Imagine que você saiu para almoçar com seus colegas de trabalho em uma região nobre. Por praticidade, saiu apenas com o celular, sem levar bolsa nem carteira. Depois da refeição, vai pagar pelo aplicativo do banco. Na hora de finalizar o Pix, o sistema exige o reconhecimento facial. A luz está ótima, você está sob o sol, mas o aparelho insiste: “vá para um local mais iluminado”. Ele não reconhece o seu rosto. Você é uma mulher negra e, para aquele código, a sua pele parece não existir sob uma luz que é suficiente para qualquer outra pessoa.

Ali, diante dos seus amigos, você é exposta ao constrangimento. O que deveria ser um pagamento comum vira um momento de humilhação. Esse é o racismo algorítmico: silencioso, técnico e desrespeitoso. É por causa dessas barreiras invisíveis que o Julho das Pretas é tão urgente. Neste mês, em que celebramos a luta das mulheres negras, precisamos também falar de tecnologia. Como podemos ocupar todos os espaços se as ferramentas que definem o nosso dia a dia ainda nos tratam como um erro?

Mas por que essa falha acontece? A resposta não está em um erro casual do sistema, mas em quem detém o poder de decisão. A tecnologia não é neutra; ela é um reflexo de quem a cria. Hoje, a maioria das inovações nasce em ambientes onde predominam homens brancos, héteros, concentrados no Vale do Silício. Quando esses times não têm diversidade, eles não enxergam as necessidades de pessoas como nós.

Se quem programa não conhece a vivência de uma mulher negra, o resultado é uma tecnologia repleta de vieses que nos ignoram. O algoritmo, que deveria facilitar a nossa vida, torna-se uma ferramenta de exclusão. Ter mulheres negras não apenas como consumidoras, mas também como produtoras nos times de tecnologia não é apenas uma questão de “ter representatividade”; é garantir que esses sistemas não sejam alimentados por preconceitos que nos violentam.

Mulheres negras ocupando espaços na tecnologia. Foto: Coding together @ NESA by Makers/Unsplash

Não estamos falando de casos isolados, mas de um sistema organizado. Segundo levantamento citado por Tarcízio Silva em Racismo Algorítmico: Inteligência Artificial e Discriminação nas Redes Digitais (Edições Sesc), o racismo online no Brasil é uma engrenagem que, frequentemente, entra em ação quando mulheres negras brilham:

  • 81% das vítimas de racismo no Facebook no Brasil são mulheres negras de classe média, com ensino superior.
  • 76,2% dos agressores não tinham nenhum relacionamento prévio com a vítima.
  • 66% dos agressores são homens jovens.
  • Muitas vezes, esses ataques são reações às conquistas que mulheres negras compartilham nas redes sociais.

Se hoje falamos de racismo algorítmico, estamos debatendo a nova face de uma estrutura que tenta, há séculos, nos limitar. O Julho das Pretas, que celebra mulheres como Tereza de Benguela, não é apenas uma data no calendário; é um lembrete vivo de que a nossa autonomia incomoda a forma como as coisas funcionam. Assim como Tereza organizou a resistência no Quilombo do Quariterê para garantir a liberdade do seu povo, hoje o nosso quilombo também é digital.

Disputar a tecnologia é a versão moderna dessa luta por território. Quando ocupamos os times de desenvolvimento, não estamos apenas buscando um emprego; estamos levando a nossa visão de mundo para sistemas que foram desenhados para nos ignorar. Ter mulheres negras construindo tecnologia é um ato de reparação e de poder. É garantir que o nosso olhar — aquele que enxerga as nuances da vida que o algoritmo apaga — seja a base que estrutura o futuro. Afinal, a tecnologia que nos silencia não pode ser a mesma que usamos para escrever a nossa história.