Por Victor Soares – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

Meio-campista da seleção da Colômbia, Jorge Carrascal venceu a desigualdade social e, hoje, representa seu país e leva sua história de superação à Copa do Mundo, o maior palco do futebol.

Nascido em Cartagena das Índias, cidade localizada na costa caribenha colombiana, Carrascal cresceu no bairro de Escallón Villa, periferia da cidade e considerado o mais violento da Colômbia, marcado por tráfico de drogas, violência e repressão policial.

Seus primeiros passos no esporte não foram no futebol, mas no beisebol, modalidade popular na Colômbia. Aos seis anos, treinava no “Campo de Las Gaviotas” e declarava sua torcida pelo New York Yankees, time da liga norte-americana, do qual seu pai, Jorge Luis, era admirador.

Durante a juventude, Carrascal conviveu com a violência diária. Ele presenciou os assassinatos e homicídios de amigos de infância nas ruas de seu bairro, gerando um trauma que o marcou ao longo da vida.

No futebol, o jovem encontrou a oportunidade de mudança. Apoiado por seu tio, Jorge começou a treinar na escolinha Heroicos FC e, durante um jogo, ele foi descoberto pelos olheiros do Millonarios de Bogotá, clube que o contratou.

Ao se tornar rapidamente um destaque, começaram a aparecer os problemas de indisciplina, marcados por faltas em treinamentos e atrasos. O técnico do sub-20 do time, na época, testemunhou os problemas de relacionamento de Carrascal, relatando ser confrontado ao chamar a atenção do jogador até quase sofrer uma agressão.

Segundo um funcionário do clube, ao ser questionado sobre os problemas ocasionados, Carrascal desabafou: “Faltar nos treinos não significa absolutamente nada, porque minha infância não existiu. E eu não tenho vontade de viver. Todos os meus amigos estão mortos ou encarcerados. Não há como, não há razão de eu construir felicidade neste mundo.”

Apoiado por sua família, o jogador superou aquele período e, em maio de 2016, foi contratado pelo Sevilla Atlético, que disputava a terceira divisão da Espanha. No entanto, na sua estreia pela nova equipe, o meia sofreu uma grave lesão no joelho, perdendo toda a temporada.

Recuperado, em julho do ano seguinte, ele foi emprestado ao Karpaty Lviv, da Ucrânia, chegando ao clube como uma grande promessa. Contudo, a realidade enfrentada pelo colombiano foi outra. De acordo com amigos próximos, Carrascal se sentia isolado e entrou em depressão.

A passagem pelo time ucraniano foi breve. Marcelo Gallardo, treinador do River Plate na época, ao ter conhecimento da sua situação, pediu a contratação de Carrascal com o propósito de ajudá-lo no direcionamento da sua carreira, trazendo o jovem de volta à América do Sul.

Os problemas de indisciplina reapareceram, possivelmente ocasionados pelos seus traumas de infância, mas Carrascal conseguiu virar o jogo e transformou o futebol em uma ferramenta de mudança.

Pelo River Plate, foi campeão da Recopa Sul-Americana, em 2019, após vencer o Athletico Paranaense por 3 a 1 no placar agregado, e ainda conquistou o Campeonato Argentino, a Copa Argentina, o Troféu de Campeões e a Supercopa Argentina. A passagem brilhante no futebol argentino despertou o interesse do CSKA Moscou, que o contratou em fevereiro de 2022. No novo time, foi campeão da Copa da Rússia de 2023 e, pouco tempo depois, foi transferido para o Dínamo de Moscou.

Após o longo período no futebol russo, em agosto de 2025, Jorge Carrascal foi anunciado pelo Flamengo, onde atua até o momento. Pelo clube Rubro-Negro, foi campeão Carioca, Brasileiro e da Copa Libertadores.

Pela seleção da Colômbia, sua primeira convocação foi na Data Fifa de 2022. Na estreia pela equipe nacional, o meio-campista foi responsável por distribuir uma assistência na vitória contra a Guatemala, e seu primeiro gol foi no empate contra a Coreia do Sul. Desde então, tem sido presença constante nas convocações, conquistando uma vaga entre os escolhidos para representar o país na Copa do Mundo de 2026.

A trajetória de Carrascal, apesar de marcada por traumas gerados pela violência urbana, é um exemplo de que é possível vencer na vida diante de um cenário de vulnerabilidade social.