Por  Evelyn Ludovina

A crise climática também escancara desigualdades sociais e de gênero. Na Amazônia, ser uma pessoa trans e indígena significa enfrentar vulnerabilidades que se cruzam entre território, identidade e direitos. Em um contexto de eventos extremos cada vez mais frequentes, a transfobia também pode ser entendida como uma questão climática, já que populações historicamente marginalizadas tendem a ser as mais afetadas pelos impactos ambientais.

É nesse cenário que Jarē Aikyry faz dessas dimensões parte de sua vida e atuação política. Nascido nos arredores do município de São Paulo de Olivença, no Alto Solimões (AM), ele é um jovem indígena trans-amazônico, ativista socioambiental e defensor dos direitos humanos. Segundo Jarē, sua luta está diretamente ligada à proteção do território e à afirmação das identidades. “Esses territórios são parte de quem eu sou, por isso luto para protegê-los e para mostrar que nós, corpos trans, também somos parte dessa natureza”, afirma.

Para o ativista, identidade de gênero, ancestralidade indígena e território são dimensões inseparáveis. Ele destaca que diferentes povos e etnias possuem cosmologias próprias, com leituras diversas sobre o que é gênero e sobre possibilidades que vão além da lógica binária de “homem” e “mulher”. “Nossos povos têm uma cultura diversa, com organizações sociais e expressões distintas. Há registros e memórias de outras concepções de gênero que existiam muito antes da colonização e que precisam ser respeitadas — inclusive quando falamos sobre políticas públicas e, especialmente, políticas de gênero”, explica.

Jarē também aponta que a transfobia pode ser entendida como uma questão climática e ambiental, já que seus impactos se intensificam em contextos de crise. Segundo ele, nos últimos anos tem sido possível dimensionar como as mudanças climáticas afetam de forma desproporcional pessoas trans e travestis, do Rio Grande do Sul ao Amazonas, de São Paulo a Pernambuco. “Seja na vivência e moradia em áreas de risco, seja na dificuldade direta de acessar serviços de saúde ou acolhimento depois de desastres climáticos, seja nos processos migratórios, a transfobia está ali como agravante”, afirma.

Além disso, muitas vezes a violência acontece dentro de espaços que deveriam ser seguros, inclusive em territórios e comunidades. Ainda existem estereótipos sobre povos indígenas — como a ideia de que todos vivem nus, isolados na floresta ou compartilham uma única cultura —, visões preconceituosas e desatualizadas que desumanizam esses povos. Para pessoas trans indígenas, essas camadas de preconceito se intensificam. “As pessoas não estão ‘acostumadas’ a ver pessoas trans. Muitas ainda questionam a existência de pessoas indígenas LGBTQIA+, e isso tudo gera preconceito, gera violência”, relata.

Nesse contexto, surgem iniciativas coletivas de resistência, como o Miriã Mahsã, coletivo de indígenas LGBTQIA+ do Amazonas. O grupo foi fundado em 2021 por três jovens indígenas — Thaís Desana, Doétiro, do povo Tukano, e Kuenan, da etnia Tikuna — e hoje conta com a coordenação conjunta de Jarē Aikyry e Jaú Tupinambá. Atualmente, cerca de 60 pessoas atuam no coletivo, todas indígenas de diversos territórios do Amazonas.

O coletivo atua na defesa dos direitos de pessoas indígenas LGBTQIA+, promovendo debates e reivindicando políticas públicas. “O objetivo do coletivo é atuar pelos direitos de pessoas indígenas LGBTQIA+, seja no reconhecimento de nossas identidades, seja na reivindicação de questões como educação, saúde, direito à terra e combate às violências”, explica.

No Dia Internacional da Visibilidade Trans, Jarē deixa uma mensagem para pessoas trans, especialmente indígenas, que podem ver em sua trajetória uma inspiração. Ele destaca a importância do apoio de pessoas aliadas para o avanço da luta. “Não nos calemos. Acho que o mais importante é não silenciar, dizer quem somos com orgulho, manter nossas memórias, unir nossas vozes, porque é só por meio da luta coletiva que vamos continuar conquistando nossos direitos”, conclui.