Por Hyader Epaminondas

Começando o ano com um filme nacional produzido pelas cabeças do Jovem Nerd e com Ian SBF estreando no terror em uma produção que carrega, desde os primeiros minutos, uma sensação constante de experimentação: um grande tabuleiro narrativo onde todas as ideias são lançadas à mesa e testadas à luz de velas, por mais estranhas, excessivas ou contraditórias que pareçam. Não há rede de proteção das convenções do cinema nacional nem o conforto de um gênero plenamente dominado, o filme avança como quem tateia no escuro, curioso com os próprios limites.

Vindo da comédia, com projetos de sucesso como “Porta dos Fundos” e “A Sociedade da Virtude”, Ian traz para o terror esse mesmo impulso lúdico, quase anárquico, tratando o gênero como se um podcast ganhasse corpo, textura e sangue diante da câmera, gesto que encontra tanto sua força quanto suas fragilidades nessa abordagem um tanto quanto inocente.

É um filme de gênero tipicamente brasileiro, mas que às vezes parece hesitar em se assumir plenamente como tal, preferindo emular uma certa estética cinematográfica americanizada com um filtro azulado completamente desbotado. Essa indecisão atravessa toda a obra, já que a natureza artesanal do projeto é evidente, funciona para criar um ambiente original, mas peca na apresentação.

Pela sinopse, o filme parecia ter algo a dizer, mas, infelizmente, ele se perde completamente dentro da própria narrativa. Ao tentar forçar uma atmosfera claustrofóbica, completamente ambientada em uma cabana isolada no meio do nada, acaba esquecendo do principal: desenvolver sua própria história. O resultado é um ritmo arrastado, que não avança nem se organiza, permanecendo descompassado do início ao fim, mesmo contando com um elenco que acredita de corpo e alma na história que está sendo contada.

“A Própria Carne” é um filme que quer muito. Ele se aproveita da sua liberdade criativa e usa esse direito ao extremo, talvez mais do que consegue sustentar. A câmera, com excesso de zoom in frequentemente colada ao rosto dos atores, aposta em um enquadramento fechado e obsessivo, criando uma intimidade quase invasiva, mas o roteiro se recusa a desenvolver esses mesmos personagens, que se esvaziam tão rápido quanto surgem, rasos como pires quando os créditos sobem.

Em alguns momentos, essa escolha funciona: somos obrigados a compartilhar o cansaço, o medo e a degradação daqueles corpos. Em outros, porém, ela sufoca a própria narrativa. Falta espaço para respirar. Essa lógica do excesso se repete na relação do filme com os diálogos, que logo se tornam cansativos. Existe uma dificuldade clara em confiar plenamente na imagem e no silêncio como ferramentas narrativas. O som ambiente raramente assume protagonismo, ele é constantemente interrompido por diálogos explicativos, monólogos e justificativas que não levam a lugar nenhum.

O antagonista interpretado por Luiz Carlos Persy é o que melhor funciona nessa produção. Sua presença física domina o quadro, sua voz impõe ameaça. Ele sustenta o filme, mas o roteiro insiste em transformá-lo quase que em um narrador, alguém que racionaliza o horror, que explica demais aquilo que deveria permanecer misterioso, na mesma proporção em que não explica nenhum contexto sobre a história e sua ligação com a Guerra do Paraguai.

O filme rejeita explorar essa conexão, na verdade, esquece por completo esse contexto que ele mesmo faz questão de deixar explícito no início. A guerra está presente como pano de fundo, como culpa individual dos desertores, mas raramente penetra na lógica da narrativa. Fica a sensação de uma oportunidade perdida: a de transformar o monstro em metáfora viva da violência que aqueles homens tentaram abandonar, mas que continuava a persegui-los.

Por vezes frustrante e um tanto quanto irregular, o filme tenta ser muitas coisas ao mesmo tempo e falha justamente por não saber quando conter suas ambições, ou até mesmo na fragmentação da narrativa enquanto explora seu elenco.

Um filme que fala demais porque tem muito a dizer, que tropeça ao tentar organizar o inexplicável, mas que, ao errar, aponta para uma direção, uma direção interessante, porém com um problema imenso em sua execução. Isso acaba sendo uma surpresa, sobretudo por se tratar do mesmo diretor de “Entre Abelhas”, filme que demonstrava um domínio técnico muito mais alinhado à sua proposta narrativa.