A bola de cristal de Sauron tem nome, CNPJ e contrato com o governo

A origem do nome já é uma confissão

O nome Palantir vem da franquia ‘Senhor dos Anéis’. Na trilogia existem pedras mágicas chamadas palantíri (‘aquela que vê longe’, na língua élfica de Tolkien): funcionam como bolas de cristal, e quem olha pra elas enxerga qualquer canto da Terra-média e espia inimigos.

Em “O Senhor dos Anéis”, o objeto mágico Palantir foi utilizado pelo mago das trevas Saruman • Reprodução/New Line Cinema

A empresa de vigilância e análise de dados, braço direito de Trump e da extrema direita norte-americana, escolheu se chamar Palantir de propósito: o fundador é fã de Tolkien.¹

Ou seja, não dá para dizer que foi acidente. Eles batizaram a empresa com o nome da esfera mágica usada para observar tudo e todos à distância.

Que raio é a Palantir?

Fundada em 2003, no clima paranoico do pós-11 de Setembro, a ideia era reunir dados desconexos (e-mails, transações, imagens de satélite) e transformar isso em “inteligência” para prever ameaças.2

O dinheiro inicial não veio de um banco qualquer: veio da CIA, pelo seu fundo de investimento, o In-Q-Tel.2 A empresa já nasceu grudada ao aparato de espionagem americano.

Paul/Sakuma/AP – Peter Thiel e Elon Musk estiveram envolvidos na criação do PayPal

E quem a fundou? O personagem-chave: Peter Thiel, o mesmo bilionário que co-fundou o PayPal (ao lado de gente como Elon Musk) e hoje é um dos maiores ideólogos da extrema direita do Vale do Silício.

Dele é uma frase que resume tudo: “a liberdade já não é compatível com a democracia”.3

Manifestantes em frente ao Serviço de Imigração e Alfândega  (ICE) creativecommons.org

Hoje, a Palantir:

  • Fornece ao ICE (a polícia de imigração dos EUA) o sistema ImmigrationOS, num contrato de US$ 30 milhões, para rastrear e priorizar imigrantes para deportação em massa.4
  • Presta serviços ao exército israelense, na guerra inclusive na Faixa de Gaza, com IA usada para localizar alvos, inclusive humanos, com índices de erro alarmantes.5
  • Trabalhou com o Pentágono e a CIA no Iraque e no Afeganistão.2

Tirou nota 2 de 10 em “liberdades civis e direitos humanos” numa avaliação da MSCI, uma das principais empresas do mundo em análise de risco para investidores.

Na prática, a MSCI ajuda fundos e gestores a decidir onde colocar dinheiro. Num ranking que vai até 10, tirar nota 2 é praticamente receber um enorme sinal de alerta.

O Gotham, o principal produto da empresa, coleta montanhas de dados: registros de tráfego, câmeras de segurança, placas, contatos e até redes sociais (mediante ordem judicial em alguns países). Junta informações estruturadas e não estruturadas, de registros públicos a prontuários de saúde, num único painel.

A partir daí, gera perfis de pessoas em tempo real, alimentando o “policiamento preditivo”: adivinhar quem vai cometer um crime antes do crime.6


foto:pexels

Algoritmo racista

Esses sistemas erram, e erram mais com pessoas negras.7

A máquina pode marcar um inocente como suspeito pela cor da pele e pela vizinhança. É a velha seletividade racial da polícia, agora com apoio de algoritmo.

O mais inquietante não é a Palantir vender software para o governo. É a ambição de se fundir a ele, virar a infraestrutura invisível da máquina pública.

No segundo mandato de Trump, isso saiu da teoria.

Em março de 2025, ele assinou uma ordem executiva mandando as agências federais compartilharem dados entre si, sob o pretexto de “eliminar silos” (“silo” é cada banco de dados que fica isolado dentro de um órgão, sem conversar com os outros; acabar com eles significa juntar tudo num lugar só).

Era a fundação de um possível banco de dados único sobre cada cidadão.8

E quem estava no centro da costura? A Palantir.

Seu software Foundry se espalhou por pelo menos quatro agências federais [americanas], facilitando cruzar, sobre a mesma pessoa, conta bancária, dívida estudantil, registros médicos e situação migratória.⁹

Somou ainda um contrato de até US$ 1,3 bilhão com a Defesa, a ponto de parlamentares dizerem que seus ‘tentáculos’ alcançam quase todo o governo federal.¹⁰ (E sim: a Palantir também já está no Brasil — mas isso fica para a Parte 2.)

A reação veio do próprio Congresso: 

Três parlamentares democratas (a oposição a Trump) enviaram cartas denunciando o risco de uma “mega-base” que tornaria fácil “espionar e perseguir” cidadãos.¹¹

São nomes de peso da ala progressista: Ron Wyden e Elizabeth Warren, senadores veteranos conhecidos por peitar big techs e bancos, e Alexandria Ocasio-Cortez (a “AOC”), deputada que virou símbolo da nova esquerda americana.

Elizabeth Warren & Yvette Nicole Brown/creativecommons

A Palantir nega: diz que não constrói banco de dados mestre nem viabiliza vigilância em massa, e que sua tecnologia até protege a privacidade.12 Fica a disputa, mas está escancarado: uma empresa privada, de um bilionário da extrema direita, virando a espinha dorsal de dados do Estado mais poderoso do mundo.

Steve Bannon faz gesto nazista durante discurso na Conferência de Ação Política Conservadora (Cpac) em Maryland, nos EUA – Reprodução/American Conservative Union – 20.fev.25/via Reuters

Não é só a Palantir: é um clube

Em 1º de maio de 2026, o Pentágono autorizou um pacote de gigantes (Google, Microsoft, Amazon, OpenAI, Nvidia, Oracle, a SpaceX de Musk e outras) a instalar IA dentro de suas redes militares ultrassecretas, em contratos que somam dezenas de bilhões de dólares.13

Entre os nomes: Elon Musk (que comandou o DOGE e cuja IA, o Grok, foi anunciada para o Pentágono), Jeff Bezos (cuja Amazon/AWS é a porta por onde a Palantir entrou até no Brasil) e o próprio Peter Thiel, cuja Palantir forma, com a Anduril e a SpaceX, o trio das “neo-contratantes” de defesa de Trump.15 16

O sociólogo Sérgio Amadeu dá nome a isso num livro inteiro, As big techs e a guerra total: o velho “complexo militar-industrial” virou um “complexo militar-industrial-dataficado”, em que o poder não está só nos mísseis, mas na coleta de dados da população mundial.14

Na guerra em Gaza e no Líbano, gigantes dos EUA deram suporte para rastrear alvos, e cresceu o temor de que isso tenha contribuído para mortes de civis.17

E essa engrenagem de dados a serviço da política não é novidade.

Lembra do escândalo da Cambridge Analytica, em 2018? Aquela empresa minerou dados de mais de 50 milhões de perfis do Facebook para influenciar eleitores, e trabalhou na campanha de Trump em 2016.28

O vice-presidente dela era ninguém menos que Steve Bannon, o ex-estrategista-chefe de Trump; e quem bancava o esquema eram os bilionários de extrema direita Robert e Rebekah Mercer.28

Segundo o denunciante Christopher Wylie, funcionários da Palantir chegaram a colaborar com a Cambridge Analytica na construção dos modelos de segmentação, algo que a Palantir minimiza, alegando ter sido iniciativa “pessoal” de um funcionário, sem contrato oficial.29


moldnugget – memedroid

O manifesto:

Se isso parece interpretação exagerada, a própria empresa resolveu confessar.

Em abril de 2026, a Palantir publicou no X um manifesto de 22 pontos, resumindo o livro do CEO Alex Karp, A República Tecnológica.18

No texto, ele afirma  que o Vale do Silício tem uma “dívida moral” com os EUA e a “obrigação” de largar os “apps e o e-mail grátis” para construir armas.18 Crava: “o poder duro neste século será construído sobre software”.19 

Reich Digital

Eles defendem que “algumas culturas permanecem disfuncionais e regressivas”, pede o fim da “neutralização” militar da Alemanha e do Japão (só faltou citar a Itália para fechar o trio; um papo bem estranho, considerando as associações históricas que isso inevitavelmente desperta) e ataca o “pluralismo vazio”, linguagem que críticos leram como uma defesa aberta da supremacia ocidental.²

O Instituto Humanitas Unisinos resumiu o documento como algo “entre o tecnofascismo e um vilão de James Bond”.20 Quando a empresa de vigilância escreve o próprio manifesto distópico, talvez seja o caso de acreditar nela.

“Palantir esta de olho em você” foto: Democracy Now- Youtube/Reprodução

Trump, guerra e Israel: o lado que a Palantir escolheu

A Palantir é hoje uma das empresas mais entranhadas na máquina de guerra dos EUA, a ponto de ser apelidada de “a traficante de armas de IA do século 21”; um de seus executivos chegou a comparar o trabalho para o Pentágono ao Projeto Manhattan, o programa que criou a bomba atômica.21 22

O elo com Trump. Peter Thiel, cofundador da empresa, é apontado como um dos primeiros investidores das carreiras políticas de Trump e do vice JD Vance, em quem despejou cerca de US$ 15 milhões para elegê-lo senador.21 23

A linguagem usada no manifesto da Palantir guarda forte semelhança com a retórica do segundo governo Trump.


aljazeera/reprodução

A Palantir fornece tecnologia de IA ao exército israelense:

Em 2024, firmou uma “parceria estratégica” com o país e ampliou sua atuação.22 

O CEO, Alex Karp, não esconde o lado: declarou ter “orgulho de apoiar Israel de todas as formas”.22 

Pesquisadores de direitos humanos apontam que a empresa está integrada à máquina militar israelense, e a relatora especial da ONU para os territórios palestinos, Francesca Albanese, citou a Palantir entre as big techs ligadas às operações em Gaza.25 

A empresa nega, alegando oferecer apenas uma ferramenta “analítica”.25

Aqui é preciso ter cuidado para não embolar as coisas, porque há vários sistemas, de donos diferentes, nessa engrenagem. 

Investigações das revistas +972 e Local Call revelaram o Lavender e o Gospel (Habsora), sistemas de IA que geram “listas de morte” automatizadas. 

O Lavender chegou a marcar cerca de 37 mil palestinos como suspeitos, com margem de erro de cerca de 10%, enquanto os operadores humanos gastavam uns 20 segundos “validando” cada alvo antes do bombardeio.26

Drone militar israelense IAI Heron, usado para monitorar, alvejar e bombardear edifícios ou indivíduos creativecommons

Há ainda o uso de reconhecimento facial para vigilância em massa em Gaza, que o New York Times atribuiu a tecnologias da empresa Corsight e do Google Fotos.26 

A Palantir não é o gatilho de cada um desses sistemas, mas é peça do mesmo ecossistema de “tecnologia de guerra” que pesquisadores e a ONU vêm denunciando.25

O pesquisador e cientista de dados Ergon Cugler ajuda a entender o que essa margem de erro significa: segundo ele, esses sistemas costumam operar com cerca de 10% de erro, ou seja, um a cada dez alvos pode estar errado.27

Numa região densamente povoada, isso quer dizer marcar como “alvo” uma criança, uma idosa, uma mãe de família, uma ambulância, um hospital ou uma escola. 

Para as empresas que vendem esses contratos bilionários, esses 10% são tratados como perda “tolerável” diante do lucro.27

Israel afirma que esses sistemas não “decidem” os alvos sozinhos, apenas dão suporte à inteligência humana, e que seu uso estaria de acordo com o direito internacional.26 

A disputa sobre responsabilidade segue aberta; o que não está em dúvida é o saldo de civis mortos, a maioria mulheres e crianças. 

É a lógica do “Ocidente contra o Resto”, agora rodando em software, e com o dedo no gatilho.26

Na Parte 2: o que tudo isso tem a ver com o Brasil ( a Palantir já está no nosso Ministério da Educação), o que é exatamente o “tecnofascismo”, quem é o guru que o MBL trouxe pra cá, , o clube secreto de Thiel e por que o Pix mostra que dá pra fazer diferente.