A vergonha precisa mudar de lugar

Nova embaixadora da Plan International Brasil, a atriz Cleo Pires defende que o combate à violência de gênero precisa começar na infância, critica a cultura que responsabiliza meninas pelas agressões que sofrem e afirma que é preciso “parar de tratar o efeito e enfrentar a causa”.

Cleo coloca sua voz a serviço do combate à violência de gênero

A violência contra meninas e mulheres ainda costuma vir acompanhada de uma pergunta recorrente: “O que ela estava fazendo?”. Enquanto as vítimas são questionadas pela roupa que usavam, pelos lugares que frequentavam ou pela forma como se comportavam, a responsabilidade de quem pratica a violência frequentemente fica em segundo plano.

Foi justamente para ajudar a enfrentar essa lógica que Cleo Pires assumiu, em 2026, o posto de embaixadora da Plan International Brasil. A organização atua na promoção dos direitos de crianças e adolescentes e no enfrentamento das violências contra meninas.

Segundo dados da instituição, 94% das meninas brasileiras já presenciaram ou sofreram algum tipo de violência ou abuso. Em entrevista à Mídia NINJA, Cleo falou sobre sua trajetória, relembrou episódios de assédio vividos no início da carreira, refletiu sobre o crescimento de discursos misóginos nas redes sociais e defendeu mudanças profundas na forma como a sociedade educa meninos e meninas.

Segundo a atriz, a decisão de aceitar o convite da Plan surgiu da vontade de participar de forma mais ativa de uma causa que dialoga diretamente com sua própria história. “Eu sempre fui próxima a organizações e causas que me tocassem, mas nos últimos anos queria uma atuação mais presente e constante com uma instituição voltada para meninas e adolescentes. É na infância e adolescência que grande parte dos nossos traumas começam. […] Não adianta a gente ter voz se não usamos para quem precisa.”

Ela afirma que, mesmo vivendo uma realidade marcada por privilégios, também foi vítima de situações de assédio e adultização ainda muito jovem. “Eu, mesmo com todo o meu privilégio, já passei por situações de assédio, adultização e tantos outros crimes. Não adianta a gente ter voz se não usamos para quem precisa.”

Recentemente, Cleo revelou à CNN Brasil que sofreu constantes episódios de assédio quando estreou na televisão, em América (2005). Para ela, olhar para aquele período hoje deixa evidente como a sociedade costuma responsabilizar mulheres pela violência sofrida.

A atriz critica o fato de meninas crescerem cercadas por recomendações sobre como evitar a violência — enquanto pouco se discute o comportamento masculino.