
A França e a representação latino-americana no cinema
‘Orfeu Negro’ e ‘Emília Pérez’ são dois filmes que, mesmo separados por décadas, provocam indiretamente o mesmo debate
Por João Victor Almeida
A França é um dos países com mais representantes e estatuetas na história do Oscar, considerando somente a categoria de Melhor Filme Internacional/Estrangeiro. Porém, dentre as muitas produções de sua filmografia, algumas são conhecidas por retratar histórias e culturas de outros lugares. O que não é um problema e nem é algo restrito ao cinema francês, visto que é muito comum a parceria entre vários países para a produção de filmes. Contudo, a representação de uma cultura tem que ser feita de forma responsável e respeitosa. O que nem sempre acontece.
Os casos mais notáveis de filmes franceses sobre outras culturas são ‘Orfeu Negro’ (1959) e a produção mais recente ‘Emília Pérez’ (2024). O primeiro é baseado na peça teatral brasileira ‘Orfeu da Conceição’; o segundo é baseado em um capítulo do livro “Écoute”, do escritor francês Boris Razon. As duas obras foram apresentadas ao mundo pela primeira vez no festival de Cannes e foram bem recebidas pela crítica especializada.
‘Orfeu Negro’, dirigido por Marcel Camus, foi o grande vencedor da Palma de Ouro de 1959 e colecionou prêmios naquela temporada, incluindo o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1960. Até hoje, é o único filme falado em português a ser agraciado na premiação.
Apesar de tudo isso, o filme não foi isento de críticas, principalmente as brasileiras. Dentre os maiores críticos do filme, estão Vinícius de Moraes, autor da obra-base, e Glauber Rocha, renomado cineasta brasileiro. Os principais argumentos de rejeição ao longa-metragem deram conta de que a produção francesa apresentava uma visão estereotipada do brasileiro, como uma figura exótica e sexualizada, além de uma visão romantizada da favela e da pobreza que ignorou a dura realidade dos moradores.
O filme, protagonizado por Breno Mello, muitas vezes nem é creditado na filmografia nacional, mesmo sendo uma co-produção França-Brasil. Pela pouca participação do país na produção, um dos apontamentos da crítica brasileira foi identificar a perda de identidade em relação à peça com sobreposição de uma visão europeia sobre o país.

Em 2024, uma situação semelhante e até mais problemática envolve novamente uma produção francesa que se passa na América Latina. Dessa vez, o cenário é o México. Dirigido por Jacques Audiard, ‘Emília Pérez’ vem recebendo diversos prêmios e é o principal concorrente do filme ‘Ainda Estou Aqui’ – produção brasileira que mais repercutiu na temporada. No Oscar, bateu o recorde de indicações para um filme internacional, com 13 indicações ao todo.
Apesar da boa recepção da crítica, o mesmo não aconteceu entre o público, principalmente mexicano, que acusaram o filme de abordar uma visão estereotipada do país. Outro ponto levantado foi o fato de a produção ter sido inteiramente gravada na França e não no México, diferentemente do primeiro filme citado. Além disso, o elenco principal não conta com ator ou atriz do país retratado, o que não acontece com a produção franco-brasileira.
São esses dois pontos que tornam o caso de ‘Emília Perez’ ainda mais problemático. Os mexicanos ainda apontaram erros em algumas expressões usadas ao longo do filme, acusando a produção francesa de não ter tido o cuidado na pesquisa sobre as expressões mexicanas e ter recorrido a serviços de tradução online.

As críticas se intensificaram quando o diretor do filme veio a público dizer que não pesquisou sobre o México porque já tinha conhecimento suficiente sobre o país para o produção do filme. Posteriormente, Jacques Audiard deu mais uma declaração polêmica afirmando que o espanhol é uma língua de pobres e migrantes.
Os casos de ‘Orfeu Negro’ e ‘Emília Pérez’ refletem que em mais de seis décadas não houve um avanço na representação de outras culturas pelo cinema francês. Pelo contrário, houve um retrocesso e há muito a se debater sobre essa questão, ainda mais no contexto em que o mundo está mais globalizado que há 65 anos.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.