Território é aquilo que nos habita
Terra, pertencimento e permanência a partir de Sou Coração do Folclore Nordestino
Por Igor Travassos, comunicador e ativista socioambiental
Para garantir que negros alforriados não tivessem acesso ao chão, o Estado brasileiro criou, em 1850, a Lei de Terras, que estabelecia que todo lote de terra, para ser reconhecido como posse, teria que ser comprado. E aquela terra que não tivesse dono seria do Estado.
Uma medida para impedir o direito de existir, porque, em África ou nas comunidades indígenas, a terra, o pedaço de chão, não era algo desprovido de alma. Fazia parte da coletividade, da espiritualidade, do ser e estar no mundo.
A terra conecta o ser humano com sua potência mais íntima, com o não dito, com o pertencimento que só ele é capaz de sentir. Morar é também pertencer, fazer parte. Nós dizemos que somos de um lugar, fruto daquela localização, daquele território, e território é justamente a teia social que entrelaça a vida e os corpos daqueles e daquelas que pisam naquele chão e são parte dele.
Dessa relação com o chão vem também a forma como nós falamos, expomos nossas ideias e nos posicionamos no mundo, para nós e para o outro. Uma encruzilhada aponta quatro caminhos para os desatentos, sete para aqueles e aquelas que ali vivem. Afinal, existe o chão, o céu e o nosso interior. E esse interior é justamente quem nos conduz, quem diz onde o pé tem que pisar.
O chão está tão ligado ao interior que define quem somos e dá sustentação ao movimento. Isso é identidade. Quem somos sozinhos e em coletivo. Quem somos enquanto território.
O Estado brasileiro — e não só ele, mas qualquer mecanismo de controle — sabe disso. No caso de uma infração, quando alguém é preso, é retirado do seu território e isolado do contato com os seus. Isso não é novo. Deslocar as pessoas de seus lugares sempre foi uma estratégia de enfraquecimento, uma forma de exercer poder. Negros foram escravizados em África e deslocados forçadamente de seu território. Muitos deles preferiram o Atlântico.
Desde então até a contemporaneidade, terra é valor. Não basta ocupar. É preciso pagar para, assim, exercer poder sobre ela. Quem não tem dinheiro não tem terra.
Por outro lado, existe muita terra, e o Estado tem limites para fiscalizar, para controlar o inevitável. Quem vive precisa de terra. Para plantar, para comer, para existir e coexistir com os seus. Assim nasceram quilombos, vilas, povoados, comunidades tradicionais, cidadelas. Em um Brasil distante, cheio de ausências. Quando precisou dar conta desse território e exercer algum controle, o Estado também precisou garantir sua própria existência.
Acesso à água, acesso ao transporte, saúde, educação. Garantia de direitos. E é justamente nesse ponto que uma contradição aparece. Porque a mesma estrutura que chega para garantir direitos é também aquela que, muitas vezes, determina como a vida deve ser reorganizada. Uma estrada é aberta. Uma ferrovia é construída. Uma barragem é levantada. O discurso é quase sempre o mesmo: desenvolvimento, crescimento, progresso.
E não se trata de negar a importância dessas transformações. A questão talvez esteja em outra parte. Em quem paga a conta. Em quem precisa sair para que algo novo possa chegar. Em quem vê sua vida transformada sem necessariamente ter participado da decisão.
Porque uma barragem não alaga apenas um território. Alaga uma relação com o território.
A água cobre as casas, mas também cobre os caminhos. Cobre a sombra da árvore onde alguém esperava o cair da tarde. Cobre a pedra que servia de referência para voltar para casa. Cobre os percursos invisíveis que só existem para quem conhece aquele lugar. Cobre aquilo que dificilmente aparece nos relatórios técnicos, porque existem dimensões da vida que não podem ser medidas em hectares, metros cúbicos ou cifras.
Talvez por isso tantas comunidades tenham transformado a cultura em instrumento de resistência. Porque, quando quase tudo pode ser tomado, ainda resta aquilo que as pessoas carregam consigo: a memória, o jeito de falar, as histórias, as festas.
Os modos de celebrar a vida e de enfrentar a dor.
Existe algo profundamente político em uma festa popular. Não porque ela faça discursos, mas porque reafirma pertencimentos. Ela lembra às pessoas quem elas são. Lembra que ninguém existe sozinho. Lembra que identidade não é uma característica individual, mas uma construção coletiva.
É justamente por esse caminho que a Raio de Sol escolhe conduzir Sou Coração do Folclore Nordestino.
Paranã-Puka, a cidade imaginada pelo espetáculo, vive sob a ameaça de desaparecer. Uma represa promete inundar suas terras e obrigar seus moradores a abandonar o lugar onde construíram suas vidas. A situação não é nova na história brasileira. Talvez seja até comum demais. O que torna a narrativa interessante não é a ameaça em si, mas a forma como a comunidade responde a ela.
Em Paranã-Puka, não existe um herói destinado a salvar o povo. Não existe uma figura iluminada que aparece para resolver o conflito. Existe uma coletividade tentando compreender o que está em jogo. Existe Floriano, o florista que planta esperança e conduz os acontecimentos como quem compreende que uma comunidade só permanece viva enquanto for capaz de sonhar consigo mesma. Existem Chico e Andrelina, inquietos, questionadores, incapazes de aceitar passivamente aquilo que lhes é imposto. Existe Dona Augusta, sempre pronta para enxergar defeitos naquilo que é comum e valor naquilo que vem de cima, mas que, no fundo, ama e respeita aquele lugar e aquela gente. Afinal, ela não existiria se não houvesse ali.
E existe o Coronel Jacinto Pinto.
Talvez a escolha mais interessante da dramaturgia seja justamente não transformá-lo em um vilão simples. Seu desejo de expulsar aquela comunidade não nasce apenas da ganância. Nasce também de suas frustrações, de suas dores e do ressentimento acumulado ao longo da vida. O espetáculo parece compreender que o poder nem sempre se alimenta apenas da ambição. Muitas vezes, alimenta-se também de feridas.
O que acontece ao longo da narrativa não é uma derrota do coronel. É uma transformação. E essa transformação acontece quando ele consegue enxergar aquilo que os moradores de Paranã-Puka sempre souberam: aquele lugar não vale por aquilo que pode render. Vale por aquilo que produz. Produz memória, afeto, comunidade, pertencimento.
Quando o coronel compreende isso, percebe também que a terra nunca foi realmente sua. Porque a propriedade pode estar registrada em documentos, mas território é outra coisa. Território é aquilo que se constrói em comum.
É significativo que essa compreensão aconteça através da festa. Não através de uma disputa armada. Não através de uma intervenção externa. Não através da força.
A dança convence. A celebração convence. A cultura convence.
A quadrilha deixa de ser apenas uma manifestação artística para tornar-se uma forma de produzir entendimento sobre o mundo. E talvez seja essa a grande força do espetáculo: compreender que a cultura popular não existe apenas para preservar tradições. Ela existe para produzir vínculos entre pessoas. Existe para criar comunidade.
Por isso, Paranã-Puka é mais do que uma cidade ameaçada por uma represa. É uma metáfora sobre tudo aquilo que insiste em permanecer.
Sobre os territórios que continuam existindo apesar das pressões para desaparecer. Sobre as comunidades que seguem produzindo sentido em um mundo que frequentemente reduz tudo ao valor econômico. Sobre as pessoas que compreendem que existir não é apenas ocupar um espaço, mas construir uma relação com ele.
E talvez seja impossível não perceber que, ao falar de Paranã-Puka, a Raio de Sol também fala de si.
Ao completar trinta anos de existência, a quadrilha escolhe contar a história de uma comunidade que luta para continuar existindo. Não como peça de museu. Não como lembrança do passado. Mas como algo vivo, pulsante, em movimento.
Afinal, patrimônio não é somente aquilo que se conserva intacto. Patrimônio é aquilo que continua sendo vivido.
Talvez seja por isso que Sou Coração do Folclore Nordestino encontre sua maior potência não quando fala sobre uma cidade fictícia, mas quando nos lembra que todo território é, antes de qualquer coisa, uma construção afetiva. E que nenhuma comunidade desaparece completamente enquanto houver pessoas dispostas a carregar consigo suas histórias, suas memórias e seus modos de habitar o mundo.