ele seria importante porque a gente nunca teve um filme sobre A Cabanagem e ela foi das maiores revoltas populares do Brasil. Mais de 30 mil pessoas morreram nessa revolta. Então assim de alguma importância no filme tinha, sabia disso, mas eu não achei que ele fosse alcançar tantos lugares assim, né? Jamais imaginei que ele venceria o Festival do Rio, que ele estaria entre os 10 melhores filmes da associação de crítica de filmes brasileiro. Não pensava, eu achava que ia passar pelos festivais como qualquer outro filme assim sabe, mas eu acho que ele talvez reflete um pouco essa essa vontade de ser escutado, de falar “olha, existimos, estamos aqui, continuamos existindo independente de vocês”  e eu acho que a premiação do Rio ela foi bem política nesse sentido, porque era o único filme do Pará lá, da competição inteira, se eu não me engano tinha mais três do Norte, mas que alguns eram filmados no norte, mas não por pessoas do norte, então assim eu me sinto ao mesmo tempo que feliz ou me sinto impressionada que o filme tenho tido uma carreira, assim tão relevante. E me sinto também um pouco mais responsável pelas próximas. Tô fazendo agora meu próximo filme, vou gravar agora em Julho e ele também se passa em um  cenário daqui, mas ele é um filme mais complexo que o Cabana, ele tem um orçamento, maior produtivamente ele é bem mais complexo, mas no fim tudo se resume a história que eu tô contando.

Depois do Cabana é como se eu não sou a única pessoa a contar histórias daqui, existem várias pessoas fazendo isso. Eu sou apenas mais uma delas, mas eu sinto que as pessoas podem olhar para cá e lembrar de mim sabe dizer “aquela aquela menina lá que faz lá” e aí eu eu me sinto um tanto responsável. Depois do Cabana assim eu obviamente sei que não me deu o poder, imagina seria muita audácia minha achar que eu tenho poder de transformar tudo com os meus filmes. Mas eu me sinto um pouco mais apropriada das minhas próprias histórias,por isso, porque eu fiz fui fazendo e quando eu vi deu nisso tudo aí, então agora eu sinto que eu que eu posso.

Enquanto mulheres, acho que a gente tem muita a questão da da impostora. E aí eu sinto que a minha impostora, ela falou assim “e agora que a gente vai fazer já que deu certo, né?” E aí agora eu tô mais assim tipo “não pô, deu certo, vai dar certo de novo e eu vou continuar fazendo filmes e é isso é isso que eu escolhi e vamos lá sabe”, é isso.

Quais seus planos de carreira para esse futuro próximo?

Agora estou fazendo esse próximo filme que também é um curta. Eu não quero dar muitos detalhes mas o que eu posso dizer é que ele se passa no contexto ribeirinho. Eu estou também dirigindo uma série que se chama “Rio de cantarias” que é um projeto de uma cantora daqui que chama Lia Sophia, e em 5 episódios a gente mostra manifestações culturais, inicialmente aqui do Pará, não sei se nas outros temporadas vai ter outros lugares, mas é focado em como as pessoas daqui realmente vivem as encantarias nas suas vidas no seu dia a dia, por meio dessas manifestações culturais, então tem o Boi de máscara em São Caetano de Odivelas, tem a cerâmica Marajoara…Enfim, então estou dirigindo essa série documental e é a primeira vez que eu dirigi uma série documental, estou gostando bastante dessa experiência, eu acho que ano que vem talvez ela saia, demora ainda.

E o “Sabores da Floresta” realmente a gente está finalizando a segunda temporada agora, eu acredito que vai estrear ainda esse ano, não tem essa data certa ainda, mas eu acho que vai ser esse ano. E no “sabores” eu sou roteirista, foi um dos primeiros projetos que eu escrevi e eu criei os sabores da floresta junto com o Fernando Segtowick e o Thiago Pelaes, dois dos quatro sócios da Marahu Filmes. E foi uma experiência muito boa para mim, criar essa série porque eu o meu pai cozinha muito, e eu amo comer, então eu assistia, eu pesquisava sobre os ingredientes e depois assistir os episódios eu ficava assim “Meu Deus, eu preciso ir em todos esses lugares”, porque no caso como roteirista, eu fico muito sentadinha aqui no meu quarto, escrevendo. 

Inclusive, eu vejo que essa experiência da série agora, que eu estou dirigindo está me dando essa oportunidade de viajar mais no meu próprio estado, porque aqui as distâncias são muito grandes, muito grandes mesmo, às vezes tipo pra ir para Marajó, pode ser de duas horas e meia a 4 horas, às vezes 5, então viajar por meio do trabalho é muito legal. Mas “os sabores” foi isso.

E aí esses três trabalho e tenho outras ideias de filmes, né? Eu dei uma pausa agora, mas eu tenho um longa que estou escrevendo. Tenho um outro curta, que é documental que vai sair, que é uma história mais pessoal também, então meus planos para o futuro são continuar fazendo filmes aqui, mas também tendo parcerias fora daqui, continuar com parcerias com outras pessoas da Amazônia também, acho isso muito legal. Ano passado foi para Manaus com o Cabana, né? E eu já tinha uma conexão com festival de lá que é o Olhar do Norte, porque a gente se gostou mesmo assim, os organizadores e eu, e ano passado eu fui para lá e foi muito bacana, porque é isso me fez sentir que a gente faz parte de uma comunidade de pessoas que estão realizando aqui já que as vezes a gente pode se sentir muito sozinha. Nos festivais no passado, eu senti falta de ter pessoas da Amazônia juntas, tipo assim na Bahia, um monte de gente na Bahia, aí Pernambuco um monte de gente de Pernambuco, um monte de gente do Ceará. E aí era só eu quase da Amazônia ou pelo menos do Pará, então, eu acho muito massa que a gente consiga chegar juntos nos lugares. Eu acho que ano que vem vai ser meio isso, eu pretendo aplicar esse filme que eu tô fazendo agora em festivais e como tem a (lei) Paulo Gustavo, eu acho que vai ter muitos filmes rodando aqui ano que vem aqui e aí eu espero que a gente tenha nossa gangue nos festivais.

Alguma outra mensagem que você acha fundamental estar em uma matéria sobre você?

Eu tenho um pouco de receio das pessoas me definirem como “A pessoa que está fazendo conteúdo na amazônia”, eu sou apenas mais uma pessoa e gostaria muito que várias outras pessoas tivessem o espaço e a atenção que eu recebi nesse último ano. Porque aqui a gente tem muitas pessoas talentosas, dedicadas, profissionais excelentes e muitos não são reconhecidos ou lhes falta oportunidade para chegar lá. 

E aí eu sinto que nesse último ano as portas se abriram para mim, mas eu não sei exatamente porque. O filme é bom? É, mas não sei exatamente o que rolou. Então eu queria que os caminhos estivessem abertos para todos, todo mundo, não só para mim. Não quero ser só eu. Gostaria que eles (esses caminhos) continuassem assim pra todo mundo, que não fosse algo passageiro e pontual que acontece apenas com um ou dois de nós. Gostaria que nosso cinema não fosse a exceção e sim que a gente sempre tivesse uma comunidade amazônica presente nesses espaços