O que é o tecnofascismo, o guru que o MBL trouxe ao Brasil, a Palantir dentro do nosso MEC, e por que o Pix prova que existe outro caminho.

Na coluna anterior, a gente viu quem é a Palantir: a empresa de vigilância que tem o nome da bola de cristal de O Senhor dos Anéis.

Ela foi criada com dinheiro da CIA pelo bilionário de extrema direita Peter Thiel, e hoje está enfiada na máquina de guerra e de deportação dos EUA.

Pra completar, lançou um manifesto que o mundo todo classificou como tecnofascista.


Elon Musk – commons.wikimedia.org

Navegue entre os temas abordados:

O que é tecnofascismo?

A fé tech no Anticristo

Iluminismo Sombrio

A pseudociencia fascista

O encontro com MBL

O clube secreto fundado por Thiel que se prepara para a 3ª Guerra

Palantir no Brasil

Cavalo de tróia, a Amazon

Os EUA barraram estrangeiros (e até brasileiros) de acessar uma das IAs mais avançadas do mundo

O caminho oposto existe, e tem nome: soberania. 

Então o que é “tecnofascismo”?

“Tecnofascismo” é a junção de duas coisas: as ferramentas da tecnologia (vigilância de dados, IA, algoritmos) a serviço de um projeto autoritário; aquele que despreza a democracia, concentra poder em poucos e divide o mundo entre “superiores” e “inferiores”.

Em vez de o fascismo clássico das botas e bandeiras, é o fascismo de moletom e crachá, que governa por tela e base de dados.

Vale destrinchar o manifesto da Palantir e assistir ao vídeo do educador @nietzsche4speed (o professor de filosofia “Judz”), que analisou lindamente os 22 pontos no Instagram e mostrou como eles formam um projeto político coerente.¹

Além do que já vimos, o texto prega: a morte da política tradicional, trocada pela gestão tecnocrática; o desprezo pelos servidores de carreira somado à blindagem do “líder” (proteger Trump das críticas); a instrumentalização da religião como ferramenta de poder; e a ideia de que fiscalizar figuras públicas é “distração”.

Como resume o pensador bielorrusso Evgeny Morozov, os bilionários da tecnologia já não especulam sobre o futuro: eles o determinam, em tweets, livros e manifestos.1

Não por acaso, a antropóloga Letícia Cesarino (UFSC) leu o documento como uma típica espiral de radicalização: a recusa de qualquer contraponto ou responsabilização, tudo delegado às máquinas e aos “adversários”.2 

E o filósofo Mark Coeckelbergh, da Universidade de Viena, foi quem batizou o texto de “tecnofascismo”: 

Uma coisa é um partido apresentar um projeto político; outra, bem diferente, é uma empresa de vigilância do Estado fazer o mesmo.3

O que o manifesto da Palantir defende Resumo dos 22 pontos, organizados por tema

Tecnologia & guerra Diz que o Vale do Silício “deve” aos EUA e precisa parar de fazer “appzinho e e-mail grátis” para começar a fabricar armas. No século deles, quem manda é quem domina o software.
Política & democracia Quer trocar a política de verdade por uma gestão de tecnocratas: o país administrado como empresa, e os servidores públicos de carreira jogados fora.
O “líder” Defende proteger o líder de críticas. Cobrar e fiscalizar quem está no poder seria só “distração”.
Cultura & hierarquia Afirma que “algumas culturas são disfuncionais e regressivas” e pede o fim da desmilitarização de Alemanha e Japão (só faltou citar a Itália pra completar o trio do Eixo; as lembranças da Segunda Guerra não são as melhores). Também ataca o “pluralismo vazio”, ou seja, a diversidade.
Religião Usa a religião como ferramenta para unir seguidores e reforçar o próprio poder.
Síntese a partir das análises de Revista Fórum, CartaCapital, IHU/Unisinos e do educador @nietzsche4speed. As aspas reproduzem expressões do próprio documento.

Tecnologia a serviço do autoritarismo

No Brasil, quem melhor o define é o sociólogo Sérgio Amadeu (UFABC), referência em colonialismo digital. Para ele, a Palantir é uma das expressões mais claras do tecnofascismo: a fusão entre big techs, IA, militarização, supremacismo político e os interesses geopolíticos dos EUA.4 

É tecnologia a serviço de um projeto autoritário, com uma camada ideológica em que parte do Vale do Silício flerta abertamente com o chamado “Iluminismo Sombrio”, a ideia de que a democracia é um estorvo para o progresso.

A fé tech no Anticristo

Em março de 2026, Peter Thiel (o fundador da Palantir) deu, “à porta do Vaticano”, em Roma, uma série de palestras privadas sobre o Anticristo e o fim dos tempos, com missa em latim e jantar só para convidados.

Os encontros eram tão fechados que celulares, gravações e anotações foram proibidos, e as universidades católicas envolvidas se distanciaram da polêmica.5

Creative Commons – Peter Thiel

Segundo a imprensa, Thiel argumenta que o verdadeiro “Anticristo” de hoje seria quem usa o medo do apocalipse (os riscos da IA, das armas, do clima) para impor uma “governança global” que freia o avanço da tecnologia.7

Na teologia dele, querer regular as big techs é coisa do Anticristo. Ele já havia chamado de “diabo” a regulação tecnológica, e até a ativista Greta Thunberg.7

É a prova de como esse projeto se enxerga: não como um negócio, mas como uma missão quase religiosa, em que os donos da tecnologia são os salvadores da humanidade, e qualquer freio (a lei, a democracia, a soberania dos países) vira o mal absoluto.

Iluminismo Sombrio

Curtis Yarvin (1973), um programador e blogueiro de São Francisco, sem cargo público nem formação em política, por anos escreveu de forma anônima, como Mencius Moldbug, defendendo ideias de extrema direita, e ficou próximo de Peter Thiel, que investiu numa empresa de tecnologia dele.

O ‘Iluminismo Sombrio’ é a filosofia antidemocrática e anti-igualitária que ele formulou em meados dos anos 2000.

Ela prega a substituição da democracia por um modelo tecnocrático e corporativo: que uma empresa privada administre o Estado, e que o governo seja guiado por algoritmos e inteligência artificial, no lugar do voto.

É uma ideologia que, de forma mais ou menos explícita, boa parte dos bilionários do Vale do Silício defende.

A pseudociencia fascista

Yarvin flerta com a ideia pseudocientífica, bem fascista por sinal,  de que nem todos os grupos raciais seriam “igualmente inteligentes”, e chegou a dizer que um “país africano” não teria gente capaz o suficiente para fazer eleições.6 É a velha hierarquia entre “povos superiores e inferiores”, reembalada em tecnologia.

Eles chamam de “tecnomonarquismo”; críticos chamam pelo nome certo: tecnofascismo, ou, sem rodeios, nazismo digital.

“A tese principal [de Yarvin] é que todos os políticos e servidores públicos devem ser substituídos por uma inteligência artificial de uma big tech. O que eles não contam é que essa IA não vai ser neutra. Essa IA não vai ser tecnicamente superior.

Essa IA não vai tirar a subjetividade humana e colocar uma objetividade técnica. Essa inteligência artificial é controlada por meia dúzia de donos de big tech e, obviamente, por esse mesmo Vale do Silício que fez nascer a Palantir.”

Diz pesquisador e cientista de dados Ergon Cugler (mestre pela FGV, autor de IA-Cracia: Como enfrentar a ditadura das Big Techs e conselheiro da Presidência da República), em entrevista à TV GGN ao jornalista Ícaro Brum, resume o perigo de fundo:7

Curtis Yarvin, o pai do Iluminismo sombrio creativecommons.org

Steve Bannon faz gesto nazista durante discurso na Conferência de Ação Política Conservadora (Cpac) em Maryland, nos EUA – Reprodução/American Conservative Union – 20.fev.25/via Reuters

O encontro com MBL

Yarvin esteve no Brasil, e não de passagem. Em novembro de 2025, foi ao congresso nacional do MBL (Movimento Brasil Livre), que reuniu cerca de cinco mil pessoas no Parque da Mooca, em São Paulo, e serviu de palco para o lançamento do partido Missão.8 

A presença de Yarvin foi o destaque da festa, realizada sob o lema de uma “missão geracional e civilizacional”.⁸ 

Na prática, o evento celebrou um pensador que defende trocar a democracia por um “rei-CEO”, e é associado a ideias hierárquicas e anti igualitárias, justamente quando a organização se transforma em partido e passa a disputar eleições.

No evento, ele ainda disse que os brasileiros deveriam abandonar pautas como a luta por igualdade racial e reparação: nada de cotas, nada de combate ao racismo.9 

O guru que defende o fim da democracia veio ensinar, aqui, a desmontar as políticas que tentam reduzir nossas desigualdades. O projeto tecnofascista não é só importado: tem quem queira plantá-lo no Brasil.


A vereadora paulista Amanda Vettorazzo, do MBL e eleita pelo União Brasil, ao lado de Curtis Yarvin/reprodução x

O clube secreto fundado por Thiel que se prepara para a 3ª Guerra

Um vazamento revelado pela revista Wired, em junho de 2026, expôs a Dialog, uma sociedade secreta, só para convidados, que Thiel fundou em 2006.¹⁹

Que vai ou iria acontecer em agosto, perto de Dublin, na Irlanda.

São retiros anuais a portas fechadas, em hotéis de luxo, onde se reúnem bilionários, CEOs, senadores e gente do alto escalão dos EUA.

Os títulos dos painéis são bem reveladores: “Navegando a Terceira Guerra Mundial”, “Tragam de volta o nuclear”, “Desinformação e deep fakes”, “Como criar uma seita” e, sem o menor pudor, “É divertido estar no comando”.²⁰

Para essa turma, a 3ª Guerra não é hipótese, é cenário a se planejar.

Jeffrey Epstein apareceu na lista de convidados de um retiro de 2014, embora não esteja claro se ele chegou a comparecer.¹⁹

Palantir no Brasil

A Palantir já está aqui.A denúncia é do próprio Sérgio Amadeu: desde março de 2024, a empresa faz a gestão e a análise de dados do Pnate, o Programa Nacional de Apoio ao Transporte Escolar, do FNDE (do MEC).10 

Dados do transporte escolar de estudantes do país inteiro passaram a ser processados pelos softwares dela, o Foundry e a plataforma de IA AIP.10 

O Relatório de Gestão do FNDE que confirmava isso, do 1º semestre de 2025, sumiu do ar da página do Fundo.10

Cavalo de tróia, a Amazon

E como ela entrou, sem licitação?

O Serpro (a estatal criada justamente para garantir nossa autonomia digital) contratou a nuvem da Amazon (AWS); e, dentro do AWS Marketplace, a Palantir entrou como uma camada a mais.11 

Esse atalho permite que órgãos públicos contratem a empresa sem licitação e sem aprovação prévia, como se contratassem a própria estatal brasileira.12 

O gerente de Cloud do Serpro admitiu o arranjo num evento, dizendo que a estatal seria “um grande viabilizador” para o FNDE acessar AWS e Palantir.13 

Não à toa, quando o Intercept procurou contratos diretos da Palantir no governo, não achou nenhum: ela não entra pela porta da frente.11

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Os órgãos minimizam

O FNDE respondeu que usa o Foundry só para “integrar dados públicos”, com funcionários do próprio Fundo, e que não envolve dados sensíveis; o Serpro afirma que não há parceria com a Palantir.14 

Fica a disputa, mas a pergunta de Amadeu segue de pé: não havia alternativa? Só o Foundry serviria? Por que sem concorrência?14

A estatal criada para reduzir nossa dependência virou a porta de entrada dela.13 E não para na educação, Amadeu aponta que a empresa também entrou na saúde, tendo chegado ao país via doações de software a São Paulo na pandemia.4 

Dados de brasileiros passam a ser processados por uma empresa submetida a leis estrangeiras, como o Cloud Act americano.15 Como diz Amadeu, soberania digital não é só onde o servidor está, é quem controla a chave do cofre.15

A Suíça, aliás, auditou e concluiu que o produto da Palantir era estruturalmente incompatível com a sua soberania.13

E ainda há buracos a fechar, que um bom jornalismo (ou um pedido via Lei de Acesso à Informação) precisa iluminar: quanto custa a camada Palantir, qual a base legal que dispensou a licitação, até quando vai o vínculo, e que outros órgãos entraram pela mesma porta, e por que o relatório de 2025 saiu do ar.10 

O caso já chegou ao Congresso: em fevereiro de 2026, o deputado Rui Falcão protocolou um Requerimento de Informação sobre a atuação do Serpro.16

Os EUA barraram estrangeiros (e até brasileiros) de acessar uma das IAs mais avançadas do mundo

incluindo os próprios funcionários estrangeiros que ajudaram a construí-la

Quem controla a tecnologia de ponta controla quem pode usá-la, e quando, mais um motivo para o Brasil pensar a própria soberania digital.

A virada que a gente já sabe fazer

E aqui fecha o ciclo com uma boa notícia, a mesma do Pix. 

O próprio Amadeu lembra: o Pix provou que o Brasil consegue construir tecnologia pública, soberana e que funciona, tanto que atrapalhou o sonho das big techs de dominar nossos pagamentos.4 

Se a gente conseguiu com o Pix, consegue com o resto. A sociedade civil já se move: o 2º Encontro Nacional pela Soberania Digital propôs o rompimento do contrato do FNDE com a Palantir e a criação de data centers públicos federados.16

Pra que serve a IA, afinal? Ou deveria?

Ela poderia servir ao povo, reduzir burocracia, encurtar a jornada de trabalho, democratizar educação e saúde, melhorar a vida de todo mundo. Mas, se vem pra demitir gente e concentrar poder nas mãos de meia dúzia de “iluminados das trevas” donos de big tech, não está trabalhando pra gente, está trabalhando contra. 

Tecnologia que toma o lugar do povo e do Estado não é futuro:

É roteiro de Black Mirror. No fim, a pergunta é simples: toda tecnologia deveria ter uma função que não fosse só aumentar o lucro de alguém. Se não melhora a nossa qualidade de vida, otimiza nosso tempo, pra que serve?

O caminho oposto existe, e tem nome: soberania. 

Uma IA brasileira, pública, soberana; capacitar nossos jovens e estudantes pra produzir tecnologia em vez de só consumir a dos outros. 

O Pix mostrou que é possível. A pergunta é se vamos repetir a dose, ou entregar o ouro.

A pedra que tudo vê é poderosa, mas, no fim das contas, quem decide se vai olhar pra ela é a gente. 

O Brasil já provou que sabe forjar as próprias ferramentas. Seria uma pena entregar o nosso cofre de dados justamente para a bola de cristal de Sauron.