Violência política de gênero não é sobre mim. É sobre a democracia
Ataques contra mulheres na política não ferem apenas mandatos, mas comprometem a diversidade e a democracia.
Há momentos em que uma democracia revela quem ela realmente é. Não apenas quando convoca eleições, mas quando testa sua capacidade de proteger aqueles e aquelas que foram escolhidos pelo voto popular para exercer a representação política. Vivemos um desses momentos.
Durante muito tempo, tentaram convencer as mulheres de que a política não era o nosso lugar. Quando passamos a ocupar esses espaços, mudaram de estratégia. Se antes nos impediam de entrar, agora tentam nos expulsar pelo constrangimento, pela perseguição, pela mentira e pelo medo. É isso que chamamos de violência política de gênero.
Não se trata de um conceito criado para blindar mulheres das críticas. O problema começa quando o debate de ideias é substituído pela tentativa sistemática de deslegitimar mulheres por serem mulheres. Quando a divergência dá lugar à violência. Quando o mandato deixa de ser confrontado por suas posições políticas e passa a ser alvo de campanhas que exploram preconceitos, estereótipos e discursos de ódio.
Esse fenômeno não acontece por acaso. Ele responde a uma lógica histórica de concentração de poder. O patriarcado e o racismo nunca aceitaram passivamente a presença de mulheres — especialmente de nós, mulheres negras — nos espaços de decisão. Cada avanço conquistado pelas mulheres sempre provocou reações daqueles que entendem a política como patrimônio de poucos.
Não surpreende que estudos apontem que cerca de 60% das mulheres que exercem mandatos ou disputam eleições já tenham sofrido algum tipo de violência política de gênero. Tanto que especialistas passaram a tratar essa violência como uma ameaça concreta à democracia. Porque é exatamente disso que se trata.
O cenário se torna ainda mais grave com a velocidade com que essa violência se reorganiza: nas redes sociais, em campanhas coordenadas de desinformação e no uso da inteligência artificial para fabricar conteúdos falsos e de ódio, ampliando a capacidade de destruir reputações e tentar inviabilizar mandatos. A violência política ganhou novos instrumentos, mas preservou sua velha finalidade: produzir silêncio.
Escrevo este artigo porque conheço essa realidade. Sei reconhecer quando uma disputa política ultrapassa os limites da democracia para transformar a violência em método. Sei identificar quando a tentativa de atingir uma mulher pretende, na verdade, intimidar muitas outras. Mas também sei que nenhuma transformação social aconteceu porque as mulheres aceitaram o lugar que lhes foi imposto.
Somos herdeiras de quem enfrentou a escravidão, a ditadura, a fome, o racismo e o machismo sem jamais abandonar a esperança de construir um país mais justo. Nossa presença na política é a continuidade dessa história. Não chegamos até aqui para pedir licença. Chegamos para ampliar a democracia brasileira e fazer dela um espaço onde todas as vozes tenham o direito de existir.
Não podemos aceitar que essas violências sejam tratadas como efeito colateral da disputa eleitoral ou como preço que as mulheres devem pagar por ocupar cargos públicos. Violência não é ferramenta democrática. É sua negação. Defender mulheres na política não significa proteger indivíduos. Significa defender o direito da população de ser representada em toda a sua diversidade.
Significa compreender que atacar uma mulher eleita nunca atinge apenas uma pessoa. Atinge todas aquelas que cogitam disputar uma eleição, todas as meninas que sonham ocupar espaços de liderança e a própria confiança da sociedade nas instituições democráticas.
A democracia brasileira continuará incompleta enquanto houver quem acredite que mulheres podem ser afastadas da política pela força da intimidação. Não nos calaremos.