Por Keila Vitória – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

A Copa do Mundo de 2026 está chegando ao fim. Os últimos jogos estão sendo disputados e, aos poucos, as ruas das periferias brasileiras vão perdendo suas cores vibrantes. As bandeirinhas se desfazem com o vento, as pinturas no asfalto cedem à chuva e os telões são desmontados.

Nas comunidades, a Copa começou bem antes do apito inicial. Foi quando as latas de tinta verde e amarela foram abertas, os pincéis distribuídos entre as pessoas e o asfalto cinza ganhou vida. Foi quando os combinados começaram: na casa de quem vão ver o jogo? Qual bar ia montar o telão? Quem levava a cerveja?

Não houve ordem formal. Apenas uma força invisível, alimentada por décadas de tradição, que fez vizinhos se encontrarem com um propósito comum: transformar o espaço público em palco de celebração. Essa força uniu famílias em torno da televisão, lotou bares e praças, fez comunidades inteiras pararem para assistir a um jogo como se a vida dependesse daqueles 90 minutos.

A tradição de pintar as ruas nasceu nas periferias após o título de 1958 e nunca foi abandonada. Em algumas comunidades, mantém-se ininterrupta por mais de quatro décadas. Cada morador contribuiu como pôde: um doou a tinta, outro os pincéis, um terceiro varreu a rua. Não houve hierarquia. A rua se tornou um bem coletivo.

Em cada casa, a Copa significou uma pausa. O sofá foi rearranjado para caber mais gente. A televisão foi posicionada para que todos pudessem ver. As crianças se espalharam pelo chão, os adultos disputaram os melhores lugares, os idosos ocuparam as poltronas com a autoridade de quem já viu muitas Copas. A família se reuniu de um jeito que a correria do dia a dia raramente permite. 

Para muitos, a casa ficou pequena. Entraram os bares, os botecos da vizinhança. O bar da esquina se transformou. O telão foi instalado na parede, as mesas foram reorganizadas. Estranhos se tornaram amigos em minutos, unidos pela camisa verde e amarela. Apostas feitas, palpites trocados, discussões sobre futebol misturadas com risadas. Quando o gol saiu, foi um rugido coletivo que sacudiu as paredes e se espalhou pela rua.

Mas a expressão mais bonita foi o telão em praças públicas. A praça que era apenas passagem ganhou alma. Cadeiras de plástico distribuídas, moradores com seus bancos improvisados, vendedores ambulantes. O que importou foi a multidão unida, os gritos sincronizados, a vibração coletiva. A rua se tornou ponto de encontro, palco para a construção de memórias afetivas. Cada comunidade viveu a Copa de um jeito. Alguns preferiram o aconchego de casa. Outros, a agitação do bar.

As crianças viveram a Copa com intensidade especial. Não entenderam as regras, mas entenderam o clima de festa. A rua colorida, os adultos eufóricos, as bandeirinhas, tudo criou um ambiente mágico que ficará em suas memórias. Quando crescerem, contarão às próximas gerações como era a Copa em sua infância.

Os mais velhos carregaram a sabedoria de quem já viu muitas Copas. Histórias para contar, comparações a fazer, saudades a compartilhar. A Copa de 1970, a de 1994, a de 2002. Cada edição tem um lugar especial em suas memórias, e a atual se juntou a essa coleção afetiva.

Foto: César Pereira

O que fica quando o Mundial termina

Agora, com a Copa chegando ao fim, as bandeirinhas são recolhidas. Os telões são desmontados. As pinturas no asfalto cedem ao tempo. Mas o que fica é muito maior que qualquer resultado.

Fica a imagem do avô contando histórias. Fica a lembrança do abraço coletivo no gol. Fica o gosto da refeição compartilhada. Fica a sensação de que, por alguns dias, a rua foi de todo mundo. Fica a certeza de que a periferia encontrou seus próprios caminhos para celebrar.

Fica a memória da família reunida no sofá. Fica a lembrança do bar lotado, das cervejas compartilhadas entre amigos. Fica a memória daquele desconhecido que virou amigo de torcida. Fica a lembrança das praças transformadas em estádios.

O legado da Copa de 2026 nas periferias não está no placar. Está nas memórias que ficaram, nos laços fortalecidos, na certeza de que a periferia sabe celebrar. Sabe se unir. Sabe transformar uma televisão, um bar ou uma praça em espaço de afeto e pertencimento.

E fica a certeza de que, daqui a quatro anos, tudo recomeçará. As latas de tinta serão abertas novamente. As famílias se reunirão nos sofás. Os bares lotarão. As praças ganharão telões. Porque a Copa, nas periferias, nunca é apenas sobre futebol. É sobre resistência. É sobre comunidade. É sobre a alegria que insiste em florescer mesmo em solo árido.

As ruas pintadas de verde e amarelo, mesmo desbotadas, continuarão lá. E contam uma história que nenhum placar pode apagar: a narrativa de um povo que, apesar das dificuldades, continua celebrando a vida. O apito final pode encerrar a partida, mas não encerra o que foi vivido e construído coletivamente. Porque a periferia já aprendeu: o verdadeiro campeonato não é no gramado, mas entre as pessoas. É o que fica no coração. É o que atravessa gerações. E quando a próxima Copa chegar, as ruas voltarão a se encher de cor. Porque a periferia nunca perde. Ela resiste. Ela se reinventa. Ela encontra motivos para festejar. E essa é a maior lição que o futebol pode ensinar.