Por Iago Mendes

Regravar Roberto Carlos e Erasmo Carlos não é algo tão simples assim. A lista de artistas que já prestaram homenagem aos “irmãos camaradas” é pra lá de longa. Gal Costa, Caetano Veloso, Nando Reis, Ney Matogrosso e outros também já navegaram por essas mesmas águas; porém, o álbum de 1993 de Maria Bethânia é uma das leituras mais sofisticadas desse repertório.

Fica difícil superar versões tão clássicas e atemporais na voz dos dois medalhões do cancioneiro nacional, mas o trabalho de Bethânia as adota como se fossem suas — a exemplo de “Como Nossos Pais”, de Belchior, na voz de Elis Regina. As gravações foram realizadas entre Los Angeles e Londres, com produção artística de Guto Graça Mello, também parceiro de Roberto Carlos.

Foto: Divulgação

A abordagem romântica não é gratuita. A cantora já vinha construindo uma estética moldada por introspecção e um rigor interpretativo bastante latente. Mesmo sem perder a complexidade, Bethânia consegue dialogar com poesia e teatralidade, sem abrir mão do apelo popular — vide as versões de “Palavras” e “Costumes”.

“De manhã um bom dia na cama
A conversa informal
O beijo, depois o café
O cigarro e o jornal”

O álbum é um tributo à dupla de compositores. A ideia do disco partiu da gravadora PolyGram/Philips Records, que convidou a cantora — responsável também pela seleção do repertório. O disco é o mais vendido de sua carreira, superando Álibi, antigo recordista.

O trabalho se inicia com a balada “As Canções Que Você Fez Pra Mim”, capaz de nos levar rapidamente aos prantos: “Você disse tantas vezes que me amava tanto / Tantas vezes eu enxuguei o seu pranto”. Dificilmente houve uma abertura de álbum tão devastadora — e que conseguisse resumir uma desilusão de forma tão bela.

O tom delicado e intimista segue com a belíssima “Olha”, faixa de 1975. Sua interpretação eleva as canções de amor a um patamar pouco visto antes.

Os arranjos seguem um caráter econômico, porém elegante. Dessa forma, as músicas ganham mais silêncio e, por que não, uma dose de tragédia. As relações humanas — ou melhor, o amor — são, como de costume, o ponto focal da narrativa do disco. As canções refletem ausências, saudade, culpa e incompletude.

A emoção pungente retorna com a versão de “Detalhes”, uma das mais bonitas da vasta coleção de Roberto e Erasmo. Aqui, Bethânia constrói uma serenata enluarada, carregada de intimidade e entrega:

“Se alguém tocar seu corpo como eu, não diga nada
Não vá dizer meu nome sem querer à pessoa errada”

Essa sensação de conversa interrompida — quase como um telefonema que se perde — atravessa grande parte da obra. Uma lembrança que insiste em permanecer, ou um desejo que teima em reaparecer.

“Você” reforça a toada confessional ao revelar as dores de um grande amor que se perdeu pela estrada da vida. A faixa segue uma estética minimalista, tal qual um segredo que se passa por debaixo de uma porta que não podemos abrir.

Ao fim, Maria Bethânia encerra o espetáculo com a jazzística “Emoções”, construindo uma colcha de retalhos cuja revelação recai sobre como enfrentamos e lidamos com as nossas relações — e também sobre quem nos tornamos depois da rebentação de um amor perdido. O que antes era um registro contido transforma-se em uma celebração travestida de aceitação, como quem revisita a própria vida com mais serenidade e menos revolta.