Hajem Kunk aposta em psicodelia e peso instrumental em “Leite de Pedra”, último single antes do álbum de estreia
Faixa antecipa álbum de estreia do grupo, que conta com dois membros da Papangu
Por Noé Pires
A cena instrumental paraibana ganha mais um capítulo de ousadia e inventividade com o lançamento de “Leite de Pedra”, novo single da Hajem Kunk. A faixa chega como a última prévia do álbum de estreia do quarteto, previsto para o segundo semestre de 2026, consolidando a identidade sonora de um projeto que transita entre o rock progressivo, o jazz fusion, a psicodelia e o peso característico do stoner rock.
Gravado integralmente ao vivo no estúdio Mutuca, em João Pessoa, o disco nasce como um retrato vibrante da efervescente produção musical paraibana. Mais do que uma reunião de músicos experientes, a Hajem Kunk reflete a constante troca de influências que marca a cena local, onde diferentes linguagens artísticas convivem e se transformam mutuamente. Nesse contexto, o grupo também abraça a expressão “rock troncho”, termo popularizado pela conterrânea Papangu e que, nas mãos da Hajem Kunk, ganha novas possibilidades estéticas e sonoras.
Após apresentar os singles “Pipe” e “Mar Morto”, a banda revela agora uma de suas composições mais representativas. “Leite de Pedra” sintetiza a pluralidade que atravessa o álbum de estreia, alternando momentos de intensidade e contemplação, explorando passagens psicodélicas, improvisações expansivas e estruturas rítmicas marcadas por compassos irregulares. O resultado é uma experiência sonora inquieta, dinâmica e imprevisível, que desafia classificações convencionais.
A formação da Hajem Kunk reúne músicos já conhecidos por sua atuação na cena independente nordestina. O grupo conta com Pedro Francisco e George Alexandria, integrantes da Papangu, banda que recentemente passou pelo palco do Lollapalooza Brasil e teve um de seus trabalhos destacados pelo jornal britânico The Guardian. Ao lado deles estão Rafael Jordão, na guitarra, e Lucas Farias, no baixo, completando um quarteto que encontra na liberdade criativa e na experimentação seu principal combustível.
Com o lançamento de “Leite de Pedra”, a Hajem Kunk reforça sua posição como uma das apostas mais interessantes da nova música instrumental brasileira. O single funciona como um convite ao universo particular que a banda vem construindo e antecipa um álbum que promete ampliar ainda mais os limites do chamado rock troncho, reafirmando a força criativa que emerge da Paraíba para dialogar com públicos muito além de suas fronteiras.
A S.O.M. (“Sistema Operacional da Música”), canal de música da Mídia NINJA, conversou com a banda paraibana Hajem Kunk.
S.O.M.: “Leite de Pedra” é apresentada como uma faixa que reúne diferentes elementos presentes no álbum. O que ela representa dentro do universo sonoro que a Hajem Kunk está construindo?
Pedro: É uma composição que surgiu mais tarde dentro do nosso repertório e partiu do nosso baixista (Lucas), que trouxe esse riff inicial maravilhoso, que me lembra um lance meio Gentle Giant, uma grande referência nossa. Eu conheço Lucas desde a infância e a gente já compôs um bocado junto. Tenho um lance de mostrar pra ele umas vinhetas que componho, e ele guarda tudo quietinho. Depois, me mostra uns temas dele que costurou com esses trechos meus, que às vezes eu já até esqueci, mas ele guarda. E disso surge um “Leite de Pedra”.
Lucas: Essa composição veio do mundo das ideias até a minha cabeça durante uma aula da minha formação como engenheiro. Era uma turma de cálculo. Escrevi a cifra no caderno para tocar em casa, juntei com um riff de Pedro e pronto. Coincidiu com um dos momentos mais ativos da banda. Certamente Gentle Giant, King Crimson e Azymuth inspiraram bastante, bem como a levada da bateria em “Lay Down”, da banda Priestess. Mas a vontade de compor mesmo veio da inspiração dos colegas de trabalho, Pedro e Rafael, que vinham com arranjos e ideias alucinantes e contagiantes.
S.O.M.: A banda incorpora influências que vão do rock progressivo ao jazz fusion, passando pela psicodelia e pelo stoner rock. Como essas referências dialogam durante o processo de composição?
Pedro: Acho que o que nos aproximou enquanto banda foi a paixão por riffs pesados, esse foi o estalo inicial. Depois, a gente foi descobrindo outras afinidades, como o jazz. Isso foi contaminando de uma maneira muito positiva o nosso som. A gente nunca deixou de criar o que dava vontade.
Lucas: Acredito que o rock sempre influenciou todos os integrantes da Hajem, especialmente durante a adolescência. Porém, com o tempo e a maturidade, outros gêneros foram encantando cada um de nós e possibilitaram essa mistura sonora tão interessante.
S.O.M.: O álbum foi gravado totalmente ao vivo no estúdio Mutuca. O que motivou essa escolha e de que forma ela contribuiu para a sonoridade final do trabalho?
Rafael: Em 2019, quando gravamos o álbum, estávamos passando por um período menos ativo da banda. Cada um estava tocando em projetos paralelos, mas sentíamos que precisávamos registrar nossas músicas e não deixar o projeto se perder.
A escolha de gravar ao vivo veio, em parte, dessa urgência de não perder o material, mas também fez muito sentido esteticamente, pois a natureza das nossas músicas, a forma como gostamos de tocar e os nossos shows sempre estiveram muito alinhados a esse estilo de gravação. Sempre fizemos muitas demos em gravações feitas por celular, e eu, particularmente, gostava bastante desses registros: um som bem cru e de baixa qualidade, mas que transmitia um sentimento de música feita com vontade. Em 2019, eu estava trabalhando em outro projeto no estúdio Mutuca, e essa proximidade abriu as portas para gravarmos as músicas lá.
S.O.M.: A expressão “rock troncho”, popularizada pela Papangu, também aparece associada à Hajem Kunk. Como vocês interpretam esse conceito e de que maneira ele se manifesta na identidade da banda?
Pedro: Acredito que houve um momento em que estávamos reunidos, tocando juntos, e eu senti uma forte inspiração, uma espécie de chamado de que o que fazíamos era único e que precisávamos levar isso adiante. Me lembro de que Rafael (guitarrista) sentiu algo parecido na hora e me pediu para ligar a interface de áudio, pois iríamos, naquele exato momento, começar a registrar nossos sons. Foi assim que, pelo menos como eu lembro, a coisa começou: espontaneamente, porque queríamos que aquilo ficasse registrado. A gente tinha vontade de se expressar, não só musicalmente, mas artisticamente de forma geral. Fomos criando uma rede de fotógrafos, cineastas, artistas visuais e mobilizando a gravação de live sessions, lá em 2016, quando a banda surgiu.
S.O.M.: A cena paraibana tem se destacado cada vez mais pela diversidade e originalidade de seus artistas. Como a Hajem Kunk enxerga seu papel dentro desse movimento e o que espera alcançar com o lançamento do primeiro álbum?
Rafael: Lembro claramente de ver o show da Augustine Azul pela primeira vez, em meados de 2015, no Pavilhão do Chá, e sentir que algo novo estava surgindo. Era um som instrumental, progressivo, com riffs pesados e características muito setentistas. Então, eu diria que eles foram uma grande inspiração para criarmos uma banda instrumental. Em meio a isso, também existia o estúdio do Capim Santo, localizado na Praça Antenor Navarro. Esse estúdio foi um grande catalisador desse movimento que acontecia por aqui: bandas amigas ensaiando juntas, com propósitos parecidos, muita psicodelia e vontade de fazer um som que traduzia aquilo que a gente gostava de ouvir.
Mas também temos uma grande influência do grupo Jaguaribe Carne, composto pelos irmãos Pedro Osmar e Paulo Ró, um grupo expoente da experimentação artística aqui da nossa cidade. A cena paraibana é muito abrangente, e ficamos honrados em ser mais uma banda que faz parte dessa construção.



