Por Evelyn Ludovina

As calamidades socioclimáticas estão cada vez mais presentes no cotidiano. Estampadas nos noticiários e amplamente compartilhadas nas redes sociais, enchentes, secas extremas e ondas de calor evidenciam uma crise que afeta diferentes partes do mundo. Na Amazônia, o cenário não é diferente. Enquanto algumas regiões enfrentam chuvas mais intensas e frequentes, outras sofrem com o calor extremo e seus impactos sobre a produção de alimentos e os modos de vida locais. Nesse contexto, políticas públicas ambientais capazes de reduzir vulnerabilidades e promover adaptação climática tornam-se fundamentais. No entanto, sua formulação depende da existência de dados que revelem as necessidades e os desafios específicos de cada território.

Foi justamente para enfrentar a ausência dessas informações que surgiu, em 2020, o Observatório do Marajó. A iniciativa atua no fortalecimento da participação de lideranças locais e na ampliação da presença das demandas das comunidades tradicionais nos processos de formulação, implementação e monitoramento de políticas públicas. Por meio da Geração Cidadã de Dados (GCD) e do diálogo permanente com os territórios, o observatório busca garantir que as populações amazônicas estejam no centro das decisões que impactam seu futuro.

Localizado no oeste do Pará, o arquipélago do Marajó é a maior ilha fluviomarítima do mundo e reúne 17 municípios, considerando a perspectiva local, que inclui Oeiras do Pará. Cerca de 577 mil pessoas vivem na região, reconhecida integralmente como uma Unidade de Conservação de Uso Sustentável. Apesar de sua importância ambiental, o território enfrenta graves indicadores sociais: oito municípios estão entre os 50 menores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do país, incluindo Melgaço, que ocupa a última posição no ranking nacional.

Ao mesmo tempo, o Marajó está na linha de frente da crise climática. A erosão costeira, as enchentes severas, o avanço do nível do mar e a perda de manguezais ameaçam a segurança alimentar e os modos de vida locais. Apesar disso, muitos desses impactos permanecem ausentes dos registros oficiais. Enchentes que invadem residências, perdas nas plantações e a morte de animais, por exemplo, frequentemente não aparecem nas estatísticas governamentais, dificultando a reivindicação por políticas públicas adequadas.

Nesse cenário, a Geração Cidadã de Dados surge como uma ferramenta de resistência e visibilidade. “A geração cidadã de dados é uma tecnologia social muito importante no Brasil, especialmente em territórios periféricos e vulneráveis, onde o poder público e as grandes corporações de dados muitas vezes não chegam. Nessas localidades, as comunidades produzem e metrificam informações sobre o clima a partir de seus saberes tradicionais”, explica Larissa Noguchi, autora da dissertação Comunicação e Geração de Dados Cidadã na Amazônia: Um Estudo de Caso do Monitoramento Climático na Ilha do Marajó.

Segundo a pesquisadora, o território amazônico costuma ser monitorado por tecnologias externas, como satélites e sistemas controlados por grandes empresas, mas as populações locais permanecem excluídas do acesso, da interpretação e do controle dessas informações. Essa dinâmica contribui para uma visão da Amazônia como um “vazio demográfico”, desconsiderando a presença e os conhecimentos das pessoas que vivem na floresta. O Observatório do Marajó busca romper com essa lógica ao produzir evidências territoriais capazes de qualificar políticas públicas e valorizar os saberes tradicionais.

Esse processo também enfrenta o que pesquisadores definem como violência epistemológica, caracterizada pela desconsideração das experiências e dos conhecimentos das populações amazônicas. Quando os saberes tradicionais são tratados como inferiores aos registros oficiais ou aos dados científicos convencionais, comunidades inteiras deixam de participar da construção das soluções para os problemas que vivenciam.

“Eles passam a ser empoderados por meio de informação factível, de informação checada. Então, é muito importante esse trabalho que o observatório faz. Eles ensinam, empoderam e colocam as comunidades para contribuir com esse monitoramento, de maneira extremamente consciente de que aquela chuva, aquela enchente, aquele evento extremo não é um fenômeno natural que acontece em um dia e, no outro, não acontece mais. Você tem a colheita do açaí, toda a cadeia dos sistemas alimentares completamente prejudicada”, afirma Larissa Noguchi.

Dessa forma, os dados deixam de ser apenas instrumentos técnicos e tornam-se recursos de luta política e social. Ao produzir, interpretar e utilizar informações sobre o próprio território, comunidades ribeirinhas, quilombolas e indígenas passam a protagonizar a gestão de seus espaços e fortalecem sua capacidade de reivindicar políticas públicas mais justas e alinhadas às realidades locais.

Um problema que não é quantificado é um problema que não existe

Os indicadores de calamidade climática utilizados pelas comunidades da Ilha do Marajó foram definidos de forma colaborativa para a elaboração do 1º Boletim de Calamidade Climática, produzido durante o inverno amazônico de 2024. Ao todo, foram estabelecidos 17 indicadores que traduzem impactos ambientais, sanitários, produtivos e sociais percebidos diretamente nos territórios.

Os indicadores utilizados são:

  1. Enchentes limitando atividades na agricultura
  2. Contaminação da água por produtos químicos
  3. Contaminação da água por poluição
  4. Aumento no número de pessoas com diarreia e/ou vômito
  5. Enchentes inundando residências
  6. Enchentes inundando espaços comunitários comuns ou compartilhados
  7. Morte de plantas, peixes e outros animais em decorrência do inverno
  8. Estradas sem condições de tráfego
  9. Ocorrência de doenças respiratórias, viroses ou transmitidas por insetos (como gripe, tosse, COVID, dengue, malária, entre outras)
  10. Ventos fortes derrubando árvores e destelhando casas
  11. Chuva intensa por mais de 24 horas consecutivas
  12. Queda de raios na comunidade, vila ou rio
  13. Ameaças à comunidade por conflitos de terra
  14. Interrupção da rede de energia e/ou internet em decorrência do inverno
  15. Incidentes ou ataques de animais
  16. Ocorrências de acidentes em atividades de trabalho (como extrativismo de açaí, pesca e outras)
  17. Ocorrência de erosão nas margens dos rios e praias

O boletim representa uma ferramenta construída a partir da experiência cotidiana das populações locais. Em um contexto marcado pela ausência ou insuficiência de registros oficiais, a Geração Cidadã de Dados permite que comunidades ribeirinhas, quilombolas e extrativistas produzam evidências próprias sobre as transformações climáticas e seus efeitos na vida do arquipélago.

Para viabilizar esse processo, o WhatsApp tornou-se a principal infraestrutura digital de suporte operacional da iniciativa. O estudo aponta que o aplicativo desempenha um papel estratégico na Geração Cidadã de Dados promovida pelo Observatório do Marajó, funcionando como um canal de ativismo e apoio comunitário diante da emergência climática. Por meio dele, lideranças enviam relatos, fotografias, vídeos e áudios sobre eventos extremos registrados em seus territórios.

A plataforma conecta os 17 municípios do arquipélago e permite que informações provenientes de áreas remotas cheguem rapidamente à equipe técnica do Observatório. “Os comunitários começaram a trocar mensagens, tipo: ‘Olha, aqui está acontecendo isso; aqui está acontecendo isso’. Então, eles perceberam que essa plataforma era um método muito interessante para reunir esses dados sem precisar se deslocar”, explica a pesquisadora Larissa Noguchi.

Além da agilidade na comunicação, o aplicativo também possibilita a validação coletiva das informações. Os relatos enviados são confirmados por diferentes lideranças e grupos locais, garantindo que os registros correspondam a experiências compartilhadas pelas comunidades, e não apenas a percepções individuais. Essa apropriação crítica da tecnologia fortalece a credibilidade dos dados produzidos e amplia sua capacidade de incidência política.

A construção dessas evidências dialoga com a noção de “maretório”, conceito que articula a dinâmica das marés às práticas tradicionais de uso dos bens costeiros e marinhos no Marajó. O termo surgiu em 2008, a partir da mobilização de Reservas Extrativistas Costeiras e Marinhas do litoral paraense, em um processo que reuniu mulheres líderes comunitárias, pesquisadores e técnicos do ICMBio. Mais do que uma definição territorial, o maretório tornou-se um instrumento político e conceitual utilizado pelas comunidades para reivindicar direitos e proteger seus modos de vida diante de pressões externas.

Nesse sentido, a Geração Cidadã de Dados ultrapassa a dimensão técnica do monitoramento climático. O boletim produzido pelas comunidades desafia as estatísticas oficiais, que frequentemente invisibilizam as perdas sofridas pelas populações periféricas e tradicionais. Ao produzir suas próprias evidências, os moradores do Marajó transformam o documento em um instrumento de ativismo político, fortalecendo a luta por políticas públicas que reconheçam e respeitem suas realidades e modos de existência.