O caminho do Hexa pode ser mais parecido com o Tri do que imaginamos
Lesões, desconfiança e um elenco questionado: as coincidências entre 1970 e 2026
Por Nathalia Medina – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Olhar para o passado costuma ser o exercício favorito do torcedor brasileiro em ano de Copa do Mundo. Geralmente, fazemos isso em busca de conforto, relembrando o brilho dos anos dourados para macronizar ou disfarçar as angústias do presente. Mas, em 2026, o retrovisor não traz apenas nostalgia; ele traz um espelho incrivelmente fiel. A caminhada da Seleção Brasileira rumo ao tão sonhado hexa está cercada por uma atmosfera de desconfiança que a maioria de nós julga ser inédita. Não é. O cenário atual repete, quase que de forma poética, os mesmos dramas que antecederam a maior glória do nosso futebol: a conquista do tricampeonato em 1970.
Para quem vê o esquadrão de Pelé, Tostão, Rivellino e Jairzinho eternizado em preto e branco (ou no vibrante amarelo daquela que foi a primeira Copa transmitida a cores), é fácil esquecer que aquela equipe viajou para o México sob uma tempestade de críticas. O Brasil de 1970 não era o favorito unânime; era um ponto de interrogação.
A dança das cadeiras e o fantasma da instabilidade
A começar pelo comando técnico. Se nos últimos anos o torcedor da Amarelinha se acostumou com trocas de ciclos, incertezas e interinidades antes da definição da comissão técnica atual, o período pré-70 foi um caos administrativo ainda maior. João Saldanha, o jornalista e treinador que classificou o Brasil com 100% de aproveitamento nas eliminatórias, foi demitido a poucos meses do Mundial após desavenças públicas com a CBD e até com o governo.
Zagallo assumiu o elenco às pressas, contestado pela imprensa, carregando o rótulo de “retranqueiro” e lidando com a opinião pública que exigia nomes que haviam ficado de fora. A instabilidade que o torcedor de 2026 sentiu na pele ao longo deste ciclo não é uma exclusividade da nossa era; é um estresse que o Velho Lobo conheceu muito bem.
O departamento médico cheio e o sacrifício dos craques
Outra rima clara entre o Tri e a busca pelo Hexa está no departamento médico. Em 2026, a Seleção Brasileira lida com desfalques crônicos de peças que deveriam ser pilares técnicos do time. O torcedor viu ruir a consistência defensiva com a gravíssima ruptura no tendão proximal do músculo bíceps femoral da perna esquerda de Éder Militão. No ataque, a criatividade e a velocidade foram duramente golpeadas com a perda de Rodrygo — que sofreu uma ruptura do ligamento cruzado anterior e do menisco lateral do joelho direito — e da jovem promessa Estêvão, cortado por uma lesão muscular de grau 4 na coxa direita. Para completar o drama pré-Copa, o lateral-direito Wesley virou baixa de última hora após sofrer uma lesão de grau 3 no músculo adutor da coxa esquerda durante o amistoso preparatório contra o Egito.

Mas o grande símbolo desse drama contemporâneo atende pelo nome de Neymar. Mesmo convivendo com os reflexos de uma lesão crônica e longe das condições físicas ideais, o camisa 10 segue com o grupo na América do Norte, no sacrifício, lutando contra o tempo para ter condições de jogo. O cenário repete o ano de 1970, quando o grande drama nacional era Tostão. O craque do Cruzeiro sofreu um descolamento de retina em 1969 que quase o aposentou do futebol, sendo operado nos Estados Unidos e passando meses sem poder cabecear. Sua convocação foi um ato de fé e risco extremo de Zagallo. O próprio Pelé vinha de duas Copas (1962 e 1966) nas quais havia sido caçado em campo e sofrido com lesões graves, fazendo com que muitos duvidassem se o Rei, aos 29 anos, ainda conseguiria entregar o nível de outrora. Nos dois ciclos, o departamento médico virou o coração das angústias do país.

“Cinco camisas 10 não jogam juntos”
O questionamento tático que vemos hoje sobre o encaixe da nova geração — se os jovens pontas e meias modernos conseguem jogar juntos sem desguarnecer o time — é a evolução natural do principal debate de 1970. A crônica esportiva da época cravava que era impossível reunir tantos meias criativos no mesmo onze inicial. Zagallo provou o contrário ao alinhar Jairzinho, Gérson, Tostão, Pelé e Rivellino — todos camisas 10 em seus respectivos clubes.
O que parecia um quebra-cabeça impossível tornou-se a sinfonia mais perfeita da história do esporte. O Brasil de 2026, criticado pela falta de um “meio-campo ideal” e pela dependência de lampejos individuais, encontra no passado a prova de que a adversidade e o questionamento público costumam ser o combustível mais refinado para o futebol brasileiro. Não sabemos se o final de 2026 será pintado de verde e amarelo como o de 56 anos atrás. Mas as semelhanças no roteiro mostram que, para a Seleção Brasileira, o caos nunca foi o fim da linha. Quase sempre, ele é o início da história.
Para assistir e entender: “Brasil 70, A Saga do Tri”

Se para as gerações atuais o esquadrão do Tri parece um conto de fadas distante e impecável, a série documental “Brasil 70, A Saga do Tri”, disponível na Netflix, cumpre um papel brilhante em humanizar aquele time. Em três episódios, a produção resgata com maestria os bastidores políticos sufocantes, as dores físicas de Tostão e Pelé, e o turbilhão de desconfiança que a imprensa despejava sobre Zagallo. Para quem quer entender a fundo como a crise pré-Copa se transformou no maior futebol que o planeta já viu, a série é um aquecimento obrigatório para 2026
Entre desfalques, críticas e cobranças por um futebol brilhante que teima em aparecer em um estalar de dedos, a Seleção Brasileira de 2026 entra em campo carregando o mesmo peso que o time de 1970 levou na bagagem para o México. A lição que a história — e as telas — nos deixa é que o veredito final sobre uma equipe nunca é dado antes do apito inicial da Copa do Mundo. O ceticismo que hoje nos afasta pode ser, novamente, o prelúdio da união que constrói campeões.
Afinal, se até os maiores gênios da nossa história precisaram ser questionados para alcançar a imortalidade, talvez o atual elenco esteja exatamente no lugar onde o futebol brasileiro mais gosta de surpreender: contra tudo e contra todos, prontos para reescrever o amanhã.



