Em ‘Copan’, Carine Wallauer transforma o prédio em retrato melancólico do Brasil
Premiado documentário acompanha eleição de síndico para refletir sobre polarização, coletividade e ruínas urbanas
Por Hyader Epaminondas
Carine Wallauer entende que o Copan sempre foi mais do que um amontoado de concreto vertical. Aquelas curvas gigantescas atravessando o antigo centro de São Paulo existem quase como uma cicatriz permanente na paisagem urbana, um símbolo arquitetônico de um Brasil que nasceu prometendo modernidade, integração e futuro, mas envelheceu sufocado pelo próprio desgaste econômico e social. A eleição de 2022 surge como o pretexto perfeito para discutir não apenas a polarização do país, mas também as pequenas estruturas de poder que organizam a convivência dentro do próprio prédio.
O edifício carrega algo profundamente contraditório na própria estrutura: ao mesmo tempo em que transmite imponência e grandiosidade, também parece permanentemente cansado, como se cada corredor absorvesse silenciosamente décadas de solidão, com suas paredes em tons desbotados de forma natural e frustrações acumuladas entre milhares de vidas empilhadas umas sobre as outras.
A fotografia mergulha em tons diversos, com um filtro que respeita a realidade do prédio para reforçar essa sensação de memória deteriorada em constante observação. Existe um tom fantasmagórico na maneira como Wallauer enquadra o concreto envelhecido do Copan, transformando o prédio numa espécie de relíquia melancólica de um futuro interrompido antes de se concretizar completamente.
Com uma visão arqueológica focada na classe trabalhadora, a câmera percorre corredores estreitos, janelas acesas e apartamentos comprimidos como quem tenta encontrar algum resquício de sociabilidade escondido entre rachaduras estruturais dos cotidianos. O verdadeiro labirinto do Copan está nas pessoas. Nas mais de cinco mil vidas que coexistem ali sem necessariamente se enxergarem, transformando o edifício num reflexo direto de um Brasil cada vez mais povoado e emocionalmente vazio.
O próprio recorte da eleição de síndico evidencia isso com muita clareza, e o filme dá a entender que a administração da época das gravações realizou um trabalho extremamente eficiente ao longo dos últimos 16 anos, mas ainda assim existe um desejo constante de substituição movido muito mais pela necessidade individual de ter voz, influência e protagonismo do que por uma real insatisfação coletiva.
Ninguém parece realmente disposto a assumir o peso da responsabilidade que aquele cargo exige, mas todos querem participar da disputa pelo poder. Existe algo humano e também bastante egoísta nessa necessidade de trocar algo funcional pela promessa incerta de mudança apenas para alimentar a própria sensação de participação e controle.
Um prédio que vigia São Paulo do alto como se tivesse consciência própria
Na época da faculdade, eu passava em frente ao Copan praticamente todos os dias, e talvez seja justamente por isso que o prédio sempre tenha me causado uma estranha sensação de deslocamento temporal. Sua arquitetura parecia existir fora da lógica da própria cidade, moderna demais para desaparecer completamente, mas envelhecida demais para ainda representar alguma ideia de futuro, e Wallauer me passa uma sensação de que entende esse meu dilema pessoal.
O Copan parece preso entre épocas diferentes, como um monumento sobrevivente de uma utopia urbana que resistiu fisicamente ao tempo, mas não emocionalmente. Talvez seja exatamente isso que torne o edifício tão fascinante: sua capacidade de continuar impondo presença mesmo carregando todas as marcas de desgaste de um país que aprendeu a coexistir com as próprias ruínas.
É um documentário que às vezes se disfarça de ficção, quase como uma coletânea de fragmentos sonoros que captura conversas fiadas, reclamações cotidianas e disputas para construir sua própria narrativa. O filme fala sobre política condominial, processos burocráticos e sobre como esse pequeno poder atravessa diretamente a vida das pessoas, enquanto o clima de eleição toma conta tanto do prédio quanto do país durante a campanha presidencial.
Quem mora em condomínio sabe que toda assembleia é uma prova objetiva de como a sociedade fracassou: interesses individuais sufocando qualquer possibilidade de coletividade, enquanto quase sempre vence quem reúne mais apoio, não necessariamente quem possui as melhores intenções. Wallauer transforma esse microcosmo num reflexo cruel do Brasil contemporâneo, onde convivência e disputa caminham lado a lado o tempo inteiro, como uma trivial competição esportiva entre dois times rivais.
É um longa sobre a convivência em sociedade, um grupo tão vertical quanto horizontal dentro desse prédio imenso, cheio de diferenças irreconciliáveis e pequenas semelhanças invisíveis. Carine Wallauer dirige dentro do Copan como quem observa um organismo vivo, contemplando corredores, ruídos e silêncios sem medo do tempo necessário para absorver a complexidade daquele espaço único.
No final, o maior prédio residencial da América Latina continua ali como sempre esteve: gigantesco, imponente, melancólico e contraditório, encarando a noite paulistana como um velho guardião cansado que viu a cidade crescer, se perder e envelhecer ao seu redor, e existe beleza justamente nisso.



