Por Jhessyka L. P. Fernandes

A ascensão das plataformas internacionais de streaming transformou radicalmente a maneira como o público consome cultura e entretenimento. Se, por um lado, o acesso a um catálogo global de produções tornou-se instantâneo, por outro, essa facilidade cobra um preço alto da diversidade cultural local. No Brasil, o avanço predatório dessas gigantes estrangeiras tem sufocado a divulgação do cinema nacional, gerando um efeito dominó que enfraquece toda a cadeia produtiva do audiovisual do país. O cerne desse problema reside na engenharia das próprias plataformas: engrenagens invisíveis operadas por algoritmos projetados exclusivamente para maximizar o tempo de tela e a viralidade global.

Esses algoritmos, que ditam o que aparece na tela inicial de milhões de usuários, não são programados para considerar a qualidade artística, a relevância social ou a identidade de quem assiste. Em vez disso, operam sob uma lógica de padronização estética e temática, na qual produções norte-americanas, munidas de orçamentos de marketing colossais e fórmulas narrativas exaustivamente testadas, recebem um impulsionamento artificial e constante. Séries e filmes de Hollywood tornam-se fenômenos virais inevitáveis porque a máquina algorítmica decide que devem ser vistos, empurrando as produções brasileiras para as profundezas mais inacessíveis dos catálogos. E é aquilo: enquanto as pessoas mal clicam para ler matérias e reportagens inteiras, confiando apenas nas manchetes, quantas vão até a barra de busca dos aplicativos de streaming nas TVs e realmente digitam o nome de uma obra?

O resultado prático dessa assimetria foi escancarado pelo estudo Panorama VoD (Video on Demand, ou vídeo sob demanda), da Agência Nacional do Cinema (Ancine). Os dados revelam que as plataformas estrangeiras de maior alcance no Brasil reservam um espaço irrisório para a produção nacional: excluindo os serviços nativos, o índice de obras brasileiras cai para apenas 2,7% nos catálogos das gigantes internacionais, sendo míseros 2,2% de produções independentes. Esse afunilamento cria uma barreira de invisibilidade quase intransponível. Mesmo quando o espectador deseja consumir conteúdo local, precisa navegar ativamente contra a correnteza de uma interface que o bombardeia, sem cessar, com o mais recente blockbuster estadunidense.

Reprodução da obra/As Boas Maneiras  (2018)

Essa lógica mercantilista e pasteurizada ignora a real demanda e os gostos do público brasileiro. Pesquisas de mercado recentes, como a conduzida pela Casa Mundo Market Intelligence em parceria com a Globo Gente, demonstram que existe uma conexão genuína e um profundo desejo de identificação do espectador com as histórias brasileiras. O público busca se reconhecer nos personagens, nos sotaques, nas paisagens e nas complexidades sociais do país. No entanto, o ecossistema digital das grandes plataformas atua como um filtro censor que silencia essa conexão cultural em nome de uma métrica de engajamento pasteurizada e pseudoglobalizada, já que, nesse sentido, não chegamos realmente a consumir conteúdo de todo o planeta, não é?

Ao condicionar o sucesso de uma obra à sua capacidade de viralizar rapidamente em escala global, os algoritmos promovem o que críticos chamam de “preguiça cultural”. O usuário é transformado em um consumidor passivo, alimentado por um fluxo contínuo de conteúdos hiperestimulantes e repetitivos. Esse comportamento atrofia o hábito da descoberta e cria uma falsa percepção de que o cinema brasileiro resume-se a estereótipos limitados, como a “comédia pastelão” ou o drama focado exclusivamente na violência. Gêneros ricos e plurais da nossa cinematografia, como o documentário, o suspense e o cinema de autor, acabam completamente sepultados pelo desconhecimento.

A falta de divulgação e o soterramento algorítmico refletem-se diretamente no estrangulamento financeiro do setor. O cinema brasileiro vive um paradoxo histórico: acumula recordes de investimentos públicos na produção e coleciona prêmios internacionais nos festivais mais prestigiados do mundo, mas encontra as portas fechadas dentro de sua própria casa. Sem o impulsionamento digital adequado nas janelas de exibição modernas e enfrentando uma concorrência desleal nas salas físicas, amplamente dominadas por redes de distribuição estrangeiras, mais da metade das mais de 200 produções nacionais lançadas anualmente sequer atinge a marca de mil espectadores.

Reprodução da obra/Inferninho (2018)

Essa invisibilidade digital compromete gravemente a sustentabilidade econômica de toda a cadeia audiovisual do país. Quando um filme independente brasileiro não circula entre as plataformas e fica restrito a apenas um ou dois serviços de nicho, o retorno financeiro para produtores, diretores, técnicos e distribuidores torna-se severamente limitado. O mercado audiovisual não se sustenta apenas no momento do “action” no set de filmagem; ele depende, de forma vital, do ciclo completo de exibição e comercialização para retroalimentar a economia criativa, gerar empregos e financiar novas produções.

A soberania cultural do Brasil é colocada em xeque quando a memória cinematográfica do país deixa de transitar para o ambiente digital. O levantamento da Ancine apontou que pouco mais de 50% dos filmes brasileiros lançados nas últimas três décadas estão disponíveis em sistemas de vídeo sob demanda. Entre os conteúdos produzidos e exibidos na TV por assinatura nos últimos dez anos, apenas 27,5% conseguiram migrar para o streaming. Essa lacuna histórica de preservação e difusão digital significa que estamos permitindo que o patrimônio audiovisual brasileiro seja gradualmente apagado da memória coletiva das novas gerações.

Atualmente, a responsabilidade de manter vivo o acervo cultural brasileiro na internet recai quase inteiramente sobre as plataformas nacionais. Prova disso é que os serviços locais oferecem um volume absoluto de obras brasileiras superior ao das corporações globais, mesmo operando com orçamentos e catálogos gerais que possuem menos da metade do tamanho das rivais estrangeiras. Essas plataformas brasileiras competem em condições de extrema desigualdade de escala, sem os mesmos recursos para desenvolvimento tecnológico, mineração de dados e campanhas massivas de comunicação.

Reprodução da obra/Meu Corpo é Político (2018)

Para além do prejuízo econômico e da invisibilidade mercadológica, há uma dimensão subjetiva devastadora: o reforço do histórico complexo de vira-lata que permeia a sociedade brasileira. Quando as grandes plataformas chancelam implicitamente que o audiovisual estadunidense é o padrão universal de qualidade, o preconceito cultural interno acaba sendo estimulado. Trata-se de uma herança colonialista que se renova através das telas, ensinando o cidadão a depreciar suas próprias histórias e a idolatrar o produto importado.

A urgência de reverter esse cenário passa, obrigatoriamente, pela criação e consolidação de um marco regulatório robusto para as ferramentas de vídeo sob demanda no Brasil. O Ministério da Cultura e a Ancine têm defendido a necessidade urgente de uma legislação que estabeleça cotas de tela obrigatórias para produções nacionais nos catálogos estrangeiros, além de exigir mecanismos de destaque visual nas interfaces dessas plataformas. Regular o streaming não é um ato de censura ou de protecionismo infundado, mas sim uma medida estratégica de sobrevivência de mercado e de afirmação da nossa soberania nacional.

Enquanto isso, plataformas estatais ou independentes do audiovisual brasileiro — como Nhandeflix, Libreflix e Tela Brasil — representam um respiro para quem busca conhecer a produção de uma nação continental, com inúmeros idiomas, sotaques, dialetos, cores e expressões culturais. O cinema de um país é o espelho de sua alma, o guardião de sua identidade e uma das ferramentas mais avassaladoras de emancipação social. Permitir que o ecossistema audiovisual brasileiro seja sufocado por algoritmos estrangeiros focados na viralidade rápida de séries estadunidenses é abrir mão do direito de narrar as nossas próprias complexidades e potências.

Reprodução da obra/Noites Alienígenas (2022)

Corrigir as assimetrias impostas pelo monopólio tecnológico internacional é um dever urgente para que as histórias brasileiras possam, finalmente, furar a bolha da invisibilidade e reencontrar o seu público de direito. É por meio de uma escolha cotidiana — o que consumir, onde consumir, o que apoiar, em quem votar — que se constrói o reconhecimento e a verdadeira valorização, maiores do que quaisquer prêmios estrangeiros: o de quem chega do trabalho cansado e prefere ver um filme feito por quem nos conhece, para quem nos quer conhecer.

E você, o que vai assistir neste fim de semana?