Reencantar e resistir pela espiritualidade, pela política e pelo direito de sentir
Lançamento do livro “Café da manhã dos Orixás” reuniu babalorixás para nos falar sobre reparação histórica com fé
Por Isis Maria para a Cobertura Especial d’A Feira do Livro
Entre tambores historicamente apreendidos e urnas que ainda estão por vir, a mesa “Café da Manhã dos Orixás”, que reuniu o babalorixá, doutor em Linguística e professor Sidnei Nogueira, e o babalorixá e mestre em Filosofia João Tokunbó Carneiro, abriu a quinta-feira, 4 de junho, da Feira do Livro de São Paulo 2026. Com mediação de Adriana Ferreira Silva, a conversa atravessou mitologia yorubá, violência simbólica, transexualidade, colonialismo religioso e o papel das eleições de 2026 — tudo sob o eixo do reencantamento como prática política e espiritual.
“Reencantar não é amenizar a dor”
João Tokunbó abriu sua fala recusando qualquer leitura adocicada do conceito que dava nome à mesa. “Reencantar o mundo é amar o mundo. Reencantar a morte é entender que tudo isso é um ciclo. Não é amenizar a dor, não é amenizar a pena”, disse. “Reencantar a política não é deixar de combater a extrema direita: é combatê-la ainda mais, com amor — com o amor de um porrete, se for necessário, mas com amor.”
Para ele, o reencantamento parte de dentro, do Okã, o coração, e precisa ser coerente entre o saber, o fazer e o sentir. “Quanto mais formos coerentes entre o saber, o fazer e o sentir, mais reencantados seremos e estaremos.”
O perigo não é a religião — é a instrumentalização
Sidnei Nogueira foi direto ao ponto quando o tema chegou à religião no espaço público. “Neste momento que vivemos, a religião não é o problema. O problema é a instrumentalização, o mau uso, a forma como as pessoas — e, notadamente, os políticos — se apropriam de um discurso de um Cristo que não é o Cristo acolhedor, que andava com todo mundo. Esse é o grande problema.”
Ele foi além e apontou o papel das violências cotidianas normalizadas no avanço do fascismo. “O ‘tiozão do churrasco’, com suas brincadeiras, foi o que levou Bolsonaro ao poder.”
João Tokunbó reforçou: “Não levar a sério algumas brincadeiras nos levou à morte de milhares de pessoas por um governo fascista.”
A violência que antecede o corpo
Um dos momentos mais contundentes da mesa aconteceu quando Sidnei Nogueira deslocou o debate sobre violência para o campo da linguagem. “A violência mais séria, mais grave que vivemos é a violência simbólica. Quem mata pessoas trans é a violência simbólica, muito antes da violência física. A linguagem, o discurso, mata.”
E completou: “Fiquem atentos às pequenas mortes diárias provocadas pelas microviolências do discurso.”
João Tokunbó acrescentou uma dimensão espiritual à mesma questão: “O que sai da sua boca é determinante para saber se você terá um bom ou mau destino. A qualidade do seu axé está em saber o quanto de bem você pode construir na sociedade.”
A crise do sentir
“Vivemos a crise do sentir”, disse Sidnei. “Sentir é quase uma maldição. Precisamos voltar a sentir. A ausência do sentir fortalece a sociopatia, a ausência de empatia.”
O babalorixá e linguista recusou transformar esse diagnóstico em niilismo. Pelo contrário: o fato de o público estar ali, numa quinta-feira de feriado, ouvindo dois macumbeiros falarem sobre livros era, por si só, uma evidência de esperança. “Vocês vieram ouvir dois macumbeiros falar. Vocês vieram ouvir uma bixa preta macumbeira falar. Há esperança.”
Mitologia como ciência
Tanto Sidnei Nogueira quanto João Tokunbó reivindicaram a mitologia yorubá não como folclore, mas como um sistema de conhecimento. “O candomblé é ciência”, afirmou Tokunbó.
Sidnei explicou a cosmologia dos dois universos paralelos — o Aiyê, onde habitamos, e o Orun, universo dos ancestrais e dos orixás — e apresentou a figura de Ajalá Mupim, o fazedor de cabeças-destino que trabalha ébrio. “Graças a essa mitologia, a mutabilidade é a única certeza da vida. E Exu é a mutabilidade. Tudo pode mudar. Nós também podemos mudar, podemos romper. Exu diz: romper é continuar.”
Para ele, a encruzilhada — símbolo central de Exu — não é um lugar de angústia, mas de possibilidade. “A ausência da possibilidade de voltar à encruzilhada, isso sim é angústia.”
João Tokunbó recuperou a origem do jogo oracular como prática ancestral de orientação cotidiana, estabelecendo um contraponto entre o Café com Deus Pai e o Café da Manhã com os Orixás. “A ideia de consultar uma palavra para guiar a nossa conduta diária não foi criada no Brasil por editoras brasileiras. Foi criada por africanos, em terras africanas. O conhecimento é deles. Eu só estou devolvendo o que é de direito.”
Essa consulta, explicou, podia inclusive impedir uma pessoa de sair de casa, a depender do que os búzios indicassem.
Em seguida, contou o mito da mulher que vendia acaçá no mercado e que, ao confiar no ebó recomendado por um Babalaô e entregar toda a comida que possuía aos guerreiros de Ogum, tornou-se uma das mulheres mais ricas da comunidade.
“Aquela que confia na comunidade e oferece aquilo que é necessário, fica rica. Isso tudo nasceu num café da manhã com os guerreiros que foram para a guerra.”
“Todos nós somos trans”
Sidnei Nogueira propôs uma leitura radicalmente inclusiva da transexualidade a partir da mitologia. “A transexualidade nasce no momento em que um ori acostumado a um corpo feminino vai até Ajalá e recebe um ori masculino. É o erro que produz o acerto — a brincadeira de Exu.”
E estendeu o argumento para todo o público: “Todos nós somos trans. Todos nós temos alguma coisa para adaptar no nosso ori, na nossa cabeça, no nosso coração. A transexualidade não é algo inédito nem anormal. Transgredir é viver.”
Concluiu com uma afirmação que arrancou reação da plateia: “A pessoa que transgride a esse ponto merece mais o nosso respeito do que alguém que se acomodou na cisgeneridade. A transexualidade é um território de reencantamento da vida. É um território de magia e superpoder.”
Memória, saúde pública e apagamento
João Tokunbó situou as religiões de matriz africana como fundadoras de práticas de cuidado coletivo que o Estado, mais tarde, passaria a reivindicar como suas.
“Nosso primeiro SUS foram os babás. Foram eles que instituíram os primeiros cuidados de saúde pública. Foram as benzedeiras. Estamos falando de saúde pública antes do Estado.”
O apagamento das matrizes africanas vem de longe e segue se instalando diariamente. Sidnei completou o argumento do ponto de vista teórico: “Não existe terreiro intocado pelo colonialismo. Os terreiros também foram atravessados pelo cristianismo compulsório.”
Urnas como ritual
João Tokunbó encerrou sua fala apontando para 2026 com a mesma linguagem do sagrado que atravessou toda a mesa.
“Quando você estiver diante da urna nas eleições, reencante os números. Jogue búzios com seu pai de santo, com sua mãe de santo, mas não esqueça os números que vai apertar naquela urna, porque isso também é construir um destino coletivo.”
Sidnei completou, à sua maneira, o mesmo convite:
“Reencantemo-nos. Com nossa existência, com a presença, com a ausência, com o semelhante, com o diferente. Não podemos naturalizar a violência contra a mulher. O primeiro rio que navegamos foi o rio de Oxum: o líquido amniótico.”
E João Tokunbó encerrou:
“Que nosso reencantamento comece no nosso coração, passe pela nossa cabeça e seja celebrado, no final do ano, nas urnas, com bons e excelentes políticos eleitos pela nossa comunidade. Um axé reencantado para todos.”



