A voz que sempre soube do crime
A chegada de Lauryn Hill ao Rio coincide com o reconhecimento da escravidão como crime contra a humanidade
Por Maria Amália Cursino
Pretaria
Há certas presenças que não precisam de contexto para fazer sentido. Lauryn Hill é uma delas. Quando sobe a um palco, carrega consigo três décadas de uma obra que nunca fingiu que o mundo era justo — e que nunca deixou de exigir que ele fosse.
Existe uma tese que o ativismo climático global ainda reluta em enunciar com todas as letras, mas que os dados confirmam sem margem para interpretação: sem justiça racial, não existe justiça climática. E, no sentido inverso, algo igualmente verdadeiro: sem justiça climática e ambiental, não existe justiça racial. São a mesma luta. São o mesmo crime. São os mesmos corpos que sofrem.
Há certas presenças que não precisam de contexto para fazer sentido. Lauryn Hill é uma delas. Quando sobe a um palco, carrega consigo três décadas de uma obra que nunca fingiu que o mundo era justo — e que nunca deixou de exigir que ele fosse.
Na noite do último sábado, a Enseada de Botafogo recebeu o Global Citizen Live: Rio de Janeiro, encerramento da primeira edição da Rio Nature & Climate Week, evento internacional dedicado a debates sobre mudanças climáticas, preservação ambiental, biodiversidade e desenvolvimento sustentável, reunindo cientistas, lideranças indígenas, artistas, ativistas, empresários e representantes de governos e organizações da sociedade civil.
Entre as atrações principais, Ms. Lauryn Hill e Wyclef Jean celebraram os 30 anos de The Score, álbum dos Fugees que redefiniu o alcance do hip-hop ao fundir gêneros, elevar a narrativa e trazer uma perspectiva radicalmente (do Sul) global ao mainstream.
O evento conectou entretenimento e impacto, convidando pessoas do Brasil e do mundo inteiro a agir pela Amazônia, pela justiça climática e pelas comunidades que estão na linha de frente das mudanças ambientais.
Mas o timing é mais do que musical. Em 25 de março deste ano, a Assembleia Geral da ONU aprovou, por 123 votos a favor, uma resolução histórica que reconhece o tráfico transatlântico de africanos escravizados como o crime mais grave contra a humanidade. O documento, proposto por Gana e copatrocinado pelo Brasil, conclama os Estados-membros a considerarem pedidos formais de desculpas e contribuições para um fundo de reparações. Três países votaram contra: Estados Unidos, Israel e Argentina. A maior parte da Europa se absteve. Indefensável.
“Eu fazia música que comunicava questões que não estavam sempre na pauta, para pessoas que nem sempre tinham voz.” — Lauryn Hill, Rock’s Backpages, 1999.
A frase, dita há mais de vinte anos, funciona hoje quase como uma profecia. The Miseducation of Lauryn Hill — seu único álbum solo, lançado em 1998 e vencedor de cinco Grammys — teve seu título inspirado diretamente em The Mis-Education of the Negro, de Carter G. Woodson (1933), obra que denunciava a doutrinação sistemática da população negra estadunidense sob o disfarce da educação.
Hill não escolheu essa referência por acaso. Transformou-a em manifesto sonoro: cada faixa é uma aula sobre pertencimento, dignidade, resistência e amor-próprio negro.
Agora, quando a ONU finalmente nomeia, em termos jurídicos, aquilo que artistas como Hill nomeiam pela música há décadas, algo se move no plano simbólico. A resolução vai além de reafirmar que a escravidão constituiu um crime contra a humanidade: ela a reconhece como a mais grave violação de jus cogens — norma imperativa do direito internacional da qual nenhum Estado pode se desviar. As consequências, afirma o texto, “estenderam-se por séculos e continuam presentes”.
O chão que queima mais para uns do que para outros
Continuam presentes. Essas duas palavras merecem atenção — e dados. Porque é exatamente aqui que o racismo ambiental entra na conversa, e que a Rio Nature & Climate Week deixa de ser apenas uma agenda climática para engrossar uma agenda de reparação histórica.
O racismo ambiental não é metáfora. É a expressão contemporânea e territorial do mesmo sistema que a ONU acaba de nomear como o mais grave crime contra a humanidade. Quem foi escravizado também foi expulso das terras férteis, empurrado para as margens dos rios que transbordam, para os morros que deslizam, para os bairros sem árvores, sem saneamento, sem hospitais.
A crise climática não criou essa desigualdade — ela a aprofunda, acelera e torna irreversível sem intervenção estrutural. Dizer que o ativismo climático pode existir separado do antirracismo é como afirmar que se pode apagar um incêndio pelo telhado ignorando as chamas que consomem o andar de baixo.
A lógica racista que orienta a formação das cidades brasileiras empurra populações negras e pobres para regiões de maior risco ambiental — encostas, margens de rios e áreas sem saneamento. Benjamin Chavis Jr., ativista estadunidense que formulou o conceito de racismo ambiental nos anos 1980, já alertava que a injustiça ambiental é mais uma forma de violência racial.
No Brasil de 2025 e 2026, os números confirmam esse alerta com crueldade estatística.
Um estudo inédito do Instituto Pólis, realizado em Belém, Porto Alegre, Recife e São Paulo, revela que a população negra é maioria nas áreas mais expostas a enchentes, deslizamentos e doenças associadas à falta de saneamento básico. Em Belém, pessoas negras têm até 30 vezes mais chances de serem hospitalizadas por doenças de veiculação hídrica do que pessoas brancas. No Recife, os bairros majoritariamente brancos concentram índices de saneamento, arborização e renda até sete vezes superiores aos das comunidades negras e periféricas.
Em escala nacional, dados de 129 cidades brasileiras mostram que 66,58% da população residente em áreas de risco é negra. Entre 2013 e 2022, cerca de 2,1 milhões de moradias foram danificadas por desastres climáticos e 107 mil foram destruídas. As famílias mais afetadas, mais uma vez, foram aquelas chefiadas por mulheres negras.
A pesquisadora Mariana Belmont, da Universidade de Brasília, descreve esse fenômeno com precisão: determinados territórios passam a ser tratados como “zonas de sacrifício” — locais onde a população convive com poluição, ausência de direitos e remoções forçadas sem participação efetiva nos processos decisórios.
“Esses territórios negros, indígenas e periféricos não têm os mesmos direitos que os territórios embranquecidos têm nas cidades”, afirma a pesquisadora.
“Uma abordagem racializada é fundamental para a elaboração de um Plano de Adaptação à Mudança do Clima adequado à realidade brasileira, uma vez que pessoas negras são, quantitativa e qualitativamente, as mais atingidas pelos efeitos danosos dos eventos climáticos extremos.” — Plano Nacional sobre Mudança do Clima, Brasil, março de 2026.
O próprio governo federal reconheceu isso. O Plano Clima, lançado em março de 2026, estabelece metas como a criação de um Comitê de Enfrentamento ao Racismo Ambiental e a ampliação da titulação de territórios quilombolas.
Trata-se do Estado brasileiro admitindo, por meio da política pública, que crise climática e racismo estrutural são manifestações distintas da mesma ferida.
Os 17 objetivos e uma dívida impagável
É exatamente aí que os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU entram em cena — não como uma lista burocrática, mas como a arquitetura de uma dívida histórica. Erradicar a pobreza (ODS 1), combater a fome (ODS 2), garantir saúde (ODS 3) e educação de qualidade (ODS 4), promover a igualdade de gênero (ODS 5), assegurar acesso à água e ao saneamento (ODS 6), ampliar o acesso à energia limpa (ODS 7), construir cidades sustentáveis (ODS 11), enfrentar a crise climática (ODS 13) e reduzir as desigualdades (ODS 10): cada um desses objetivos incide de forma desproporcional sobre populações negras e afrodescendentes — resultado direto e mensurável de séculos de escravização e de suas sequelas econômicas, sociais, territoriais e ambientais.
A resolução sobre reparações, nesse sentido, não corre paralelamente aos ODS: ela é a condição moral para que eles façam sentido.
O Global Citizen busca iluminar essa lógica. O evento reúne lideranças para estabelecer compromissos voltados ao acesso à energia limpa, à educação, ao emprego, à segurança alimentar e à saúde global — exatamente os temas nos quais as populações descendentes de pessoas escravizadas aparecem sub-representadas nos indicadores e super-representadas nas vulnerabilidades.
Hugh Evans, fundador do movimento, foi direto ao anunciar a Rio Nature & Climate Week: “Nós não acreditamos que apenas a consciência muda o mundo. A ação muda o mundo.”
O porto, a praia, a voz
Que Lauryn Hill — filha simbólica de uma diáspora que nunca deixou de cantar apesar da dor — esteja aqui, no Rio de Janeiro, cidade que foi o maior porto de entrada de africanos escravizados nas Américas, justamente no ano em que a ONU pronuncia aquelas palavras e em que os dados sobre racismo ambiental se tornam impossíveis de ignorar, não é apenas irônico. É dramático demais para ser ficção.
O Rio de Janeiro recebeu, entre os séculos XVI e XIX, mais de um milhão de africanos escravizados. A cidade que ofereceu sua orla como palco para um festival gratuito de cidadania global carrega esse peso na própria geografia — nos nomes dos bairros, nos terreiros, nos tambores, nas faces e também nas favelas erguidas sobre os morros onde a crise climática chega primeiro e o Estado chega por último.
Que a voz de Lauryn Hill ecoe nessa orla não apaga nada. Mas declara, em alto e bom som, aquilo que os dados já demonstram e que o ativismo climático ainda aprende a dizer sem hesitar: sem justiça racial, não há justiça climática. Sem justiça climática e ambiental, não há justiça racial. Sem reparação histórica, não há transição energética justa. Sem enfrentar o racismo ambiental, as metas do Acordo de Paris chegam ao prazo com números maquiados e comunidades destruídas.
E sem reconhecer que o mesmo Atlântico que transportou africanos escravizados é o mesmo oceano que hoje avança com a maré das mudanças climáticas sobre as comunidades habitadas por seus descendentes, não há ODS que resista, não há cúpula climática que baste, não há show gratuito em uma praia famosa que redima.
O ativismo climático que não nomeia o racismo ambiental é incompleto, tão inconcluso quanto a própria abolição da escravatura no Brasil. A agenda de reparações que ignora a destruição climática dos territórios negros é anacrônica. E qualquer política pública que trate essas duas emergências como pautas separadas é, no mínimo, desinformada — e, no máximo, cúmplice.
Na noite do último sábado, quando Killing Me Softly ou Doo Wop (That Thing) soaram na Enseada de Botafogo, provavelmente houve quem dançasse sem pensar em nada disso. Tudo bem. A arte tem esse direito.
Mas a obra de Lauryn Hill sempre soube que beleza e denúncia não são opostos — são, na melhor tradição da música negra diaspórica, a mesma coisa. E o chão onde esse palco foi montado sempre soube disso antes de qualquer resolução, antes de qualquer plano climático, antes de qualquer objetivo de desenvolvimento que ainda precisa aprender a pronunciar, de uma vez por todas, as palavras certas: raça, reparação e clima fazem parte da mesma equação.
Fontes
Global Citizen (globalcitizen.org); Prefeitura do Rio de Janeiro (8 maio 2026); Projeto Colabora (1 jun. 2026); Brasil de Fato / Instituto Pólis (10 nov. 2025); Radioagência Nacional / Agência Brasil (14 nov. 2025); Brasil de Fato / Plano Clima (16 mar. 2026); ((o))eco / Mariana Belmont (Universidade de Brasília – UnB) (maio 2026); Redação Online / Benjamin Chavis Jr. (7 jan. 2026); Assembleia Geral das Nações Unidas, Resolução sobre Reparações pela Escravidão e o Tráfico Transatlântico de Africanos Escravizados (25 mar. 2026); Rolling Stone Brasil; NPR; Essence Magazine.