
‘A Professora de Piano’ e ‘Babygirl’: por que novo filme erótico não é tão original para Oscar 2025?
Produção de Michael Haneke ou de Halina Reijn? Por que ‘Babygirl’ e Nicole Kidman estão fora da disputa?
Por Jéssica Marcelino
O filme ‘Babygirl’ é entusiasticamente erótico. Quem assistiu pôde testemunhar o seu estado febril particular. Porém, muitos devem estar se perguntando por que o trabalho da diretora Halina Reijn ficou de fora das indicações para concorrer à tão desejada estatueta.
Pois bem, gostaria de mencionar aqui algo que os amantes de filmes europeus talvez tenham se dado conta: logo nas primeiras cenas, há uma leve impressão de estarmos diante de uma cópia de ‘A Professora de Piano’, do diretor Michael Haneke, protagonizado pela paradigmática e belíssima atriz francesa Isabelle Huppert. Com ela, contracena o personagem Walter (Benoît Magimel).
Em ‘Babygirl’, deparamo-nos com o personagem Romy (Nicole Kidman), mulher casada, profissional de sucesso e mãe. Uma mulher que nunca sequer teve um orgasmo com o marido Jacob (Antonio Banderas). É a partir daí que o enredo se desenvolve: Romy busca controles sexuais de natureza perversa. Está aí o desenrolar da trama, já que Samuel (Harris Dickinson) faz de Romy seu objeto de prazer com um contrato de submissão.
Eles se conhecem na empresa. Samuel é o estagiário, típica figura do jovem sedutor, ao mesmo tempo, vulnerável. Perspicaz e observador, ele logo capta as aspirações de seu alvo. Inicia ali um entrelaçamento erótico com pinceladas de romance – esse último para agradar ao seleto público hollywoodiano. Em nome dessa conexão proibida, ela coloca em risco carreira e família.

‘A Professora de Piano’ ou ‘La Perver’?
Em ‘A Professora de Piano’ (2001), enquanto Erika (Isabelle Huppert) busca prazer cheirando lenços que recolhe da lixeira de lojas de artigos pornográficos (pois eles contêm sêmen) e praticando voyerismo em um drive-in, Romy sente prazer ao cheirar a gravata de Samuel, o que remete à cena de ‘A Professora de Piano’.
Talvez, não à toa, Samuel obriga Romy a tomar um copo de leite em um bar. Além disso, há uma busca por limites perscrutados na dor por ambas as protagonistas: Erika corta o próprio clítoris com uma lâmina, enquanto Romy realiza um procedimento estético sem anestesia. Inclusive, através do delicado figurino, também podemos ser reportados a ‘A Professora de Piano’ quase que a todo momento da película. E, certamente, a diferença de idade entre os personagens: as mulheres de, aproximadamente, quarenta anos e seus pares mais jovens, de pele de porcelana.

A mãe, em ‘A Professora de Piano’, é figura importante. Em que pese a filha seja uma renomada professora de piano de conservatório em Viena, a mãe, personagem sem nome, mantém uma relação simbiótica de dependência com a filha: elas comem juntas, saem juntas, a mãe controla Erika a todos os lugares nos quais ela se dispõe a ir só, contando as horas até mesmo de seu trajeto e ligando para confirmar se ela está onde diz estar. Além do mais, elas dormem juntas, brigam e se acariciam, atestando que não há, inclusive, espaço físico que as separe ou diferencie. Esse é um personagem que não está presente em ‘Babygirl’, pois em nenhum momento somos remetidos à presença que faça alusão a esse contexto.
Pois bem: mulheres em posições profissionais relevantes versus pupilos cheirando a leite. Ambas em busca de realizar seus fetiches, uma dominando, a outra sendo dominada. Deparamo-nos com o que a psicanálise denomina perversão, presente nas tramas a busca pelo fetichismo, voyeurismo, sadismo, masoquismo e relações de controle.
O que a psicanálise tem a dizer sobre a perversão sexual
O que está em jogo aqui não é o desejo, tampouco as fantasias. Aliás, na perversão, não há espaços para jogos, pois somente fantasias podem dar espaço para jogos sexuais. O que há nesses casos de perversão é, na realidade, o controle da situação. O que possivelmente há no contexto de ambas as películas são: a morte, a dor e a submissão que se apresentam de forma inconsciente no desenrolar, na repetição da forma de funcionar de cada personagem.
Originalmente, a perversão poderia ser uma espécie de desvio da normatividade, da pulsão e da castração. No entanto, Freud vai explicar que toda pulsão é desviada, tendo em vista que a pulsão não tem objeto predeterminado. Sendo assim, toda pulsão desvia de seu objeto. Aliás, todo ser sexuado é perverso.
O fetichismo, o prazer que só é logrado mediante um objeto insubstituível, também está presente na vida cotidiana – haja vista a existência de objetos que não substituímos por qualquer outro. No entanto, uma questão é relevante na perversão: se o sujeito não consegue manter relações com o outro sem descartá-lo em seguida. Isso, de fato, impacta nas relações individuais e coletivas e podem indicar um caminho para a produção de ideias de extermínio e genocídio, pois extrapola a esfera individual sexual do sujeito.
No mais, os traços perversos são facilmente encontrados no cotidiano, pois são inerentes à organização psíquica humana: o desvio da pulsão; a demora nas preliminares; a satisfação encontrada na escolha de objetos insubstituíveis ou de difícil substituição (fetichismo), bem como a experiência sadomasoquista de sofrer por amor.
Importante ressaltar que obras ficcionais ou literárias não se tratam de casos clínicos. Tampouco, dizem respeito à estrutura psíquica de seus autores.
‘Babygirl’: uma obra pitoresca?
Afinal, há de fato semelhança ou mera remissão de uma obra à outra? Se a resposta for positiva, estaria ‘Babygirl’ fadado à falta de originalidade? Formem suas convicções.
Eis a derradeira semelhança: Michael Haneke introduz com o dramático Lied de Schubert o gran finale. Erika, contrariada em seus intentos inconscientes, apunhala a si mesma no peito e sangra pelas ruas de Viena, enquanto a música prossegue na sala de concertos.
É na letra do Lied que encontramos a indiferença diante da tragédia. Aí está a existência do contraste com o qual Haneke pontua todo o filme: cães latem e sacodem as correntes enquanto as pessoas dormem em suas camas. Talvez, não por acaso, ao final de ‘Babygirl’, Romy, após seu caso ter vindo a público e, sob efeito das consequências, contorna serenamente o assédio de um colega e termina na cama com seu marido, sempre pacífico.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.