Infelizmente, ainda amamos futebol
A FIFA controla quase tudo no futebol. O problema é que ainda não descobriu como controlar o que acontece em campo
Por Manoel Costa – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
A Copa do Mundo acaba e chega aquele momento em que todo torcedor minimamente consciente deveria refletir sobre suas escolhas de vida. Depois de mais de um mês assistindo futebol quase todos os dias, é hora de admitir que já deu. Futebol custa caro, irrita demais e agora exige um curso técnico para entender quando um gol pode ser comemorado. Uma pessoa racional procuraria um hobby mais saudável, como tricô, jardinagem ou qualquer atividade sem Gianni Infantino envolvido.
O problema é que ninguém aqui é racional.
Passamos semanas acompanhando a maior Copa da história, embora eu ainda não saiba se “maior” é um adjetivo ou uma ameaça. São tantas seleções e tantos jogos que, em algum momento da fase de grupos, tenho certeza de que existiu uma partida acontecendo sem que ninguém soubesse exatamente quem estava jogando. A FIFA chama isso de expansão global. O torcedor provavelmente chama de “quem tá jogando agora?”.
É também a Copa em que a FIFA decidiu descobrir até onde consegue esticar o futebol antes que ele arrebente. Os ingressos chegaram a valores capazes de fazer alguém escolher entre assistir à final ou dar entrada num apartamento. A precificação dinâmica transformou uma cadeira de plástico num ativo financeiro e ensina uma importante lição sobre capitalismo: o futebol continua sendo do povo, desde que o povo tenha um excelente limite no cartão.
Dentro de campo, o VAR segue sua missão de acabar com as discussões de arbitragem multiplicando as discussões de arbitragem. O gol vira decisão provisória: você comemora, espera o protocolo e só depois abraça a pessoa ao lado. Nesta Copa, até a bola passa a depor. O chip interno ajuda a anular um gol da Croácia contra Portugal ao detectar um contato em nível molecular no cabelo de Igor Matanovic. Imagino a coletiva da bola: “sim, houve um leve toque no meu hemisfério esquerdo”.
Nem as chuteiras escaparam. Cerca de 69% dos titulares no início do torneio usaram chuteiras rosas. O futebol antecipou o Outubro Rosa para junho, sem qualquer relação com a campanha de conscientização: é apenas o marketing funcionando em escala industrial. Se você reunir dez jogadores aleatórios numa sala, sete provavelmente parecem integrantes da mesma excursão da Barbie. Até a rebeldia agora vem produzida em série.
A pausa para hidratação também ganhou novas funções: água para os jogadores, instruções para os treinadores e alguns segundos comercialmente interessantes para as emissoras. Na final, até o intervalo virou espetáculo, cada vez mais próximo do Super Bowl. A FIFA descobriu uma falha gravíssima no futebol: ainda existem alguns minutos em que ninguém está comprando nada.
E como toda grande produção precisa de participação especial, Donald Trump apareceu na cerimônia da taça e permaneceu por alguns instantes entre os campeões espanhóis, como se Luis de la Fuente tivesse convocado um Cheetos de terno sem avisar ninguém. Antes disso, Trump telefonou para Infantino após a expulsão de Folarin Balogun, e a punição automática do atacante acabou suspensa. Em determinado momento, até um cartão vermelho de Copa parece sair da cabine do VAR e terminar na Casa Branca.

A competição anunciada como a mais inclusiva da história ainda produziu Omar Abdulkadir Artan, que seria o primeiro árbitro somali num Mundial, mas não conseguiu entrar nos Estados Unidos mesmo com documentação válida. Seria a história perfeita para um vídeo institucional sobre diversidade da FIFA, mas a imigração cancelou a gravação. O futebol o convoca; a fronteira corta.
Passo boa parte da Copa escrevendo sobre FIFA, dinheiro, poder, VAR, ingressos e geopolítica. Quanto mais olho para tudo isso, mais difícil fica explicar por que continuo assistindo.
Até que aparece Cabo Verde.
E aí começa o problema: quando finalmente reunimos argumentos suficientes para desistir, surge um goleiro de 40 anos chamado Vozinha e estraga toda a nossa coerência. Josimar Dias vira personagem do Mundial enquanto sua mãe enfrenta dificuldades para viajar e assistir ao filho. Depois da repercussão, ela finalmente chega. Durante a Copa, parece mais fácil fazer um gol em Vozinha do que impedir definitivamente sua mãe de chegar até ele.
Cabo Verde, em seu primeiro Mundial, também não pareceu informado de que deveria apenas agradecer pela participação, trocar camisas e voltar para casa. Avança, desafia gigantes e descobre que, numa Copa do Mundo, tamanho não entra em campo sozinho.
Curaçao resolve colaborar com a tese. Estreia levando sete da Alemanha e, em vez de concluir que participar de uma Copa foi um erro administrativo, volta a campo contra o Equador. Eloy Room faz 15 defesas e entrega ao menor país da história dos Mundiais seu primeiro ponto.
Uma das consequências inesperadas da Copa de 48 seleções é aparentemente transformar goleiros de pequenas ilhas em inimigos pessoais das grandes potências.
O Egito também participa dessa conspiração contra o cinismo. Mohamed Salah aparece acompanhado de Mostafa “Zico” Mohamed, que estava praticamente de férias quando recebeu uma convocação inesperada. Pouco depois, marca numa Copa. O Zico original foi à praia depois de encerrar a carreira; o Zico egípcio precisou sair da praia para quase eliminar a Argentina.
E quase elimina mesmo. O Egito abre vantagem, Zico ainda tem um gol anulado pelo VAR e a Argentina encontra a virada no fim. Depois de tudo que a tecnologia decidiu ao longo da Copa, sobra aquela velha sensação de que cada torcida assiste ao mesmo lance e enxerga uma realidade diferente. Foi precisão tecnológica, detalhe de jogo ou alguma pequena intervenção de Dios? Cada um escolhe sua versão.
É aí que a expansão complica a crítica. Você sabe que a FIFA quer mais partidas, mercados e dinheiro. Então aparecem Cabo Verde, Curaçao, Jordânia e Uzbequistão vivendo histórias que dificilmente existiriam antes. A FIFA faz uma coisa pelos motivos errados e o futebol encontra um jeito de produzir algo bonito com ela.
É irritante.
A Noruega também resolve testar essa teoria. Volta à Copa depois de quase três décadas, elimina o Brasil, chega às quartas e acaba derrotada pela Inglaterra. Quando a seleção retorna para casa, uma multidão ocupa as ruas de Oslo para recebê-la. O futebol é provavelmente uma das poucas atividades humanas em que você pode fracassar no objetivo principal e, mesmo assim, encontrar uma cidade inteira esperando para agradecer.
A República Democrática do Congo chegou carregada pela diáspora. Na arquibancada, Michel Kuka Mboladinga, o Lumumba Vea, vira ícone permanecendo imóvel, de terno e braço levantado, reproduzindo a pose da estátua de Patrice Lumumba — ex-primeiro-ministro da República Democrática do Congo assassinado em 1961. Quando ele não consegue acompanhar uma partida, outro torcedor aparece para reproduzir a homenagem. Em determinado momento existe, portanto, um homem imitando um torcedor que imita uma estátua. Não conheço outra modalidade capaz de produzir essa frase e fazê-la parecer normal.

A torcida mexicana prefere outro método. Depois das vitórias, uma multidão ocupa as ruas com bandeiras, máscaras de luta livre e transforma a Cidade do México numa extensão gigantesca das arquibancadas do lendário Azteca. Quando a seleção finalmente rompeu uma longa sequência de frustrações em mata-matas, comemorar com moderação parece praticamente uma ofensa nacional.
Tem ainda o Paraguai eliminando a Alemanha nos pênaltis. Os alemães têm títulos, tecnologia, analistas e provavelmente um departamento dedicado exclusivamente a estudar onde paraguaios costumam bater penalidades. O Paraguai tem um goleiro, cinco cobradores e nenhuma obrigação de colaborar com a ciência. Em algum lugar, um analista alemão fecha o notebook, procura a cervejaria mais próxima e tenta afogar as estatísticas numa caneca de um litro de chope.
Essa é a grande falha do projeto de controle absoluto do futebol moderno. A FIFA controla patrocinadores, ingressos, horários e cerimônias. As marcas controlam as chuteiras. As emissoras controlam as pausas. A tecnologia detecta um fio de cabelo tocando na bola. Mas ainda não sabem quem vai ganhar.
Podem calcular tudo. Então Vozinha fecha o gol, Eloy Room resolve não deixar mais ninguém passar, Salah acredita que pode derrubar a Argentina, Oslo recebe de braços abertos uma seleção eliminada, um congolês imita um torcedor que imita uma estátua e um paraguaio caminha até a marca do pênalti.
Nesse instante, todo o planejamento perde a autoridade.
É por isso que ainda assistimos futebol. Não porque a FIFA mereça nossa audiência ou porque as contradições desaparecem quando a bola rola. Continuar assistindo não significa aceitar ingressos inacessíveis, exploração comercial, fronteiras seletivas ou uma tecnologia que transforma o grito de gol em decisão provisória. Significa reconhecer que existe uma diferença entre o futebol e aqueles que se apresentam como seus proprietários.
A FIFA pode ter sequestrado o espetáculo, mas ainda não consegue sequestrar completamente o jogo.
A Copa acabou e passei semanas criticando praticamente tudo nela: FIFA, ingressos, VAR, chuteiras rosas, pausas, patrocinadores, dirigentes e política. Provavelmente esqueci alguma coisa — porque a FIFA é muito produtiva nesse departamento.
Depois de tudo isso, por que ainda assistir futebol? Não tenho uma resposta muito elaborada, mas, a propósito, quando começa o próximo jogo?



