Narrativas LGBTQIAPN+ ganham novos espaços e ampliam representatividade na cultura
Luca Guadagnini, Daniel Ribeiro e Bruno Freire discutiram representatividade, literatura jovem, internet e os desafios para ampliar a diversidade de vozes LGBTQIAPN+
As transformações das narrativas LGBTQIAPN+ ao longo das últimas décadas foram tema de debate durante a Feira do Livro de São Paulo. Reunindo os escritores Luca Guadagnini e Daniel Ribeiro, além do ilustrador Bruno Freire, a mesa discutiu os avanços da representatividade LGBTQIAPN+ na literatura, no cinema e nos quadrinhos, bem como os desafios que ainda persistem para ampliar a diversidade de vozes e experiências dentro da comunidade.
Ao longo da conversa, os convidados refletiram sobre a evolução dessas narrativas, que passaram de um histórico de apagamento para histórias mais diversas, complexas e conectadas às vivências reais de seus protagonistas. O debate também abordou o impacto das redes sociais, a ascensão da literatura jovem, a importância da interseccionalidade e o papel da cultura na construção de novas formas de pertencimento.
Para os participantes, a expansão das narrativas LGBTQIAPN+ está diretamente relacionada às transformações provocadas pela internet. Mais do que ampliar o acesso às obras, as plataformas digitais permitiram que autores, ilustradores e criadores independentes encontrassem seus públicos sem depender exclusivamente dos meios tradicionais de publicação.
O ilustrador Bruno Freire destacou que esse movimento foi especialmente importante para o universo dos quadrinhos. Segundo ele, produções independentes sempre existiram, mas enfrentavam grandes dificuldades para circular antes da popularização da internet. “Os quadrinhos independentes sempre existiram, mas era muito difícil fazer essas obras circularem. A internet mudou tudo. Ela permitiu que artistas publicassem diretamente para seus leitores”, afirmou.
Bruno lembrou que muitas pessoas passaram a conhecer autores LGBTQIAPN+ por meio das webcomics e das redes sociais. Como exemplo, citou a quadrinista norte-americana Alison Bechdel, referência histórica na produção de narrativas lésbicas. “Ela já falava sobre experiências lésbicas há décadas, mas muita gente só teve contato com esse trabalho depois da popularização da internet”, explicou.
Segundo ele, até mesmo conceitos amplamente difundidos atualmente, como o Teste de Bechdel — utilizado para analisar a representação feminina em obras audiovisuais — ganharam projeção internacional graças à circulação digital. Para Bruno, “a internet não apenas ampliou o alcance das histórias. Ela ampliou também o acesso às referências. E isso mudou completamente o cenário para quem produz e para quem consome narrativas LGBTQIAPN+”.
O escritor de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, Daniel Ribeiro, observou que os efeitos dessa transformação já podem ser percebidos em uma geração que cresce cercada por representações antes inexistentes. “Estamos vendo uma geração inteira crescer com essas referências. Uma geração que não vai precisar olhar para trás e pensar: ‘Eu não tinha histórias como essa’”, afirmou.
Para ele, o impacto dessas narrativas ultrapassa o público LGBTQIAPN+ e alcança também as famílias. Daniel observou que, durante muito tempo, identidades dissidentes eram tratadas como algo distante, pertencente sempre à realidade de outras pessoas. “Hoje, com a presença dessas histórias na cultura, muitos pais já crescem sabendo que essas possibilidades existem. Isso permite um olhar mais acolhedor e uma compreensão maior sobre o que significam a infância e a adolescência atualmente”, disse.
Ao refletir sobre os rumos dessas produções, Daniel destacou que o próprio público passou a demandar novas formas de representação. Se antes a principal reivindicação era romper com as tragédias que marcavam personagens LGBTQIAPN+, hoje já surgem discussões sobre novos conflitos e possibilidades narrativas. O autor conta que “tem gente reclamando dos romances felizes. Dizem: ‘Chega de gays felizes, cadê os gays trambiqueiros?’. Parece que estamos entrando em uma nova fase”, brincou.
A forte presença dessas narrativas na literatura jovem contemporânea também foi um dos temas centrais da conversa. Para os participantes, esse fenômeno está relacionado tanto ao processo de descoberta da identidade por parte dos leitores mais jovens quanto ao desejo de gerações anteriores de encontrar histórias às quais não tiveram acesso durante a adolescência.
Bruno Freire observou que muitos leitores buscam nessas obras experiências que lhes foram negadas durante a juventude. “Muita gente lê esses livros para curar uma criança interior que nunca teve a oportunidade de viver ou de ver essas histórias”, afirmou.
Ampliando o debate, Luca Guadagnini compartilhou sua própria experiência ao crescer no interior do Rio de Janeiro. Segundo ele, a falta de representatividade dificultou seu processo de compreensão da própria identidade. “Sempre soube que era uma pessoa LGBT, mas só consegui viver isso plenamente depois de sair da cidade onde cresci. Faltavam referências, faltavam histórias onde eu pudesse me enxergar.”
Para Bruno, as redes sociais desempenham um papel fundamental ao romper barreiras impostas por ambientes conservadores. “Quando a gente faz um vídeo para a internet, a gente quebra a barreira da escola e, muitas vezes, da família. A gente fala diretamente com o jovem que está sozinho no quarto dele e mostra que ele não está sozinho.”
Os participantes também destacaram que, durante muito tempo, personagens LGBTQIAPN+ apareciam em histórias marcadas por tragédias, preconceitos ou finais infelizes. A popularização de romances leves e otimistas representa uma mudança significativa nesse cenário. “A gente cresceu assistindo histórias em que o personagem gay morria no final ou não podia viver seu amor. Hoje temos romances leves, felizes e cheios de possibilidades”, relembrou Luca.
O debate ainda abordou a crescente presença de personagens que vivenciam múltiplas formas de marginalização. Entre os exemplos citados estão protagonistas negros, pessoas com deficiência, personagens bissexuais e pessoas trans. Luca destacou que seu livro Os Dois Tempos de Beto Garcia apresenta um protagonista negro que enfrenta simultaneamente o racismo e a homofobia.
Em um ano de Copa do Mundo, quando o futebol volta a ocupar o centro das atenções do público brasileiro, Luca lembrou que o esporte ainda é um dos ambientes mais racistas, homofóbicos e misóginos do mundo. “Eu queria justamente explorar essa questão: o que aconteceria se o camisa 10 da Seleção Brasileira fosse um jogador gay? Porque nós sabemos que existem jogadores gays, eles estão nos bastidores. Muitos atletas nunca se assumem por medo da reação dos torcedores, dos patrocinadores e do próprio ambiente esportivo”, relembrou.
Aprofundando o diálogo sobre representatividade, Daniel Ribeiro ressaltou que personagens LGBTQIAPN+ existem em todos os grupos sociais e que essa diversidade precisa aparecer nas obras. “O personagem gay não é um alienígena isolado da sociedade. Ele está em todos os lugares, em todas as classes sociais, em todas as famílias”, destacou o autor.
Segundo ele, políticas de incentivo e ações afirmativas vêm contribuindo para ampliar a presença dessas narrativas no cinema brasileiro, mas ainda existe um longo caminho para que essas obras ocupem um espaço mais significativo na dramaturgia nacional.
Apesar dos avanços, os participantes reconheceram que ainda existem desigualdades dentro da própria produção cultural LGBTQIAPN+. Bruno Freire observou que personagens lésbicas, bissexuais e trans continuam recebendo menos visibilidade do que personagens gays masculinos. Nesse contexto, Luca também destacou a dificuldade de encontrar obras que representem a bissexualidade sem recorrer a estereótipos. “Por muito tempo, a bissexualidade aparecia associada à ideia de confusão ou indecisão. Ainda sinto falta de histórias que tratem isso de maneira mais natural”, comentou.
A mesa também discutiu o papel das mulheres na produção de romances LGBTQIAPN+, especialmente em obras centradas em relacionamentos entre homens. Os convidados destacaram a importância dos fandoms e da cultura das fanfics para a consolidação desse mercado, defendendo que o tema deve ser analisado de forma ampla, considerando fenômenos culturais e evitando julgamentos simplistas sobre autoras, autores ou leitoras.
Ao final do encontro, os participantes reforçaram que o crescimento das narrativas LGBTQIAPN+ representa não apenas uma transformação no mercado editorial e audiovisual, mas uma mudança cultural mais ampla, capaz de ampliar referências, fortalecer identidades e criar novos espaços de pertencimento. “Estamos produzindo cada vez mais. Nem tudo chega ao mainstream, mas existe uma quantidade enorme de pessoas criando, contando histórias e abrindo caminhos para quem vem depois”, concluiu Daniel Ribeiro.



