Por Sueley Cavalcante

29 de maio de 2026

João Fonseca venceu Novak Djokovic em Roland-Garros. 

O brasileiro saiu perdendo por dois sets a zero, levantou o jogo, empatou e arrastou o duelo para um quinto set decisivo na Philippe-Chatrier. Fechou em 6-4, 6-4, 3-6, 5-7, 5-7 — uma virada histórica diante de um dos maiores atletas de todos os tempos. Aos 19 anos, tornou-se o primeiro adolescente a derrotar Djokovic em um Grand Slam.

Arquibancadas do complexo de Roland Garros, em Paris, recebem torcedores durante o torneio. Foto: Aleksandr Galichkin / Unsplash.

Para um país que não via um brasileiro nessa posição há mais de duas décadas, a frase tem o tamanho de uma geração. Mas para entender o tamanho do que aconteceu hoje em Paris, é preciso entender de onde esse menino veio e o que ele representa para um país que já viveu isso antes.

Roland-Garros conhecia o Brasil muito antes de hoje. Conhecia por causa de Gustavo Kuerten.

Guga não foi apenas tricampeão de Roland-Garros. Ele se tornou memória nacional. Em um país moldado pelo futebol, fez milhões de brasileiros acordarem cedo para assistir tênis em Paris, transformou saibro em assunto popular e levou um esporte historicamente elitizado para dentro do imaginário coletivo. O cabelo desgrenhado, sempre de sorriso no rosto, o coração desenhado na quadra depois das vitórias. Ele levava o espírito do Brasil para o mundo, alegria, improviso, carisma, emoção à flor da pele.

Depois veio a era Nadal, foram 14 títulos em Roland-Garros, a definição do que significa domínio.Por quase duas décadas, parecia impossível imaginar outra narrativa naquele saibro. E depois dele, uma geração nova tomou conta: Sinner, Alcaraz, Zverev, Djokovic ainda em campo aos 39 anos.

João Franca Guimarães Fonseca nasceu em 21 de agosto de 2006, em Ipanema, Rio de Janeiro, em uma família apaixonada por esportes. Sua mãe, Roberta, jogou no time mirim de vôlei do Flamengo nos anos 1980. O interesse pelo tênis surgiu por influência dela e dos irmãos ainda na primeira infância. Tocou em uma raquete pela primeira vez aos quatro anos, mas conta que o tênis era “apenas mais um esporte entre outros” até os 11.

Em 2022, aos 16 anos, integrou a equipe brasileira que conquistou a Copa Davis Júnior na Turquia, vencendo todos os seis jogos de simples que disputou e uma equipe que, segundo ele mesmo, estava longe de ser favorita. Em 2023, foi campeão do US Open juvenil e terminou o ano como número 1 do mundo na categoria.

Em 14 de janeiro de 2025, na sua estreia absoluta em chave principal de Grand Slam, venceu Andrey Rublev — número 9 do mundo naquele momento — por 7-6(1), 6-3 e 7-6(5) na Margaret Court Arena do Australian Open. Tornou-se apenas o segundo adolescente desde 1973 a derrotar um adversário top 10 em sua primeira partida num Grand Slam. Depois de vencer, disse para a torcida: “Tentei só curtir.” Com 18 anos e ar de quem não entendia muito bem o escarcéu que estava causando.

“Pretendo entrar no top 15 mundial. É uma ousadia, mas estou pensando grande.” JOÃO FONSECA EM ENTREVISTA À VEJA RIO, DEZEMBRO DE 2025.

Depois vieram os títulos: o ATP 250 de Buenos Aires e o ATP 500 de Basileia, tornando-se o primeiro brasileiro a vencer um torneio dessa categoria em mais de duas décadas. Saltou da 145ª para a 24ª posição no ranking em um único ano, tornando-se apenas o quinto brasileiro a integrar o top 25, ao lado de Guga, Thomaz Bellucci, Thomaz Koch e Fernando Meligeni.

2026 foi sendo construído como uma sequência deliberada de provas contra os maiores do mundo.

Em Indian Wells, na quarta rodada, levou Jannik Sinner, então número 2 do mundo a dois tie-breaks disputadíssimos, caindo por 7-6(6) e 7-6(4). Sinner escapou nos detalhes, foi em frente e ganhou o torneio. Semanas depois, no Miami Open, enfrentou Carlos Alcaraz na segunda rodada, sendo superado por 6-4 e 6-4 por um número 1 que admitiu ter precisado jogar concentrado do primeiro ao último ponto. Em abril, foi a três sets com Alexander Zverev nas quartas de Monte Carlo, sua primeira nessa fase em um Masters 1000.

Num circuito que costuma engolir jovens antes que eles amadureçam, isso não é pouco. Perder para Sinner, Alcaraz e Zverev em sequência seria motivo de recalibrar expectativa.

Antes de Roland-Garros, João havia dito ao site oficial do torneio: “Quando começo um Grand Slam, sempre digo ao meu técnico: quero jogar contra Djokovic. Provavelmente será uma das últimas oportunidades. Tentaria jogar meu melhor tênis, e não importaria o resultado, apenas desfrutaria.” O resultado importou. E muito!

Além da Quadra 

Talento no Brasil, nunca faltou. O problema nunca foi esse. O problema é que talento sem sistema vira exceção, e exceção não constrói tradição

Vista da quadra principal de Indian Wells, um dos mais prestigiados torneios do circuito mundial. Foto: Jason Zeis (@zeis) / Unsplash.

A Espanha construiu Nadal e Alcaraz dentro de uma cultura esportiva que começa na escolinha e termina no Grand Slam. A Itália levou décadas investindo em formação técnica e hoje colhe Sinner e uma geração inteira competitiva. A Sérvia fez de Djokovic um projeto nacional antes de fazer dele um ídolo.

O Brasil ainda não oferece o que seus talentos  precisam para competir em alto nível. E mesmo assim, João Fonseca está em Paris, batendo Djokovic em cinco sets. Diz tudo sobre o jogador. E diz muito sobre o país também.

A realidade de um atleta de um país sem sistema, é a de carregar um peso extra. Guga, além de tricampeão de Roland-Garros, foi a razão pela qual uma geração inteira de crianças brasileiras pediu raquete de presente. Senna além das corridas, mudou o que os brasileiros achavam que eram capazes de fazer. Marta, Daiane dos Santos, Isaquias Queiroz, Rayssa Leal, Rebeca Andrade, cada um deles, atletas extraordinários sem um sistema capaz de sustentá-los. abrindo portas que o investimento público nunca tinha construído. No entanto, depender de trajetórias quase heróicas é uma realidade a ser superada..

Referências transformam culturas. Uma criança que viu Guga vencer Roland-Garros passou a imaginar uma raquete nas próprias mãos. Uma nova geração que vê João Fonseca derrotar Djokovic de virada — saindo de 0-2 para 3-2 na Philippe-Chatrier — entende que aquele espaço também pode pertencer ao Brasil.

João Fonseca está abrindo a mesma porta agora e nosso desejo é  que  muitos passem por ela depois dele. Grandes atletas alteram o imaginário nacional porque fazem o impossível parecer acessível. Ídolos criam identificação. Investimento transforma identificação em continuidade.

Hoje, em Paris, João deu um passo enorme para, como ele mesmo disse, “entrar no top 15 em 2026”, mas também uma grande contribuição para o momento em que o Brasil volte a acreditar de verdade que o tênis também faz parte de quem nós somos

1. VAVEL USA. Highlights and sets Novak Djokovic vs Joao Fonseca (6-4, 6-4, 3-6, 5-7, 5-7) in Roland Garros 2026. 29 maio 2026. Disponível em: vavel.com/en-us/tennis-usa/2026/05/29/1262206-djokovic-vs-fonseca-live-score-roland-garros.html

2. ATP TOUR. Djokovic and Fonseca into fifth set of Roland Garros R3 thriller. 29 maio 2026. Disponível em: atptour.com/en/news/djokovic-fonseca-roland-garros-2026-friday

3. LANCE!. Ao vivo: João Fonseca x Novak Djokovic em Roland Garros. 29 maio 2026. Disponível em: lance.com.br/tenis/ao-vivo-siga-joao-fonseca-x-novak-djokovic-em-roland-garros.html

4. ESPN DEPORTES. Joao Fonseca sueña en grande para Roland Garros: ‘quiero jugar contra Djokovic’. Disponível em: espndeportes.espn.com/tenis/nota/_/id/15083984/djokovic-fonseca-roland-garros

5. ATP TOUR. Fonseca breaks new ground in Monte-Carlo with ‘super special’ run. 9 abr. 2026. Disponível em: atptour.com/en/news/fonseca-berrettini-monte-carlo-2026-thursday

6. NEXT GEN ATP FINALS. Fonseca Feature: 2026 PIF ATP Next Gen Accelerator. 23 abr. 2026. Disponível em: nextgenatpfinals.com/en/news/fonseca-feature-2026-pif-atp-next-gen-accelerator

7. MALAYSIA MAIL / AP. Top seeds Alcaraz and Sabalenka progress at Miami Open. 21 mar. 2026. Disponível em: malaymail.com

8. PRO FOOTBALL NETWORK. Joao Fonseca insists on staying ‘humble’ after Alcaraz, Sinner expose gap. 7 abr. 2026. Disponível em: profootballnetwork.com/tennis

9. CNN BRASIL. João Fonseca vence Andrey Rublev no Australian Open 2025. 14 jan. 2025. Disponível em: cnnbrasil.com.br/esportes/tenis

10. ATP TOUR. Fonseca upsets Andrey Rublev at Australian Open. 14 jan. 2025. Disponível em: atptour.com/en/news/fonseca-rublev-australian-open-2025-tuesday

11. TRIBUNA DO SERTÃO. João Fonseca revela principal meta para 2026 após temporada histórica. 25 dez. 2025. Disponível em: tribunadosertao.com.br

12. INFOMONEY. João Fonseca: conheça a trajetória do jovem brasileiro que acumula vitórias. Disponível em: infomoney.com.br/perfil/joao-fonseca-tenista

13. WIKIPEDIA. João Fonseca (tenista). Última atualização: 2026. Disponível em: pt.wikipedia.org/wiki/Joao_Fonseca_(tenista)

14. TENISNEWS. João Fonseca: o guia definitivo do novo número 1 do tênis brasileiro. Disponível em: tenisnews.com.br

15. JORNAL RECORD (PT). Gustavo Kuerten: Campeão com coração. 11 dez. 2007. Disponível em: record.pt/modalidades/tenis16. ARENA GERAL. Perfil AG: Gustavo Kuerten. Disponível em: arenageral.com.br/perfil-ag-gustavo-kurten