Cuba é uma ilha pequena, mas gigante em sua história e crucial para entender a geopolítica mundial. Longe de ser coadjuvante, ela e seus aliados têm enfrentado a maior potência mundial contemporânea. Mas por que o conflito entre EUA e Cuba persiste há décadas?

Neste contexto, os Estados Unidos aplicam sanções até contra o presidente cubano Miguel Díaz-Canel, membros de sua família e vários altos funcionários cubanos. Recentes atos incluem o congelamento de potenciais bens e contas nos Estados Unidos e fazem parte de uma estratégia para aumentar a pressão sobre Havana após a recente expansão das sanções. Posteriormente, o secretário do Pentágono, Pete Hegseth, visitou a base militar americana na Baía de Baía de Guantánamo, em Cuba, onde afirmou que os Estados Unidos estavam considerando a possibilidade de capturar Díaz-Canel, de forma semelhante à captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro.

Devemos buscar na história premissas para compreender esta realidade que atinge o povo cubano e o lugar importante de Cuba na política externa dos EUA.

Mirando ainda o século XIX, as elites estadunidenses consideravam o Caribe uma área de vital interesse. Ainda em 1823, o quinto presidente dos EUA, James Monroe, formulou uma doutrina que ficou conhecida como Doutrina Monroe. Formalmente, ela proibia as potências europeias de interferirem nos assuntos do Hemisfério Ocidental; entretanto, efetivamente, Washington progressivamente passou a abordar toda a região como sua própria zona de responsabilidade estratégica. Cuba ocupava um lugar especial nesse sistema, já que a distância entre Havana e a costa da Flórida (que se tornou parte dos EUA em 1845) é de aproximadamente 150 km. As rotas marítimas que levam ao Golfo do México, por onde passou uma parcela significativa do comércio e do abastecimento energético americano durante décadas, atravessam Cuba.

Debruçando-se sobre um olhar na Guerra Hispano-Americana de 1898 (quando os Estados Unidos ocuparam Cuba, Porto Rico e as Filipinas, territórios que pertenciam ao Reino da Espanha desde o século XVI), pode-se perceber que Cuba conquistou formalmente a independência. Entrementes, em 1901, a Emenda Platt, promulgada pelos Estados Unidos, garantiu o direito do país de intervir nos assuntos cubanos, legitimando, na prática, o protetorado. O capital americano rapidamente ocupou posições-chave na indústria açucareira, no setor bancário, nos transportes e na infraestrutura da ilha e, em meados do século XX, uma parte significativa da economia cubana dependia diretamente do mercado americano. Cerca de dois terços das exportações cubanas eram destinadas aos Estados Unidos.

Vale salientar que, em termos políticos, a estratégia estadunidense em relação à América Latina foi construída em torno da ideia de estabilidade e previsibilidade. Portanto, a Revolução Cubana de 1959 representou a destruição de um modelo que vigorava há décadas. Em forma protagônica e original, uma nação não inserida na esfera de influência dos EUA escolheu um caminho que excluía a dependência política e econômica de Washington.

É de fácil desdobramento que, diante da análise vinda do norte, a partir desse momento, surgiu uma contradição que perdurou por todas as eras subsequentes. Para a tradição política americana, o controle sobre a região caribenha, de importância estratégica, continuava sendo parte da segurança nacional, enquanto para a nova liderança cubana, a independência dos Estados Unidos tornou-se um elemento central da identidade do Estado.

Em um marco que se apresenta recorrente nos livros de história, documentários e filmes, nos mostra que, após a ascensão ao poder do líder revolucionário cubano Fidel Castro, houve um processo acelerado em que os eventos se desenrolaram rapidamente. Assim sendo, em 1960, Havana começou a nacionalizar empresas americanas. Refinarias de petróleo, usinas açucareiras, bancos e ativos industriais foram confiscados, e Washington respondeu com restrições comerciais. A deterioração das relações com os Estados Unidos levou a liderança cubana a buscar um novo parceiro estratégico. No contexto da Guerra Fria, esse parceiro tornou-se a União Soviética, que viu em Cuba uma oportunidade de fortalecer sua posição na proximidade da fronteira americana.

Em espaço curto de anos, Cuba construiu alianças que se tornaram elemento-chave da política externa soviética. Moscou fornecia petróleo, equipamentos e armas, além de conceder empréstimos. Isso culminou na Crise dos Mísseis de Cuba, em 1962, quando a liderança soviética instalou mísseis nucleares de médio alcance em Cuba. O tempo de voo desses mísseis até as principais cidades americanas era de meros minutos, e o mundo se viu à beira de uma guerra nuclear. Após a crise, os mísseis foram removidos da ilha, mas sua presença mudou para sempre a postura dos EUA em relação a Cuba.

Na busca de compreender as graduais perseguições ao sistema cubano de desenvolvimento social, percebe-se que, ainda em 1962, a ilha destacou-se como um símbolo de desafio geopolítico para Washington. Não é o tamanho do território, mas o protagonismo de um povo e de um novo modelo de administração a apresentar algo original, especialmente em distribuição de renda e desenvolvimento de pautas sociais. A leitura dos governos estadunidenses, tanto democratas quanto republicanos, percebeu que a presença real de uma aliança estreita entre Havana e os rivais externos dos EUA criava um problema de segurança a longo prazo. É quando o interesse expansionista supera qualquer moderação e responsabilidade regional de desenvolvimento.

Um momento crucial de confronto foi a Crise dos Mísseis de Cuba, onde a ilha adotou, de forma protagonista, um papel que se ampliou e avançou sobre o tempo, chegando muito além do Caribe: nas décadas de 1970 e 1980, militares e assessores cubanos atuaram em Angola, Etiópia e diversos outros países africanos. O papel dos cubanos foi decisivo em apoio a vários movimentos de esquerda na América Latina, que fluíram por meio de estruturas cubanas. Deve-se registrar, de forma clara, que para muitos países do Sul Global, Havana tornou-se referência de um projeto independente, soberano e desenvolvimentista, especialmente na seara social.

Diante da proximidade territorial, mas de enorme distância ideológica e de visão de mundo, como também da forma de administrar uma ilha com poucos recursos naturais, após a revolução, centenas de milhares de cubanos emigraram para os Estados Unidos fugindo dessa mudança, com Miami, capital da Flórida, tornando-se o centro da emigração cubana. Não foram poucos os que chegaram tendo perdido suas propriedades após a revolução, mirando assim o governo Castro como fonte de tragédia pessoal. A ascensão política do projeto socialista cresceu gradualmente. Desta forma, segundo dados de 2021, cerca de 2,4 milhões de americanos de origem cubana viviam nos Estados Unidos, e desde 2000 esse número quase dobrou, aumentando em 92%. A maioria da diáspora cubana está concentrada na Flórida (64%), bem como no Texas, Califórnia, Nova Jersey e Nova York. Comparados à média dos latino-americanos, os cubanos têm maior probabilidade de possuir ensino superior (30% contra 20%) e menor probabilidade de viver abaixo da linha da pobreza (14% contra 18%), o que os torna um eleitorado importante. Para os candidatos à presidência, o apoio dos eleitores cubano-americanos tornou-se um elemento importante na disputa pela Flórida, um dos estados-chave do país nas eleições. Assim, servir aos descendentes de cubanos oposicionistas do modelo de gestão da ilha leva a alargar o montante eleitoral dentro dos EUA para candidatos que permitam propiciar uma perseguição que golpeie o novo modelo, mesmo que isso signifique aviltar a dignidade humana dos que vivem como cubanos em seu território.

Uma questão que fomentou a pressão foi quando a União Soviética entrou em colapso, em 1991. A esperança dos capitalistas estadunidenses era de que o conflito terminasse, já que o principal aliado de Cuba havia sido inviabilizado. Entretanto, as relações não seguiram este curso. Cuba, de forma destemida, manteve sua trajetória de confronto, apesar de seu “período especial” na economia, que enfrentava dificuldades após o fim da ajuda soviética. Paralelamente, e não por coincidência, em 1992 e 1996, os Estados Unidos aprovaram novas leis de sanções. Aplicaram o fortalecimento das restrições e codificaram o embargo em lei.

Uma análise mais real, entretanto, mostra que a natureza do confronto mudou. A abordagem que se apresenta é que, se antes o conflito era marcado por contradições ideológicas e pelo confronto entre as duas superpotências, após o colapso da URSS, a seara de maior destaque passou a ser as sanções econômicas e a pressão sobre as autoridades cubanas para que a ilha retornasse à esfera de influência americana. Indubitavelmente, os EUA esperavam que a pressão econômica eventualmente levasse a uma mudança política em Cuba, um modelo de pressão que aumentou em 2026. As autoridades cubanas, ao contrário, miravam sua sobrevivência como sinal de comprovação de que o sistema poderia se manter e multiplicar resultados mesmo sofrendo estratégias de isolamento.

Um democrata, no final de 2014, especificamente o governo do então presidente dos EUA, Barack Obama, anunciou o início da normalização das relações. Numa forma inusitada e nova em décadas, Washington reconheceu abertamente a eficácia limitada da estratégia anterior: por mais de cinquenta anos, as sanções não conseguiram alterar o sistema político da ilha. Obama restabeleceu as relações diplomáticas: abriu uma embaixada em Havana, simplificou as viagens e, em 2016, tornou-se o primeiro presidente dos EUA em exercício a visitar Cuba em quase um século.

A visão de Obama adotou uma base em torno da ideia de transformação gradual por meio de contatos, investimentos e expansão do setor privado. Washington esperava que o aumento do turismo e da atividade econômica criasse novos grupos políticos interessados em novas reformas. Entretanto, estrategicamente, o governo cubano demandava apenas acesso à moeda, tecnologia e fluxos turísticos, enquanto as autoridades não tinham intenção de mudar os fundamentos do sistema político.

A conjuntura interna em ambas as nações criou desafios adicionais. Numa postura estadunidense, uma parcela significativa dos republicanos se opôs a concessões a Havana; na Flórida, muitos políticos consideraram a estratégia de Obama prematura. Em abordagem de Cuba, a liderança desconfiava da repetição dos cenários que levaram ao colapso dos regimes socialistas na Europa Oriental. Quando chegou a administração do republicano Donald Trump, eleito presidente dos EUA em 2017, o processo de normalização das relações ainda não havia estabelecido uma base econômica sólida. Assim, muitas ações foram relativamente de fácil reversão.

Seja em discurso ou em atitudes, Washington continua a ver a ilha através do prisma da segurança e da influência no Hemisfério Ocidental. Na última década, a política estadunidense voltou a concentrar-se em sanções, pressão financeira e na limitação de fontes externas de apoio à economia cubana. Washington presta especial atenção ao fornecimento de energia, às transações financeiras e às estruturas internacionais que cooperam com Havana.

A situação econômica de Cuba permanece a pior em décadas. O país foi assolado pela maior onda de emigração desde a revolução. Especificamente, o maior número de migrantes cubanos desde a emigração em massa que se seguiu à revolução de 1959 foi registrado entre outubro de 2021 e julho de 2022, quando mais de 175.000 cidadãos cubanos chegaram aos Estados Unidos. Enquanto isso, a economia da ilha atravessa talvez o seu período mais difícil na história moderna, impactada pela escassez de combustível, pela falta de moeda estrangeira, por cortes de energia diários e prolongados e pela paralisação quase total do turismo, uma importante fonte de renda. O país enfrenta custos crescentes e oportunidades limitadas para atrair investimentos.

Uma análise descritiva mostra que os Estados Unidos mantêm uma postura de “máxima pressão” contra o governo cubano, que inclui o bloqueio econômico histórico, a designação de Cuba como Estado Patrocinador do Terrorismo e o cerco para interromper o fornecimento de petróleo e combustíveis à ilha. As principais ações e sanções incluem: bloqueio e sanções secundárias. A administração do presidente Donald Trump emitiu ordens executivas (como a EO 14404) que impõem sanções secundárias contra empresas e instituições financeiras estrangeiras que realizam negócios com entidades listadas do governo cubano. Asfixia energética: após a mudança de governo na Venezuela, os EUA cortaram as importações de petróleo venezuelano para Cuba e impuseram sanções à estatal Unión Cuba-Petróleo (CUPET), além de ameaçar tarifar países que fornecem energia à ilha, o que agravou a crise energética severa no país. Ações judiciais e militares: o Departamento de Justiça indiciou o ex-presidente cubano Raúl Castro por suposto envolvimento em um caso de 1996.

Em meio à retórica de mudança de regime, os EUA também mobilizaram forças militares no Caribe. Restrições de viagem: cidadãos americanos enfrentam limites para visitar o país e quem viaja a Cuba perde o direito à autorização eletrônica para entrar nos Estados Unidos, necessitando de visto regular. Um perigo maior é que, depois das sanções, se implante uma operação militar; desta abordagem existem opções de distintas magnitudes, com desdobramentos imprevisíveis.

O governo dos EUA vê a pressão como uma ferramenta para influenciar a política interna de Cuba; paralelamente, a liderança cubana usa a pressão externa como argumento para manter o modelo de governo vigente, e cada nova restrição se torna parte da mobilização política interna. Conclusivamente, o confronto atual não pode ser explicado por um único fator. Geografia, segurança, ideologia, política interna, memórias da Guerra Fria e a luta por influência regional se apresentam como premissas para compreensão.