Por Thays Silva – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Enquanto milhões de torcedores acompanham uma Copa do Mundo de olhos vidrados para o gramado, existe outro jogo acontecendo do lado de fora das quatro linhas. Agachados atrás das placas de publicidade, disputando espaço com centenas de colegas e carregando equipamentos que podem ultrapassar dezenas de quilos, fotógrafos têm uma missão tão desafiadora quanto a dos atletas: registrar, em uma fração de segundo, uma imagem capaz de atravessar gerações.
Mas uma fotografia histórica não nasce apenas do reflexo rápido ou da câmera certa. Ela começa muito antes do apito inicial.
Foi justamente por causa do futebol que a fotógrafa Karen Ferreira encontrou sua profissão. Há mais de dez anos na fotografia e há sete acompanhando o futebol, ela começou registrando os jogos da filha, que também é atleta. O que nasceu como uma forma de incentivar a carreira da menina se transformou em profissão. Hoje, Karen acumula cobertura de campeonatos estaduais, nacionais, Libertadores, Mundial de Clubes e, em 2026, vive sua primeira experiência em uma Copa do Mundo. A paixão pela fotografia também foi passada para a filha, que atualmente fotografa competições de futebol amador.
Foto: Karen Ferreira / Arquivo Pessoal
Chegar ao maior torneio do planeta, no entanto, significa enfrentar desafios que vão muito além do campo.
“A rotina da Copa do Mundo é mais complicada por causa da logística. Como a competição acontece em três países, temos diversas vantagens entre cidades, muitas vezes longas. Além disso, há deslocamento do aeroporto direto para o estádio ou ao contrário, porque você precisa pegar outro voo para cobrir outra partida. Esse é um dos grandes desafios da Copa”, conta.
Durante a competição, Karen precisou lidar com atrasos, cancelamentos de voos e mudanças de roteiro para conseguir acompanhar os jogos. Para ela, a logística se tornou parte da cobertura tanto quanto para a fotografia. Mas chegar ao estádio era apenas o começo.
Haaland e Gabriel Magalhães no último jogo da Seleção Brasileira contra a Noruega (Foto: Karen Ferreira)
Ao contrário do que muita gente imagina, a fotografia que entra para a história nem sempre acontece durante um gol.
“A responsabilidade é muito grande porque uma foto histórica pode acontecer em questão de segundos. Você precisa estar atento durante todo o jogo, mas também antes dele começar. Às vezes, uma foto feita antes da bola rolar acaba contando toda a história daquela partida.”
Cristiano Ronaldo, John Arias, Santiago Arias e João Felix em partida entre Portugal e Colômbia (Foto: Karen Ferreira)
Por isso, o trabalho do fotógrafo também envolve pesquisa. Conhecer o histórico dos confrontos, entender o momento vivido pelas seleções e observar o comportamento dos atletas ajuda a antecipar situações que podem render imagens marcantes.
“A gente precisa conhecer a história do jogo, saber se aquele time vem de vitórias ou derrotas, se tem chance de classificação. Tudo isso ajuda a contar a história da partida em uma única fotografia.”
Para ela, uma imagem marcante é aquela que consegue transportar quem está do outro lado da tela para dentro do estádio.
“Uma foto da Copa do Mundo precisa fazer quem está vendo sentir que também estava lá. Ela conta a história de um jogo, de um atleta ou até de uma seleção inteira.”
Haaland em partida no jogo da Noruega (Foto: Karen Ferreira)
Se para Karen o desafio é contar a história de uma partida, nem todos os fotógrafos presentes em uma Copa estão olhando para o mesmo lugar.
A trajetória de BKZ começou de forma simples. Em 2019, usando uma câmera básica do pai, ele fotografava eventos na igreja. Apaixonado por futebol, decidiu unir as duas paixões e passou a atuar na fotografia esportiva em Curitiba. Na Copa do Mundo de 2026, sua missão era diferente da maioria dos profissionais posicionados à beira do campo: acompanhar atletas específicos da Seleção Brasileira.
Foto: Igor Barrankievicz / Arquivo Pessoal
“Meu trabalho é um pouco diferente. Não estou preparado para o lance da partida, mas para fazer a melhor foto do meu cliente. Trabalho acompanhando alguns atletas e busco sempre a melhor imagem deles. Muitas vezes o lance acontece na minha frente, mas meu foco está no jogador que estou fotografando.”
Foto: Igor Barrankievicz
Essa estratégia também define onde cada fotógrafo ficará posicionado durante a partida.
“Nesta Copa acompanhei o Alisson e o Gabriel Magalhães. Por isso, ficava sempre próximo da linha defensiva, na lateral ou no meio de campo.”
Goleiro Alisson e partida no jogo da Seleção Brasileira (Foto: Igor Barrankievicz)
Enquanto alguns profissionais buscam o lance decisivo e outros acompanham atletas específicos, todos compartilham a mesma responsabilidade: transformar segundos em memória.
Aos 23 anos, João Bravo já percorreu um caminho que começou atrás do alambrado do estádio do Juventus da Mooca. Depois de fotografar treinamentos do São Bernardo, mudou-se para Portugal durante a pandemia para estudar Multimídia. No país europeu, passou pela quarta divisão portuguesa, estagiou no Belenenses e ampliou sua atuação para a primeira divisão, Champions League, jogos de seleções e Mundial de Clubes. A Copa do Mundo de 2026 marcou sua estreia no principal torneio do futebol.
Foto: João Guilherme Bravo / Arquivo Pessoal
“Sou apaixonado por futebol e fotografia. Em todos os jogos sinto aquele frio na barriga. Estar perto de grandes jogadores, ouvir o hino, ver a torcida fazendo a festa e registrar uma comemoração de gol bem na sua frente é uma sensação incrível. Tudo isso me emociona.”
Torcida Norueguesa em comemoração (Foto: João Guilherme Bravo)
Para João, o trabalho vai muito além de registrar o placar.
“Eu sempre estou focado em contar a história daquele jogo. Tudo o que acontece no estádio importa. Sabendo do peso da partida, procuro antecipar expressões e emoções. Existe, sim, a consciência de que algumas dessas imagens podem ir além.”
Neymar Jr., Vini Jr e Raphinha no último jogo da Seleção Brasileira contra a Noruega (Foto: João Guilherme Bravo)
Se pudesse voltar no tempo para registrar um momento da história das Copas, ele não hesita.
“Seria qualquer um dos títulos do Brasil. Mas fotografar o Rei Pelé seria muito especial.”
Ao final de uma Copa do Mundo, os estádios se esvaziam, os jogadores seguem suas carreiras e novas competições começam. As fotografias, porém, permanecem como testemunhas daquele instante.
“É um sentimento de muita gratidão e responsabilidade. Saber que minhas fotografias podem chegar às próximas gerações e que aquele momento vai se transformar em memória é incrível. Porque o tempo vai passar, mas a imagem vai ficar. E saber que alguém pode se emocionar olhando minhas fotos anos depois deixa tudo ainda mais especial.”
Cristiano em comemoração de gol em jogo de Portugal (Foto: João Guilherme Bravo)
É justamente isso que torna a fotografia esportiva tão singular. Antes de eternizar um gol, um título ou uma derrota, ela eterniza emoções. E, quando o apito final encerra a Copa do Mundo, São essas imagens que continuam contando a história que o tempo jamais conseguirá apagar.
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