Shakira reforça que o palco não pode ser pouco

Memória e música se cruzam em um relato de entrega, identidade e permanência que resiste ao tempo.

Por João Lucas Ribeiro

Tem artistas que a gente simplesmente descobre — e tem aqueles que passam a fazer parte da nossa história. Pra mim, Shakira está nesse lugar.

Minha relação com ela começou há mais de 30 anos. Eu tinha 13 quando vi um show no Clube Jaó, e já dava pra perceber que havia algo diferente ali. Era uma energia crua, rock, com uma identidade latina muito forte. Tinha discurso, emoção e, principalmente, uma vontade enorme de estar no palco. Não era só um show. Era necessidade.

É bonito pensar que uma artista desse tamanho começou construindo tudo na estrada, rodando o Brasil e passando por cidades fora do eixo. Isso diz muito. Não é só carreira — é formação. É criar presença, verdade.

Anos depois, quando subi com a minha primeira banda, Johnny Suxxx n’ the Fucking Boys, no mesmo palco em que ela tocou, senti algo difícil de explicar. Foi uma mistura de realização com pertencimento. Não era só tocar. Era ocupar um lugar que já tinha um significado enorme pra mim. Era fechar um ciclo e começar outro. Era estar exatamente onde eu queria estar: no palco.

Por isso, não foi só assistir a mais um espetáculo. Foi um encontro entre quem eu fui, quem eu sou e tudo o que a música ajudou a construir no caminho.

Olhando de forma mais técnica, o que ela faz ali impressiona. O show funciona como uma linha do tempo viva, que conecta diferentes fases da carreira com inteligência. O repertório alterna momentos de explosão com outros mais íntimos, sem perder o ritmo. A direção de palco é precisa: sabe quando crescer e quando segurar. A banda é sólida, os arranjos respeitam os clássicos e ainda trazem frescor. E a voz continua ali — forte, reconhecível, cheia de identidade.

Mas, mais do que qualquer detalhe técnico, o que marca é a entrega. Mesmo passando por momentos pessoais difíceis, como a saúde do pai pouco antes do show, ela sobe no palco inteira. Sem economizar. Existe um compromisso real de dar tudo. Isso não se improvisa.

O palco não aceita mais ou menos. Como dizia Márvio dos Anjos, da banda Cabaré: o palco não pode ser pouco.

E quando esse show acontece em Praia de Copacabana, tudo ganha mais peso. Não é só música. É também representatividade. Ver uma mulher latino-americana ocupando esse espaço com essa força é potente. Shakira não está ali só por ela. Ela carrega uma história maior — de mulheres que abriram caminho e afirmaram sua voz em espaços que nem sempre foram feitos para elas.

A escolha dos convidados deixa isso ainda mais especial. Anitta, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Ivete Sangalo não estão ali só como participações. São símbolos da música brasileira — artistas que ajudaram a construir história e identidade. Colocar essas vozes no palco é mais do que um gesto de carinho com o Brasil. É uma troca real.

No fim, o que fica vai além do espetáculo. Fica a sensação de estar diante de uma artista que construiu tudo com consistência, coragem e verdade. Em um momento em que números e algoritmos parecem decidir o que importa, artistas assim lembram que carreira não é só sobre plays. É sobre permanência, conexão e significado.

E talvez seja isso que mais me emociona: aquela garota intensa, cheia de energia, que eu vi lá atrás no Clube Jaó, ainda está ali.
Maior, mais madura, mais sofisticada.
Mas com a mesma chama acesa.