Por Vinicius Francisco*

Neste mês de março, na cidade do Rio de Janeiro, participei do IAS Person-Centred Care Advocacy Academy, um fellowship internacional promovido pela International AIDS Society. O programa reuniu profissionais de saúde, pesquisadores, comunicadores e lideranças comunitárias da América Latina e Caribe com um objetivo claro: transformar o conceito de cuidado centrado na pessoa em prática real dentro da resposta ao HIV.

Mais do que uma formação técnica, a academia foi estruturada como um espaço de construção estratégica. Sob a liderança de Marlène Bras, diretora do departamento de Programas de HIV e Advocacy do IAS, e com a condução dos programas por Lina Golob, responsável pelas iniciativas de cuidado centrado na pessoa, e Emma Williams, gerente do programa, o fellowship combinou análise de dados, oficinas práticas de advocacy e imersões em território. A dimensão comunicacional também teve papel central, com a atuação de Tara Mansell, diretora de comunicação do IAS, e Teddy Bourgeonnier, responsável por estratégias globais de mídia, reforçando que comunicar HIV com responsabilidade é parte essencial do cuidado.

Logo no início, uma provocação orientou toda a experiência: se já sabemos o que precisa ser feito, por que ainda não fazemos?

O cuidado centrado na pessoa parte de um princípio simples, mas ainda pouco aplicado: ninguém vive o HIV isolado da sua realidade. Estigma, desigualdade social, acesso a serviços, território e identidade atravessam diretamente a experiência de cuidado. Ignorar isso não é apenas uma falha conceitual. É o que explica por que tantas pessoas ainda ficam fora dos serviços, interrompem tratamentos ou evitam o sistema de saúde.

Durante a academia, eu e a Dra. Mafê Medeiros, médica infectologista e subinvestigadora da Casa da Pesquisa do CRT, também selecionada para o fellowship, vimos dados apresentados que reforçaram uma realidade que não pode ser ignorada. Pessoas vivendo com HIV ainda enfrentam discriminação dentro dos serviços de saúde, não apenas no cuidado relacionado ao HIV, mas também em atendimentos gerais e em outras infecções sexualmente transmissíveis. Esse cenário faz com que muitas adiem, interrompam ou até evitem o cuidado por medo de exposição, julgamento ou tratamento inadequado.

Mas o cuidado não é atravessado apenas pelo estigma relacionado ao HIV. Ele também é marcado por desigualdades estruturais que determinam quem será acolhido, ouvido e respeitado. Pessoas trans, por exemplo, ainda têm sua identidade desrespeitada em situações básicas, como o uso correto do nome e dos pronomes. Pessoas pretas e pardas seguem enfrentando barreiras produzidas pelo racismo, que se expressa na desvalorização de suas queixas, na escuta precária e na menor qualidade do atendimento.

Falar em cuidado centrado na pessoa, portanto, também é falar em equidade. É reconhecer que não existe resposta efetiva ao HIV e às outras ISTs sem enfrentar o racismo, a transfobia e outras formas de exclusão que continuam organizando o acesso à saúde. Não se trata de falhas isoladas. Trata-se de estruturas que precisam ser transformadas por meio de políticas públicas, formação profissional, escuta qualificada e advocacy comprometido com direitos, dignidade e justiça social.

Foi nesse ponto que o debate sobre advocacy ganhou ainda mais força. Em uma das sessões, uma frase sintetizou bem o desafio: dor sozinha não é estratégia. Não basta contar histórias. É preciso conectá-las a evidências, identificar as falhas do sistema e transformar isso em demandas concretas. O advocacy, nesse contexto, deixa de ser apenas sensibilização e passa a ser uma ferramenta estruturada de incidência política.

Esse entendimento se aprofundou no dia de visitas de campo, parte essencial da metodologia do programa. Fomos divididos entre o Grupo Arco-Íris, referência na defesa dos direitos da população LGBTQIA+; a Fiocruz, uma das mais importantes instituições de ciência e saúde pública do mundo; e a Redes da Maré, que atua dentro do Complexo da Maré promovendo acesso a direitos e iniciativas de saúde no território.

Escolhi a Maré. E foi ali que o conceito ganhou forma.

Acompanhados por Carolina Dias, cientista social, doutoranda em antropologia e coordenadora do eixo Direito à Saúde da Redes da Maré, visitamos três espaços de assistência dentro da comunidade. Mais do que observar serviços, foi possível entender como o cuidado precisa ser constantemente adaptado para fazer sentido na vida das pessoas.

Em um território marcado por desigualdades, violência e múltiplas vulnerabilidades, o cuidado centrado na pessoa não aparece como uma diretriz teórica. Ele se apresenta como condição para que o cuidado exista. Escuta, vínculo e adaptação deixam de ser conceitos e passam a ser práticas concretas.

Essa experiência evidenciou algo essencial: não existe adesão sem confiança, e não existe confiança sem reconhecimento da realidade. Quando o cuidado ignora o contexto, ele se torna inacessível. Quando incorpora esse contexto, ele se torna possível.

Ao longo do fellowship, também ficou claro que essa transformação não depende apenas de profissionais de saúde. Ela exige o envolvimento das comunidades como protagonistas, pesquisadores comprometidos com a realidade, gestores dispostos a investir em modelos mais flexíveis e políticas públicas que enfrentem o estigma de forma estrutural. Falar em cuidado centrado na pessoa, nesse sentido, é falar também sobre equidade, direitos e justiça social.

Como coordenador de Comunicação e Educação Comunitária da Casa da Pesquisa, essa experiência teve impacto direto na forma como penso e executo meu trabalho. A comunicação deixa de ser acessória e passa a ser estratégia. Porque comunicar não é apenas informar. É aproximar ou afastar, incluir ou excluir.

Saio dessa experiência com um compromisso claro de devolutiva: traduzir esse aprendizado em prática concreta no território, fortalecer o papel dos educadores de pares, qualificar a forma como comunicamos ciência e ampliar estratégias de engajamento, especialmente com jovens. Mas também com o compromisso de tensionar modelos que ainda colocam o sistema no centro, e não as pessoas.

Participar deste fellowship foi, acima de tudo, um reposicionamento. Fez com que eu entendesse que colocar as pessoas no centro do cuidado não é uma tendência. É uma decisão.

E, diante dos desafios atuais da resposta ao HIV, é uma decisão que precisa sair do discurso e se tornar prática.

*Vinicius Francisco é jornalista e coordenador de comunicação e educação comunitária na Casa da Pesquisa do CRT.