Fabio Meira e o cinema da reinvenção em ‘Mambembe’
Entre ficção, arquivo e reencontro, o longa faz da ausência um gesto de resistência artística
Por Maria Antônia Diniz
Se há dezesseis anos abríssemos o jogo para entender o futuro desse filme, a carta sobre a mesa possivelmente seria O Enforcado. No Tarot, o Arcano XII não fala de fim, mas de uma suspensão: é o tempo que estagna para ensinar outro modo de ver.
Por muito tempo, “Mambembe”, de Fabio Meira, habitou esse limbo arquetípico. O que deveria ter sido uma ficção solar em 2010 tornou-se uma obra em repouso, aguardando o momento em que o “erro” deixasse de ser falha para se revelar como destino. Afinal, há imagens que precisam de silêncio para aprender a falar.
O diretor, que nos últimos anos entregou obras de maturidade como “As Duas Irenes” e “Tia Virgínia”, voltou a 2010 para entregar um documentário sobre a própria tentativa, um retrato sobre o que acontece quando a vida se recusa a caber dentro de um roteiro.
A Poética do Possível
Como o próprio título sugere, “mambembe” carrega a precariedade itinerante de artistas populares, mas também o estigma daquilo que costuma ser visto como menor, improvisado ou insuficiente. É justamente dessa ambiguidade que o filme extrai sua força.
A jornada de Fabio Meira começa em 2010, quando o diretor goiano, recém-saído da escola de cinema em Cuba, parte em busca não apenas de imagens, mas de uma experiência capaz de atravessar memória e descoberta. Munido das lembranças de seu pai e da curiosidade por um modo de vida incomum, ele inicia uma pesquisa que, aos poucos, deixa de ser apenas investigação externa para se tornar também uma busca pessoal. Como ele mesmo reconhece hoje, era uma combinação de imaturidade e obstinação.
Nesse percurso, observar o universo circense deixou de bastar. Mais importante do que registrar contextos tornou-se escutar as histórias das mulheres que poderiam dar corpo às personagens inicialmente pensadas para a ficção. Entre entrevistas, deslocamentos e encontros, o projeto encontrou sua inflexão decisiva.
Quando perguntada sobre o que um filme de circo jamais poderia deixar de ter, Índia Morena, uma das figuras mais marcantes desse processo, respondeu de forma direta: pessoas do circo. Para ela, a verdade não se representa, se vive.
A resposta rompeu a lógica inicial do projeto. Tornou-se evidente que nenhuma atriz carregaria o peso de uma vida inteira sob a lona. Foi nesse momento que “Mambembe” abandonou a segurança da representação para se aproximar da força da presença. As personagens deixaram de ser figuras imaginadas e passaram a ser as próprias circenses: Jéssica, Madonna Show e Índia Morena, três mulheres de origens distintas, unidas pelo mesmo vínculo visceral com o circo.
A realização, no entanto, esbarrou em dificuldades logísticas e financeiras. Assombrado pela falta de orçamento, o projeto acabou engavetado. Mas é justamente nessa interrupção que reside uma de suas camadas mais fascinantes. Em vez de corrigir a incompletude com soluções artificiais, Fabio Meira transforma a ausência em estrutura. O que não foi filmado, finalizado ou resolvido deixa de ser falha para se tornar parte essencial da obra.
A Estética do Resto e do Risco
Assistir a “Mambembe” exige um olhar atento às texturas. A montagem, assinada por Affonso Uchôa, Juliano Castro e pelo próprio Fabio Meira, costura imagens de qualidades díspares, criando um mosaico não linear. De um lado, a imagem de 2010, ainda atravessada pelo ímpeto inaugural do projeto, de outro, a crueza do reencontro contemporâneo.
Fabio expõe suas feridas como diretor. Ao narrar seus diários de viagem e inserir cartas de tarot, ele desmonta a figura do autor para revelar um diretor atravessado por dúvida, em conflito com seus atores e com sua própria obra. É um cinema de risco, onde a tensão dos bastidores não é escondida, mas celebrada como parte da obra.
Essa tensão ganha corpo no embate entre o diretor e o ator Murilo Grossi. Em vez de esconder as fricções do set, Meira as utiliza para mostrar o desgaste de quem tenta moldar a realidade a um roteiro que o tempo já estava corroendo. Mas o obstáculo mais simbólico da obra é o das “duas Jéssicas”. Fabio buscava a verdade na fonte e queria que a Jéssica real, musa de um circo no Pará, atuasse no filme. No entanto, o veto patriarcal do dono do circo impediu sua saída.
O longa, então, se vê forçado a lidar com uma ausência. A entrada da atriz Dandara Ohana para “viver” Jéssica não serve para mascarar essa falta, mas para evidenciá-la. É nesse ponto que “Mambembe” deixa de ser um projeto sobre o circo para se tornar um estudo sobre a impossibilidade de executar o planejado. O diretor aceita o “não” como parte da narrativa, resultando em um cinema que não teme mostrar seus buracos e que entende que, às vezes, a história que resta é justamente aquela que não pudemos filmar.
A obra encanta pela fusão entre ficção, documentário e os vestígios de um projeto interrompido. No encontro entre circo e cinema, o tempo se transforma em linguagem. As ilustrações em pintura a óleo na abertura e as colagens no encerramento reforçam a dimensão afetiva do trabalho, num fluxo de transformação contínua que recusa a idealização da criação como gesto puramente inspirado. Pelo contrário, Meira reposiciona a arte no campo da disciplina e da reinvenção, privilegiando o fazer artístico como exercício de resistência diante das forças que empurram certas expressões culturais para o apagamento.
Um Cinema em Movimento
“Mambembe” também surpreende pela carga emocional de seu reencontro com o próprio passado. Ao revisitar, mais de uma década depois, artistas, imagens e afetos suspensos, o filme transforma o tempo em matéria sensível. Muitos daqueles corpos já mudaram de cidade, deixaram o picadeiro, afastaram-se entre si, junto deles, um modo de vida inteiro parece ter perdido espaço. O retorno a essas imagens não opera apenas como memória, mas como confronto: diante de versões mais jovens de si mesmos, essas personagens encaram não só o filme que nunca haviam visto concluído, mas também os rastros de um ofício em declínio e de relações desgastadas.
Se antes a experiência da ficção carregava algo de jogo ou improviso, o reencontro a reveste de ternura e melancolia. O mesmo vale para Fabio Meira, que revisita esse projeto inicial não como obra menor, mas como origem viva de sua própria trajetória. Assim, “Mambembe” desloca seu centro do amor exclusivo ao circo para alcançar algo mais amplo: um gesto de fidelidade ao próprio fazer artístico. Entre perda e insistência, o filme se revela menos como registro de um projeto interrompido do que como reflexão sobre vocação, memória e a capacidade de persistir na arte.
A imagem que fica, e que não por acaso estampa o cartaz do filme, é a de Índia Morena, Madonna Show e Dandara Ohana na fachada de uma igreja, atravessadas pela ventania. Nela convivem sagrado e profano, a ficção interrompida e a vida que insistiu em transbordar.
Ao fim, a sensação não é a de ter assistido a um filme incompleto, mas a uma obra que encontrou seu tempo de maturação. Se o Arcano do Enforcado abriu essa jornada sob o signo da suspensão, o Três de Copas, carta de celebração, encontro e partilha, conduz seu desfecho de volta ao movimento. “Mambembe” sugere que o cinema brasileiro compartilha algo essencial com o circo: ambos são frutos da teimosia, sustentados mesmo quando suas lonas vivem sob ameaça.







