Conheça Cristian Mungiu, cineasta romeno vencedor da Palma de Ouro em Cannes 2026
Diretor de “Fjord” acredita que grandes filmes só podem ser avaliados com o tempo
Por Luiza Xavier
“Precisamos esperar uns 10, 20 anos para ver se fizemos um bom filme ou não, porque essa é a única coisa que qualifica uma boa obra de cinema.”
A reflexão é do diretor, roteirista e coprodutor Cristian Mungiu em entrevista à Deadline Hollywood. Vencedor da Palma de Ouro e ovacionado por 12 minutos no 79º Festival de Cannes com o longa “Fjord”, o cineasta romeno está longe de ser um estreante no prestigioso evento francês.
Cristian Mungiu tem 58 anos e nasceu em 27 de abril de 1968, em Iași, na Romênia. Antes de se tornar cineasta, estudou literatura inglesa na Universidade de Iași e trabalhou como professor e jornalista. Foi só depois dessa trajetória que ingressou na Universidade de Cinema de Bucareste para se dedicar à direção de cinema. Antes do lançamento de seu primeiro longa, Cristian escreveu vários curtas-metragens até estrear seu primeiro filme.
Sua filmografia é marcada por uma coerência temática. Após “Occident” (2002), seu primeiro longa, exibido na Quinzena dos Realizadores em Cannes no ano de seu lançamento, colaborou com outros cineastas da Nova Onda Romena no conjunto de episódios “Lost and Found” (2005), dirigindo o segmento “Turkey Girl”.
Em 2007 veio a obra que rendeu a Cristian sua primeira Palma de Ouro, a primeira vez na história que o prêmio foi concedido a um cineasta romeno: “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, sobre uma jovem que busca um aborto clandestino na Romênia comunista.
Dois anos depois, assinou o roteiro e a produção de “Tales from the Golden Age” (2009), filme de contos que reconstrói, de forma dramática e inusitada, lendas urbanas do regime ditatorial comunista romeno de Nicolae Ceausescu. “Beyond the Hills” (2012) voltou ao drama intenso ao retratar o conflito entre amizade e pertencimento. “Graduation” (2016) acompanha um pai disposto a comprometer seus próprios valores para garantir o futuro da filha. “R.M.N.” (2022) mergulhou na xenofobia e na polarização de uma pequena comunidade romena. E “Fjord” (2026) trouxe esse mesmo olhar crítico para a Noruega, colocando Cristian em uma posição histórica ao inseri-lo no seleto grupo de duplos vencedores da Palma de Ouro em Cannes.
Além de suas duas Palmas de Ouro, o diretor conta com o prêmio de Melhor Roteiro em Cannes 2012 por “Beyond the Hills” e o de Melhor Diretor em 2016 por “Graduation”. Entre suas influências declaradas estão a fase inicial de Miloš Forman e Robert Altman, além do realismo de “Ladrões de Bicicleta”, de Vittorio De Sica.
“Fjord”, previsto para estrear no Brasil entre o final de 2026 e o início de 2027, acompanha a família romena Gheorghiu, que se muda para uma pequena vila norueguesa e estabelece convivência com a família Halberg, vizinhos locais. Uma das filhas dos Gheorghiu é vista na escola com hematomas pelo corpo, o que abala toda a relação com os vizinhos e os coloca em uma situação delicada ao serem criticados publicamente por sua educação tradicional e conservadora.
“O que sempre me importa é o que vem a seguir. Sempre me pergunto se ainda sou capaz de encontrar mais uma história relevante para os meus contemporâneos, se consigo responder algo sobre eles e sobre suas vidas.”
Mungiu explicou em entrevista para a Digi24HD que não gosta de encenar fatos reais, mas sim de partir de acontecimentos verdadeiros para pautar temas importantes da atualidade. O cineasta demorou quase dez anos para produzir “Fjord”: pesquisou histórias semelhantes, entrevistou famílias envolvidas em disputas judiciais e acompanhou vivências na Noruega. Isso revela seu estilo de criação, baseado em uma imersão longa e rigorosa na história que quer contar.
O estilo de filmagem de Mungiu envolve planos muito longos, com a intenção de criar cenas de aparência natural: “como se você estivesse registrando momentos da realidade, mas, na verdade, há muita coreografia”, diz ele. A proposta é que os atores expressem as situações pelos sentimentos, sem palavras, após a gravação das falas.
Essa sensibilidade em seu estilo cinematográfico traduz exatamente seu desejo de que o público não saia da sala com a mesma opinião que entrou. Em “Fjord”, o objetivo é estimular o espírito crítico, fazer com que o espectador pense no que assiste e formule sua própria opinião. Para Mungiu, o filme deve funcionar como um espaço de conflito de ideias, não de respostas: “Fiquei muito feliz ao ver que o filme já estava provocando nas pessoas ideias muito diferentes sobre o que tinham assistido. E sempre que você tenta fazer algo polêmico e fala sobre uma sociedade polarizada, é bom ouvir opiniões conflitantes quando as pessoas saem da sala.” (Deadline Hollywood).
Esse senso de responsabilidade coletiva é o que move sua carreira. Crítico da polarização em ambos os espectros, Mungiu não se alinha nem à direita nem à esquerda: “Quando qualquer lado tenta impor seus valores, acaba provocando o efeito contrário”, disse em coletiva de imprensa em Cannes, conforme reportado pelo CinePop. Para ele, o cinema não deve tomar partido, deve abrir espaço para o pensamento.
Como declarou ao Zurich Film Festival em 2022: “Não acredito que o cinema possa dar soluções. Mas há uma coisa que o cinema pode fazer, e que a arte pode fazer: falar sobre coisas relevantes num momento específico da história. Não tenta dar uma conclusão nem qualquer tipo de conselho. Tenta falar sobre o estado complexo em que a sociedade se encontra hoje.”



