Por Tácio Santos – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

A seleção argentina concluiu a primeira fase da Copa do Mundo com 100% de aproveitamento, conforme era esperado. O desempenho é condizente com o atual ciclo da equipe, que, após o tricampeonato no Catar, conquistou a Copa América 2024 e ficou na primeira colocação das Eliminatórias Sul-Americanas para 2026. 

O técnico Lionel Scaloni, durante a entrevista para a última partida da fase de grupos, foi perguntado sobre como gostaria que seu trabalho fosse visto nos primeiros cem jogos, que é uma marca próxima de ser cumprida, ele respondeu:

O que importa para mim é que as pessoas se sintam identificadas com a proposta da equipe, com a sensação de que fomos uma seleção que representava à sua gente.

E, justamente sobre o aspecto da representatividade nacional, que, mesmo durante esta lua de mel, surgem alguns questionamentos.

Para entender o contexto, é necessário ter uma ideia da relação que os argentinos têm com o mate. A bebida, relativamente análoga ao nosso chimarrão, é consumida em mais de 90% dos lares, sendo declarada como a Infusão Nacional por uma lei governamental. Com tamanha presença na vida dos hermanos, é de se esperar que esse tipo de chá esteja presente também na seleção de futebol do país.

A Argentina é o principal consumidor de erva-mate do mundo, mas sua produção fica atrás da brasileira, que ocupa o primeiro lugar na cadeia internacional. De certa forma, isso tem a ver com a Scaloneta consumir erva-mate do Brasil, e com a polêmica gerada ao redor do assunto – que, ao contrário do que possa parecer, não vem da rivalidade esportiva entre os dois países.

A centenária marca gaúcha Baldo começou a expandir sua atuação para o mercado argentino em meados de 2024, vinculando sua imagem à de jogadores de Boca Juniors, River Plate, Racing e Independiente, entre outros. Contudo, sua maior parceria em terras platenses seria anunciada somente em março do presente ano:

A Associação Argentina de Futebol (AFA) tem o prazer de anunciar um novo acordo estratégico de patrocínio com a erva-mate Baldo […]. A partir de hoje, Baldo torna-se oficialmente a Erva-Mate Oficial da Seleção Nacional.”

Foto: Divulgação/Associação de Futebol Argentina

Poucos dias depois, o deputado provincial Juan Szychowski se manifestou contra a parceria entre AFA e Baldo. Ele, que também é produtor ervateiro e já presidiu o Instituto Nacional de La Yerba Mate, explicou seus motivos à Radio Up:

A camiseta argentina, a seleção argentina, é de todos. É sua, é minha, e de todos. Então, deveria levar a propaganda de produtos argentinos, de produtos nacionais. E mais ainda, no caso da erva-mate, onde competimos mundialmente com o Brasil e o Paraguai […]. Eu creio que a identidade de uma nação não se negocia. Isso não tem preço, não pode ser parte de um contrato. Assim, não pode ser que uma camiseta de uma seleção nacional esteja promovendo, em um evento mundial, uma erva de outro país de origem”, afirmou o parlamentar.

O perfil de instagram Mate News, dedicado a notícias sobre erva-mate, fez uma enquete sobre a reclamação de Szychowski: 47% dos votantes foram a favor da queixa, e 53%, contra. Os comentários favoráveis reforçam a ideia de que a seleção argentina é um organismo que representa a nação, e que deve fazê-lo para além de interesses esportivos. Já aqueles que são contrários, afirmam que a AFA e o time são instituições comerciais, e que por isso, os contratos de patrocínio devem visar apenas a captação financeira.

Outras Copas do Mundo e Outras Ervas-Mate

A discussão sobre a erva-mate que os jogadores da seleção argentina consomem não começou na Copa do Mundo de 2026. No embarque da delegação para o Catar, em 2022, a foto de uma das caixas de mantimentos levadas pelo grupo circulou nas redes sociais. A imagem mostrava cerca de 100 kg da erva-mate Canarias, que apesar de ter envasamento e padrão uruguaio, também é produzida no Brasil, e também pertence à Baldo.

Na época, Larissa Bagatini, representante da marca, falou ao Lance! sobre o ocorrido:

Sabemos que o Messi sempre tomou Canarias, não é de agora. Não só ele, como a maioria dos jogadores uruguaios e argentinos consomem esse produto, porque é do padrão uruguaio. Na Copa de 2018, a assessoria do Messi já havia entrado em contato conosco para pedir a erva.

Naquela ocasião, mesmo sem uma relação oficial entre AFA e Baldo, houve o mesmo tipo de crítica que as recentes. Luis Pastori, que foi deputado nacional, compartilhou a foto em seu twitter: 

Estranho e inexplicável. Existem dezenas de marcas de erva-mate muito boas na Argentina produzidas em Misiones e em Corrientes. No entanto, a Seleção leva uma marca uruguaia ao Catar. Há alguma explicação oficial? É quase uma provocação.

Foto: Reprodução/X

Fontes do Infobae, que atuam na cadeia ervateira, disseram à época que “o gosto e a escolha dos jogadores prevaleceram sobre considerações da diretoria, ou sobre quaisquer acordos que a AFA pudesse ter com uma empresa específica“. Os relatos também deram conta de que havia uma marca argentina de erva-mate associada à seleção, mas que as preferências dos jogadores tiveram muito mais peso na decisão final.

A repercussão do ocorrido levou o assessor de imprensa do selecionado nacional, Nicolas Novello, a se manifestar na mesma rede: uma foto de outra caixa do mesmo tipo cheia da tradicional erva correntina Playadito e afinetou: “Há para todos os gostos, não se alterem, muchachos…

Foto: Reprodução/X

Há um paralelo com a Seleção Brasileira?

A perspectiva que Juan Szychowski, Luis Pastori, e quase metade dos votantes na enquete do Mate News têm sobre o que é uma seleção nacional parece ter paralelo com a Seleção Brasileira de 1982.

Na década de 1970, a FIFA passou a exigir que os países associados tivessem uma entidade específica para o futebol. Então, a CBF se desmembrou da antiga Confederação Brasileira de Desportos (CBD), passando a ter, entre outros elementos próprios, um escudo específico para si.

Nesse contexto, o Instituto Brasileiro do Café (IBC) se torna patrocinador da CBF, para que a Seleção Brasileira promova o café nacional no exterior. Como a FIFA proíbe a veiculação de patrocínio no uniforme das seleções nacionais, ocorre a incorporação de um ramo de café ao recém-criado escudo da confederação, que continha apenas sua sigla, e a imagem da Taça Jules Rimet, conquistada definitivamente em 1970. O argumento para isso é que tal ramo também é um símbolo nacional, uma vez que aparece no Brasão da República.

Camisa da Seleção Brasileira de 1982 (Foto: Football Kit Archive)

Porém, no começo dos anos 1990, o IBC foi extinto pelo governo de Fernando Collor, e o escudo da CBF foi reformulado para fazer alusão à CBD, assumindo o atual padrão de cruz.