Por Damiana Ventura e Pedro Lima

Natural da cidade de Assis, na fronteira entre São Paulo e Paraná, Bruna Haddad é produtora audiovisual, jornalista e professora. Se apaixonou pela Sétima Arte ao ter contato com um festival de cinema promovido por alunos da Universidade Estadual de Londrina (UEL), onde cursou Jornalismo. Os filmes “O Mundo”, de Jia Zhangke, e “Three Times”, de Hou Hsiao-hsien, despertaram sua percepção. Na infância, os melodramas do cineasta alemão Douglas Sirk, que assistia com a avó, em especial “Tudo Que o Céu Permite”, ocupam um lugar especial em sua memória. Já o documentário “As Canções”, de Eduardo Coutinho, selou seu amor pelo cinema.

Primeiros passos, primeiros voos

Brincar ao ar livre, subir em árvores, ler livros e observar o ciclo natural da vida desempenharam um papel constitutivo no olhar de Bruna sobre a arte.

“Quando você cresce em uma cidade no interior, você tem que se acostumar com o vazio desde muito nova. Meu padrinho me mandava muitos livros e eu ficava lendo embaixo da árvore. Eu morava na frente do velório que ficava atrás da igreja, lembro de ficar lá olhando as pessoas (…) Eu cresci na natureza, então gostava de observar as coisas com esse outro olhar.”

Em sua formação, a produtora direcionava seus interesses para as representações do Oriente Médio e para a produção de curtas-metragens na universidade.

“Fui conhecendo o pessoal em Londrina… a gente fez dois curtas em que eu era assistente de produção. Não sei o que eu estava fazendo ali direito, mas me encantei muito com ele [o cinema] e com a ideia de fazer uma coisa tão coletiva assim. Acho que continuo me encantando por essa possibilidade de fazer coletivamente.”

Pelo mundo

Com uma trajetória plural, Bruna Haddad atuou como jornalista escrevendo sobre gastronomia para a revista São Paulo, trabalhou na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e foi assessora de imprensa para o governo da Nova Zelândia, país onde morou por alguns anos. O trabalho a levou a viajar por países da América Latina, como Argentina e México, onde conheceu o Centro de Capacitación Cinematográfica (CCC), na Cidade do México.

No México em 2019. Foto: Kim Torres

O Centro de Capacitación Cinematográfica é uma instituição vinculada à Secretaria de Cultura do Governo do México e voltada à profissionalização de cineastas. O CCC é considerado um espaço de experimentação, excelência acadêmica e acesso democrático à população.

Ali começa a carreira de Bruna como produtora.

“Eu prestei a prova e achei que eles não iam me aceitar porque, na época, não falava espanhol muito bem. Fiz o curso de produção, um curso de formação em direção de fotografia… E foi muito incrível. Conheci muita gente da Costa Rica, de outros países da América Central e muitas pessoas que faziam cinema em outros países da América Latina.”

Bruna planejava retornar ao Brasil, no entanto, o golpe sofrido pela ex-presidente Dilma Rousseff a fez reconsiderar seus planos. Em 2017, concluiu sua trajetória no CCC e recebeu uma oportunidade da produtora mexicana Majo Córdova.

“Aprendi muita coisa com uma produtora naquela época, ela se chama Majo Córdova. Ela é uma produtora muito f*** e muito sensata na forma de lidar com a equipe, sabe?! Muito educada, muito respeitosa. Aprendi muito com ela.”

Em meio a dúvidas e inseguranças sobre a indústria audiovisual, em 2020 Bruna produziu seu primeiro longa-metragem, “Dos Estaciones”. Escrito pelos cineastas mexicanos Juan Pablo González, Ilana Coleman e Ana Isabel Fernández, o longa é uma coprodução entre México, França e Estados Unidos. A obra estreou no Festival de Sundance, em 2022, e a atriz Teresa Sánchez recebeu o prêmio do júri por sua performance.

Entraves

Ao se envolver na coprodução de seu segundo longa-metragem, “La hija de todas las rabias”, Bruna Haddad enfrentou desafios. Situado na Nicarágua, o filme carrega um forte viés político e social ao retratar a relação rompida entre uma menina de 11 anos e sua mãe enquanto tentam sobreviver no maior aterro sanitário do país. A obra é considerada o primeiro longa de ficção dirigido por uma mulher nicaraguense.

Embora represente um marco importante para a filmografia da Nicarágua, o longa enfrentou dificuldades logísticas desencadeadas pela pandemia de COVID-19, pelo cenário sociopolítico nicaraguense e pela precariedade estrutural associada à produção audiovisual no país, fatores que dificultaram a distribuição da obra.

No set de “La hija de todas las rabias”. Foto: Bruna Haddad

Já no México, Bruna reconhece que o país foi generoso com ela, mas observa que a misoginia se manifesta tanto nas ruas quanto nos ambientes de trabalho. Em uma indústria ainda dominada por homens, a produtora encontrou caminhos para enfrentar o machismo ao entrar em contato com o livro “O invencível verão de Liliana”, da autora mexicana Cristina Rivera Garza.

“Ela criou um vocabulário para escrever esse livro, ela não tinha esse vocabulário antes. Então, apesar de tudo, em termos de enfrentamento a episódios de machismo, eu sendo uma mulher muito privilegiada tanto lá quanto aqui, acho positivo criar vocabulário e também ferramentas de escuta com outras pessoas e amigas. (…) Acho que o mais bonito da vivência no México em relação ao tema de gênero é o tanto que inspira a luta feminista do país.”

“Seis Meses no Prédio Rosa e Azul” no Festival de Cannes 2026

Buscando por uma história mais próxima ao coração de quem cria e que tivesse uma produção um menor e mais intimista, Bruna Haddad foi cativada pela história que Bruno Santamaría Razo queria contar no longa “Seis Meses no Prédio Rosa e Azul”.

A obra teve sua estreia mundial no Festival de Cinema de Cannes em 2026 e é baseada na vivência real e fabulada pelo diretor. O filme embarca nos sentimentos de Bruno, um menino de 11 anos que descobre estar apaixonado pelo seu melhor amigo, Vladimir. O conflito entre os garotos é agravado ao receberem o diagnóstico de HIV do pai de Bruno. Trinta anos depois dos acontecimentos, Bruno revisita as lembranças que não foi capaz de compreender naquela época e percebe que, em meio à profunda tristeza, sua família encontrava na salsa um modo de afastar a dor que sentiam.

Still de “Seis Meses no Prédio Rosa e Azul” (2026), de Bruno Santamaría Razo. Foto: Divulgação

Ao comentar a participação do longa na Semana da Crítica, Bruna Haddad destacou a importância da coprodução entre Brasil e México, ressaltando que o filme nasce do encontro criativo entre profissionais latino-americanos. Segundo ela, a equipe desejava construir uma narrativa “viva, alegre e colorida”, mesmo ao abordar conflitos familiares e sociais atravessados pela epidemia de HIV nos anos 1990.

“Muitas das narrativas mexicanas selecionadas para esse tipo de espaço curatorial tendem a retratar apenas um lado da moeda: violência, dor e repressão. Na construção de ‘6 Meses…’, a gente queria evitar que os personagens fossem demasiado obedientes e submissos. Queríamos que eles encontrassem respiros de rebeldia, encantamento, paixão e liberdade.”

A produtora também apontou que o encontro com o jovem ator Jade Reyes, intérprete de Bruno, ajudou a reafirmar esse caminho sensível e afetivo pretendido pelo filme. Para Bruna, a recepção em Cannes demonstrou que o público conseguiu perceber essa complexidade humana agridoce que a obra buscava transmitir.

“Muita gente comentou conosco que o filme conseguia transmitir essa complexidade humana de forma bem-humorada e agridoce, como a salsa. Às vezes as letras falam de abandono, rupturas e decepções profundas, mas ainda assim é uma música que se dança e se canta coletivamente.”

Bruna também afirmou que gostaria de ter visto mais produções latino-americanas presentes na seleção do festival e destacou a potência de cinematografias ainda pouco conhecidas do grande público brasileiro, como a costarriquenha, a nicaraguense e a guatemalteca.

Bruna Haddad e Carlos Quiñónez em um dos sets de “Seis Meses no Prédio Rosa e Azul”. Foto: Kiryl Synkou

Próximos passos

O filme “Seis Meses no Prédio Rosa e Azul”, produzido por Bruna Haddad e Carlos Quiñónez, inicia agora seu circuito em festivais de cinema. A obra conta com distribuição da Freestyle e coprodução da Desvia, além de já ter estreia prevista no Brasil.

Além disso, Bruna produz, ao lado de Jamie Gonçalves, o filme “Água Caliente”, atualmente em fase de edição. Ela também é coprodutora de um novo longa de Guto Parente, com o título provisório “Futuro”, em processo de pré-produção. Com experiência docente na Escuela Veracruzana de Cine Luis Buñuel, no México, Bruna segue lecionando em cursos ligados ao setor audiovisual.

Entre produções internacionais, festivais prestigiados e experiências em diferentes países, Bruna Haddad constrói uma trajetória marcada pela valorização do fazer coletivo e pelo compromisso com o cinema latino-americano. Produzindo filmes e se dedicando a narrativas que a instigam, ela segue fazendo do audiovisual um território de diálogo, reflexão e transformação.