Grandes liberdades, grandes disputas
Mostra no Centro Cultural UFG reúne memórias, arte e resistência LGBTQIAPN+ em Goiás
Como agente atuante na cena cultural goiana e ex-superintendente de Direitos Humanos e Políticas Afirmativas para Assuntos LGBTQIA+ da Prefeitura de Goiânia em 2021, acompanho há anos as disputas em torno da visibilidade, da memória e da ocupação dos espaços públicos e institucionais por corpos dissidentes em nossa cidade. Talvez por isso tenha saído tão impactado da mostra Essa grande liberdade: identidades LGBTQIAPN+ em Goiás, realizada no Centro Cultural UFG.
A exposição, com curadoria de Paulo Duarte-Feitoza, ocupa de maneira virtuosa um dos mais importantes equipamentos culturais de Goiânia e reúne mais de 60 artistas e cerca de 120 obras, articulando diferentes gerações, linguagens e experiências LGBTQIAPN+ no estado. O que mais me impressiona é a inteligência com que constrói relações entre obras contemporâneas, arquivos, fotografias, documentos históricos e materiais audiovisuais. Existe um esforço evidente em pensar como memórias, desejos, apagamentos e formas de resistência foram produzidos em Goiás ao longo das últimas décadas.
A curadoria recupera, por exemplo, fotografias da primeira Parada do Orgulho LGBTQIAPN+ de Goiânia, realizada em 1996, colocando-as em perspectiva com uma fotografia produzida pelo artista Benedito Ferreira durante a Parada de 2023. O encontro entre essas imagens revela mudanças nas formas de ocupação da cidade, nas políticas de visibilidade e nos modos como diferentes gerações passaram a construir espaços de liberdade e reconhecimento coletivo.
Em uma das galerias, as fotografias de Adriana Bittar se destacam pela delicadeza com que abordam a intimidade de um casal lésbico. As imagens se concentram nos vestígios deixados no quarto: roupas espalhadas, lençóis amassados, pequenos objetos e marcas silenciosas de convivência. O espaço doméstico aparece como território de afeto e elaboração subjetiva, mas também como lugar historicamente importante para muitas pessoas LGBTQIAPN+ construírem zonas de proteção e existência diante da violência social.
Outra imagem que chama atenção é a fotografia em preto e branco que o talentoso fotógrafo Rodrigo Januário realizou de Pabllo Vittar. Em tons de cinza, a imagem se destaca pela delicadeza da luz, que envolve o rosto da artista com suavidade, criando uma atmosfera íntima e sensível.
Entre os trabalhos apresentados, Bestiário, de Benedito Ferreira, destaca-se pela maneira como transforma o corpo em território de fabulação. O vídeo acompanha, com magnetismo, um corpo que rebola, mas restringe o olhar a um único fragmento, concentrando-se na pulsão erótica. A partir dessa escolha, a câmera passa a se interessar por acontecimentos mínimos, pequenos movimentos atravessados por enigmas. A obra aposta na duração, na repetição e na instabilidade, criando um jogo constante entre desejo, aproximação e ocultamento. Entre as imagens, surgem cartelas vermelhas que iluminam a galeria e interrompem momentaneamente o fluxo do vídeo, instaurando uma atmosfera de suspensão e tensão sensorial.
Em outra galeria, a mostra apresenta um conjunto significativo de videoclipes e registros audiovisuais ligados à música produzida em Goiás. Entre os destaques está a Banda Uó, trio formado por Candy Mel, Mateus Carrilho e Davi Sabbag, cuja produção ajudou a deslocar imaginários sobre gênero, sexualidade e cultura pop no Brasil. A exposição também exibe videoclipes e registros de apresentações das lendárias bandas Valentina e Johnny Suxxx and the Fucking Boys. Seus vocalistas, Rodrigo Feoli e João Lucas Ribeiro, grandes amigos meus, tiveram papel fundamental na construção de uma importante cena independente em Goiânia, marcada pela performance, pela experimentação e pela intensa vida noturna da cidade.
Talvez uma das maiores forças de Essa grande liberdade esteja justamente em sua capacidade de mobilizar artistas de diferentes gerações e trajetórias, colocando em diálogo nomes já consolidados, como Fernando Costa Filho e Marcelo Solá, com produções mais recentes, sem apagar diferenças, tensões ou conquistas históricas. Em um momento no qual políticas culturais, arquivos e memórias dissidentes seguem constantemente ameaçados, ver uma exposição com essa dimensão ocupar o Centro Cultural UFG representa não apenas um feito curatorial, mas também um gesto político e simbólico importante para Goiânia.
Essa grande liberdade: identidades LGBTQIAPN+ em Goiás segue em cartaz de 13 de maio a 10 de julho de 2026, de segunda a sexta-feira, das 10h às 17h30, no Centro Cultural UFG, em Goiânia. A entrada é gratuita e a classificação indicativa é de 16 anos.