Por Júlia Neves

O que começou como uma inquietação pessoal durante a pandemia tornou-se um movimento de transformação social. Impactada pela realidade da pobreza menstrual exposta em um documentário, aos 16 anos, Luanna Escamilla criou o projeto Fluxo Sem Tabu.

A obra cinematográfica que provocou essa virada de chave em Luanna foi Absorvendo o Tabu. A partir dela, a jovem percebeu que tratava a menstruação como um segredo — assim como muitas outras mulheres. Isso a incentivou a pesquisar sobre o tema e o que encontrou foi inevitável: a pobreza menstrual era uma questão silenciada.

Foi assim que a iniciativa começou. Com o apoio de três instituições parceiras que decidiram se somar ao projeto, Luanna distribuiu absorventes para 700 pessoas na cidade de São Paulo. No ano seguinte, a ação já havia impactado mais de 14 mil pessoas em Minas Gerais, Amazonas, Santa Catarina, Rio Grande do Norte, Rio de Janeiro, Pernambuco e Acre.

Se o objetivo inicial do Fluxo Sem Tabu era o combate direto ao estigma por meio da distribuição de absorventes, com o passar dos anos ele se transformou em algo muito maior.

Partindo da realidade de que mais de 700 mil meninas não têm acesso a um banheiro em casa, o projeto criou o Banheiro Fluxo, uma iniciativa que transforma banheiros em espaços mais acolhedores, seguros e higiênicos para meninas e mulheres.

Meninas integrantes de um time de futebol recebendo itens do Fluxo Sem Tabu

Além disso, em 2022, o projeto criou a iniciativa Fluxo Educativo, com o objetivo de disponibilizar materiais educativos voltados ao conhecimento sobre menstruação, saúde e autocuidado. Os materiais pedagógicos incluem cartilhas, jogos e recursos interativos que facilitam conversas sobre o corpo e ampliam o acesso à informação de qualidade. Para um conteúdo mais especializado, o projeto conta com a colaboração de ginecologistas, psicólogas, pedagogas e pediatras na produção.

Uma das iniciativas mais inovadoras é a Máquina Fluxo, um aparelho que funciona como uma máquina de salgadinhos, mas voltada à distribuição de absorventes.

A máquina é abastecida mensalmente com 800 absorventes, destinados às mulheres e pessoas que menstruam cadastradas no programa. A ação acontece no Pavilhão do G10 Favelas e, até o momento, o projeto piloto já atendeu 400 beneficiadas.

A viabilidade do Fluxo Sem Tabu é garantida por meio de um sistema de gestão colaborativo. Para assegurar o funcionamento das ações, o projeto conta com um sistema de doações mensais e parcerias com empresas e instituições.

Distribuição de absorventes e outros itens de higiene promovidos pela ONG

Hoje, aos 21 anos, Luanna Escamilla lidera o Fluxo Sem Tabu como diretora e presidente do conselho diretor. A relevância de sua iniciativa ultrapassou fronteiras e, no ano passado, ela foi uma das cinco embaixadoras brasileiras selecionadas para palestrar na Universidade de Harvard.

Luanna Escamilla quando esteve em Harvard

Luanna conseguiu projetar seu trabalho no cenário global, consolidando o projeto como uma referência internacional na defesa da dignidade menstrual.