Seis meses de Rodrigo Paz: relato de uma traição
Crise e repressão aprofundam protestos na Bolívia, enquanto cresce a ruptura entre governo e setores populares
Por Quya Reyna – Bolívia
Há uma solidão avassaladora na cidade de El Alto. Não se ouvem as buzinas comuns, nem os comerciantes saíram totalmente para vender. Pessoas se deslocam a pé; ouve-se a borracha das bicicletas atravessando o asfalto na Ceja, o centro da cidade.
A calma, no entanto, não é a mesma na cidade de La Paz, que fica a 10 km da cidade alteña. Lá, a fumaça dos gases e os gritos por renúncia ecoam nas ruas estreitas da sede do governo. Camponeses das federações das 20 províncias camponesas “Túpac Katari” e “Bartolina Sisa”, a Central Obrera Boliviana e o magistério rural, além de outros setores sociais, decidiram realizar bloqueios e paralisações de transporte em todo o país, instalando mais de 50 pontos de concentração.
As tensões vêm se agravando devido à indiferença do governo de Rodrigo Paz em conduzir espaços de diálogo, convocando apenas organizações paralelas para chegar a acordos que não atendem às reivindicações sociais, como o esclarecimento sobre a gasolina contaminada que o governo vem distribuindo sem fiscalização nem regulamentação, além do acordo de aumento salarial para o magistério urbano e rural, já que seus salários foram congelados por decreto, enquanto o salário mínimo nacional foi reajustado.
A última investida do governo foi a repressão violenta ocorrida na cidade de El Alto nas primeiras horas da manhã de sábado, 16 de maio, na Ponte de Río Seco, onde mulheres e homens, adultos e idosos, foram reprimidos com gás e, paralelamente, presos. Durante o dia, a população se reorganizou, retomando novamente esses pontos de bloqueio e determinando um agravamento ainda maior dos protestos.
É importante destacar que essas mobilizações foram intencionalmente associadas ao ex-presidente Evo Morales para garantir seu descrédito e sua estigmatização como marchas financiadas pelo evismo, pelas ONGs e pelo narcotráfico, segundo declarações dos ministros e da porta-voz presidencial.

Ontem, a escalada da violência policial deixou mais de 90 presos e pessoas feridas por balas de borracha que, nos últimos dias, deixaram um jovem com ferimentos no rosto e a possível perda de um olho, além de outros manifestantes com ferimentos graves.
Essa repressão, planejada com os militares e a força policial, ocorreu depois que o governo instituiu o decreto 5620, que concede à polícia um bônus anual e único de 3.000 bolivianos, justamente quando o magistério rural havia solicitado a negociação de um aumento salarial. O governo insistiu em ignorar essas reivindicações.
Não é o único decreto que Rodrigo Paz promulgou, pois, nos últimos seis meses, o governo excedeu o uso de decretos para governar sem qualquer intervenção legislativa ou de uma oposição quase inexistente dentro do parlamento. O decreto 5503, que concentrava todo o poder de decisão sobre os recursos do Estado no Executivo, acabou sendo revogado por mobilizações sociais que determinaram sua anulação em janeiro deste ano, permitindo ao governo retirar o subsídio dos hidrocarbonetos.
No entanto, decretos como o 5515 e outros demonstram que o governo buscava reinstaurar um regime autoritário, pois o próprio decreto apontava a presidência como único meio de governo mesmo estando fora do país, retirando do vice-presidente Edmand Lara qualquer poder de sucessão na ausência de Paz, função garantida constitucionalmente.
É importante dizer que o vice-presidente foi um dos elementos-chave para a vitória de Rodrigo Paz, pois representava o setor popular e suas demandas. Assim que lhe foi tirado o poder, transferindo-o para setores empresariais e da elite agroindustrial que agora governam com Rodrigo Paz, gerou-se uma profunda ruptura entre o governo e seu eleitorado.
O governo não quer compartilhar o poder com os setores que o levaram à cadeira presidencial. Há uma sensação de traição, desprezo e profunda indignação, principalmente entre os aimarás, que agora são acusados de masistas mesmo tendo votado em Rodrigo Paz — um candidato de direita — por falta de alternativa, já que o segundo turno foi disputado entre Jorge Tuto Quiroga, eterno direitista da época da privatização, e Paz.
A última estocada do governo foi determinar a prisão de líderes sindicais, entre eles Mario Argollo, dirigente da COB; David Quispe, membro das federações camponesas; e até executivos do magistério rural.
Isso indica que o governo não busca ceder nem instaurar a ordem de forma horizontal, mas sim atacar as mobilizações e tratá-las como inimigas. A prisão dos dirigentes só levará a um descontentamento ainda maior, mas o jogo de empurra do governo apenas serviu para polarizar o campo social e apelar para o racismo instaurado na cidadania, reduzindo os manifestantes a simples “terroristas”, “selvagens” e outras denominações que circulam nas redes sociais.
Essa disputa foi caricaturada entre os bons e os maus porque, além disso, as mobilizações hoje não concentram aceitação social devido à insistência do governo e da mídia tradicional em mostrá-las como violentas, sobretudo por causa de vídeos que vêm circulando nos quais manifestantes, como o magistério, derrubam paredes do Ministério da Educação, entre outros episódios.
Algo mudou: esta Bolívia já não é a mesma de 2003, quando existia uma forte coesão social em defesa dos recursos naturais e da soberania nacional. Aquela luta, impulsionada desde El Alto, transcendeu o regional para se tornar uma causa de todo o país. A Bolívia atual é resultado desse processo histórico e do crescimento econômico que permitiu o surgimento de uma nova classe média; no entanto, também emergiu uma sociedade mais distante da consciência coletiva e menos atenta às decisões e interesses que hoje colocam em risco o futuro do país.
A Bolívia mudou.