Por Antonio de Aguiar Patriota e José Graziano da Silva

Hoje, 26 de junho de 2026, completam-se quinze anos da eleição do primeiro latino-americano para a Direção-Geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Foi um momento histórico não apenas para o Brasil, mas também para a América Latina e para os países do Sul Global. Pela primeira vez, um brasileiro assumia o comando da principal agência internacional dedicada à agricultura, alimentação e combate à fome.

O contexto internacional da época ajuda a entender a importância daquele momento. O mundo ainda vivia os impactos da grande crise internacional de preços dos alimentos de 2007-2008, quando arroz, trigo e milho dispararam no mercado internacional, provocando instabilidade política e social em dezenas de países. Em várias regiões, sobretudo no Oriente Médio e no Norte da África, a combinação explosiva entre desemprego, desigualdade e inflação dos alimentos ajudou a provocar revoltas populares que culminariam na chamada Primavera Árabe. Naquele momento, tornou-se evidente que a fome não era apenas uma questão humanitária: era também fundamental para a estabilidade política, para a segurança internacional e para a paz.

A eleição ocorreu justamente no momento em que o Brasil se credenciava não apenas por sua diplomacia, mas também pela experiência concreta do Programa Fome Zero, que havia recolocado o combate à fome no centro das políticas públicas nacionais. E, acima de tudo, demonstrado ao mundo que era possível reduzir rapidamente a insegurança alimentar por meio de políticas integradas, proteção social, apoio à agricultura familiar e participação social. 

Em resumo, a candidatura brasileira não foi apresentada apenas como mais uma disputa por um cargo internacional. Ela foi construída como uma proposta política: colocar o combate à fome no topo das prioridades multilaterais.

Essa eleição representou mais do que uma conquista diplomática, ela simbolizou a entrada definitiva do tema da segurança alimentar na agenda multilateral contemporânea. O sistema internacional começava a discutir a transição dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) para os futuros Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) em 2015. O debate internacional já apontava que seria impossível falar em desenvolvimento sustentável sem enfrentar simultaneamente pobreza, fome, desigualdade, clima e degradação ambiental, além de crescimento econômico.

Naquele cenário, a FAO precisava deixar de ser vista como uma organização que promovia apenas o desenvolvimento da produção agrícola com base nas inovações da Revolução Verde. Era necessário reposicionar o tema da alimentação tendo como prioridade o combate a fome como eixo estruturante da agenda global.

Os quinze anos que se seguiram confirmaram essa visão.

Durante duas gestões (2012-2019), a FAO reforçou o tema da segurança alimentar e passou a se preocupar com o impacto dos conflitos sobre a fome. Não por acaso, a partir de 2017, os relatórios globais da organização passaram a mostrar claramente que os conflitos armados se haviam tornado uma das principais causas do aumento da fome no mundo. Países devastados por guerras – como Iêmen, Sudão, Sudão do Sul, Síria e regiões do Sahel africano – passaram a concentrar a parte mais significativa da insegurança alimentar aguda em nível global.

 Foi nesse período que a FAO desenvolveu uma política corporativa específica sobre paz e segurança alimentar, articulando agricultura, proteção de meios de vida e prevenção de conflitos. A mensagem central era simples, mas poderosa: a guerra priva populações inteiras do direito básico à alimentação. 

Ao mesmo tempo, ao longo daqueles anos, a organização ajudou a consolidar internacionalmente a ideia de que proteger sistemas alimentares também significa promover a paz. Isso se refletiu em iniciativas conjuntas com o Programa Mundial de Alimentos (PMA), o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), a União Europeia e diversos países membros.

 Essa conexão entre diplomacia, desenvolvimento sustentável, paz e dignidade humana aparece hoje de forma particularmente clara em duas obras que dialogam entre si de maneira profunda.

 O livro From Fome Zero to Zero Hunger: A Global Perspective, lançado em 2019, Graziano mostra como a luta contra a fome deixou de ser apenas uma política doméstica brasileira para se transformar em referência internacional de construção de direitos, inclusão social e cooperação entre países do Sul Global. 

Já no recente livro A Humanist Foreign Policy for a Multipolar World (2025), Patriota defende uma ordem internacional baseada no multilateralismo cooperativo, no respeito ao direito internacional, na democratização da governança global e na centralidade do desenvolvimento sustentável e da paz como valores políticos e civilizatórios. 

As duas obras convergem em um ponto essencial: não haverá estabilidade internacional duradoura em um mundo marcado pela exclusão alimentar, pela desigualdade extrema e pela destruição de sistemas de proteção social. Patriota insiste que a multipolaridade representará uma oportunidade para uma cooperação internacional mais positiva se estiver associada ao humanismo e à redução das assimetrias globais. 

Graziano, por sua vez, demonstra que a fome não decorre da falta de alimentos, mas da ausência de vontade política e de mecanismos de inclusão capazes de garantir acesso digno à alimentação. Em conjunto, ambos ajudam a consolidar uma visão brasileira singular: a de que segurança alimentar, desenvolvimento sustentável e paz fazem parte da mesma arquitetura política internacional.

 Hoje, quinze anos depois, o mundo vive novamente uma situação alarmante. A fome voltou a crescer em várias regiões. Conflitos armados se multiplicam. Corredores humanitários são bloqueados. Sistemas agrícolas são destruídos deliberadamente. Infraestruturas alimentares tornam-se alvos militares. Em alguns casos, a própria privação alimentar converte-se em instrumento de guerra. Esse talvez seja um dos mais graves fracassos morais do nosso tempo. 

Ao mesmo tempo, chama atenção a enorme assimetria entre os recursos mobilizados para a guerra e aqueles destinados ao combate à fome. Dados recentes mostram que apenas os gastos militares dos Estados Unidos nos primeiros meses do conflito no Oriente Médio em 2026 ultrapassaram mais de uma centena de bilhões de dólares, valor equivale ao dobro das intervenções globais de apoio ao combate a fome no mundo.

 Em outras palavras: o mundo continua encontrando recursos praticamente ilimitados para financiar guerras, mas segue alegando falta de dinheiro para garantir comida, agricultura resiliente e dietas saudáveis para bilhões de pessoas. Essa contradição precisa ser denunciada com clareza. Trata-se de uma escolha política na contramão do progresso civilizatório. 

Os próximos anos serão decisivos. Em 2030, encerra-se oficialmente o prazo da Agenda dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. E tudo indica que o mundo chegará a essa data sem cumprir o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 2: erradicar a fome e todas as formas de má nutrição. 

Isso exige mais do que as lamentações dos discursos. Exige reconstruir a centralidade política da segurança alimentar na governança internacional. Também exige atualizar a agenda 2030. Na presidência do G20 em 2024, o Brasil logrou lançar a Aliança Global Contra a Fome e a Pobreza. Trata-se de uma resposta aos desafios que precisamos enfrentar com coragem política.

Hoje, combater a fome significa criar sistemas alimentares saudáveis, enfrentar as mudanças climáticas com programas de proteção social antecipada, produção sustentável, conter a epidemia da obesidade, fortalecendo a agricultura familiar e promovendo a redução das desigualdades territoriais. Significa reconhecer que alimentação saudável não pode ser privilégio de poucos. E significa compreender que segurança alimentar não é apenas quantidade de calorias, mas também dignidade, estabilidade social e soberania.

O legado daqueles quinze anos permanece atual por haver antecipado boa parte desse debate. Ao levar a experiência brasileira para a FAO, o Brasil mostrou que a fome não é inevitável. Demonstrou que a segurança alimentar precisa ser tratada como prioridade estratégica dos Estados e do sistema multilateral. 

Mas talvez a principal lição continua sendo ainda mais abrangente: o combate à fome pode se associar à promoção da paz. Cultiva-se a paz quando agricultores conseguem permanecer em suas terras; quando crianças têm acesso à alimentação escolar; quando famílias conseguem produzir e consumir alimentos saudáveis; quando populações vulneráveis são protegidas antes que desastres climáticos ou conflitos destruam seus meios de vida. 

A promoção da segurança alimentar representa um contraponto a guerras evitáveis e prolongadas, corridas armamentistas e unilateralismo militar. A fome jamais poderá ser admitida como arma de guerra. A paz se constrói também pelo combate à fome.