A Geometria de Ser Quem Sou

Fernando reflete sobre ser cego, gay e nordestino, e como essas identidades formam sua força e resistência

Muitas vezes me perguntam como é ser cego e gay. Entendo a curiosidade, mas confesso que sempre achei essa pergunta intrigante. Colocada dessa forma, é como se eu vivesse em compartimentos, alternando entre uma identidade e outra conforme o dia da semana ou a conveniência do ambiente. Como se a possibilidade de essas duas realidades coexistirem fosse algo raro, impressionante até. Mas a verdade é que não existe um interruptor: eu não sou cego aos fins de semana e gay durante a semana. Essas camadas não se anulam; elas se fundem na construção da minha existência.

Ser cego e gay é viver em uma intersecção que a sociedade insiste em limitar ou simplificar. Existe uma mania de tentar encaixar pessoas em caixas únicas, mas a vida é multidimensional. Minha deficiência não apaga a minha sexualidade, assim como meu orgulho não ignora as barreiras físicas e sociais que encontro pelo caminho. O afeto que sinto e a forma como percebo o mundo são fios de uma mesma trama.

Para completar essa geometria pessoal, há o meu solo sagrado: sou nordestino. Essa é a base que sustenta todo o resto. Ser um comunicador que carrega o sotaque e o orgulho do Nordeste acrescenta uma camada extra de resistência e coragem. O preconceito, seja contra a minha origem, minha deficiência ou quem eu amo, esbarra na mesma barreira: a consciência de que sou a soma de tudo isso ao mesmo tempo.

A intersecção dessas vivências não é um fardo; é a minha perspectiva única sobre o mundo. Existir plenamente, ocupar espaços e reivindicar direitos já é, por si só, um ato político. No Mês do Orgulho, minha mensagem fala sobre essa integridade. Junho é um convite para celebrar a diversidade, reconhecer trajetórias e reafirmar que ninguém deveria precisar fragmentar quem é para ser aceito.

Não sou feito de pedaços; sou um todo. Assim como o arco-íris, que, para ser completo, precisa de todas as suas cores. É nessa totalidade — cego, gay e nordestino — que encontro a minha maior força. O amor não precisa de visão para ser enxergado, e a dignidade não aceita ser fragmentada. É sobre ser, em todas as cores e sentidos, exatamente quem se é.

*Fernando é jornalista, natural de Natal (RN), e escreve sobre acessibilidade, inclusão e combate ao capacitismo no Brasil. Aos dois anos de idade, em decorrência de um retinoblastoma (câncer na retina), perdeu a visão e, desde então, transforma sua trajetória em ferramenta de conscientização, promovendo debates, projetos e iniciativas voltados à inclusão de pessoas com deficiência.