Por Isis Maria para a Cobertura Especial da Feira do Livro

Quando alguém chamou Verena Cavalcante de “musa tropical do horror” numa mesa da Feira do Livro 2026, o adjetivo escorregou quase sem querer para o centro de uma discussão que ela já carrega há bastante tempo: o que separa o Brasil da América Latina e o que une a literatura de horror daqui ao resto do continente.

“O Brasil costuma estar separado da América Latina”, ela diz. “As pessoas têm esse costume, não só por um desejo de estar mais ligadas à Europa e aos Estados Unidos, mas também porque somos um dos poucos países que falam português. Quando se fala de literatura latina, costuma-se pensar na literatura em espanhol.”

Tradutora, preparadora, revisora e autora de dois livros em circulação, Inventário de Predadores Domésticos e Como Nascem os Fantasmas, Verena esteve na Feira do Livro para duas mesas. E foi nelas que o conceito que define sua escrita ganhou espaço: o gótico tropical.

“O gótico tropical usa os mesmos elementos do gótico tradicional — o horror, o locus horribilis, que é esse lugar ruim, que pode ser uma casa, um lugar geográfico, a natureza em si. A antítese do lugar paradisíaco. Só que, como se passa no Brasil, como se passa na América Latina, ganha esse título de tropical porque a gente acrescenta elementos de fauna, de flora e da nossa própria história.”

É aí que a conversa fica mais precisa. O horror norte-global tem seus castelos, suas criaturas góticas, suas paisagens de frio e névoa. O horror latino-americano tem outro repertório, e Verena sabe exatamente onde ele mora: na infância.

“A infância é o molde dos monstros” é a epígrafe do seu primeiro livro, e não é uma metáfora vazia. É quase um manifesto.

“Para mim, a infância é esse lugar de fundação. Até pouco tempo, era esse lugar de violência, de invisibilidade, de negligência. E, ao mesmo tempo, de beleza, de deslumbramento, de olhar o mundo pela primeira vez.”

A ambivalência é o motor. Verena não quer fazer literatura panfletária, mesmo reconhecendo que toda literatura é política e que o horror é, segundo ela, “extremamente político”. O que ela quer é que o leitor pense sobre a infância, reflita sobre a própria infância. O horror entra como ferramenta porque nenhum outro gênero carrega, ao mesmo tempo, essa brutalidade e essa maravilha.

“A infância é brutal. Maravilhosa, mas brutal.”

Tem algo de James Baldwin nisso. Na mesma Feira, em 2024, uma mesa discutia como Baldwin acabou sendo lido como escritor militante por falar de racismo e negritude, quando, na verdade, simplesmente não tinha como não falar sobre aquilo que era. Verena ri do paralelo.

“Na maioria dos autores com quem eu conversei, as vivências e as experiências próprias são muito fortes para pautar o que você escreve.”

Me identifico.

Cresci numa rua onde havia uma vizinha, dona Joana, cujo muro trazia uma Iemanjá pintada. Todo mundo do bairro ia lá se benzer. Só muito tempo depois entendi que ela era umbandista. Era completamente normal. Era ordinário. Era infância.

Quando conto isso para Verena, ela reconhece na hora.

“A vida brasileira é você estar vivendo sua vida normalmente e aí ir na benzedeira, ou ir ao cemitério pedir para a criança que morreu 50 anos atrás te conceder um milagre. E aí ela concede, você leva uma plaquinha, um brinquedo para ela.”

O fantástico não é recurso aqui. É cotidiano.

E é exatamente por isso que o terror latino-americano não precisa de castelos: ele já tem quintais.

“Isso é muito Brasil. Isso é muito América Latina. Como o fantástico está entranhado no nosso cotidiano, na nossa realidade. A gente traz isso dessa pluralidade de religiões, de raças e de culturas que forma o nosso caldo brasileiro.”